Bruninho, como é conhecido no dubstep, passou a incorporar esses sons nos seus sets e a transformar a curiosidade em uma missão. Divulgar e difundir o dubstep, o grime e toda a bass culture - contanto aí com a altíssima criatividade musical dos brasileiros. Nascido em São Paulo, Bruno toca dois projetos: o Tranquera, festas de dubstep itinerantes, e o Subcut, audiovisual usado nessas festas. “Quero o som que toco e produzo nos clubs mais legais do país”, crava.
Quando e onde começou sua carreira como DJ?
Toco desde o final dos anos 90. Basicamente comecei tocando jungle. Foi como descobri a mixar. Ver o Marky, o Patife, o Xerxes e o Andy tocando em festas que acompanhava de perto naquela época foram as melhores aulas que já pude ter até hoje. Sempre pegava discos na loja do Andy, a antiga Vinyl Records. Outra loja que frequentava era a Groove City do Nilton. Eles sempre me incentivaram e me apoiaram desde o começo. Minha primeira gig foi numa festa bem legal que fizeram num galpão no centro da cidade. A cabine era bem alta e a estrutura balançava muito! Foi bem divertido. A primeira virada ao vivo é inesquecível!
Como foi seu primeiro contato com o underground londrino?
A ficha caiu logo que percebi a dinâmica do mercado de vinil na cena eletrônica lá fora. Antes só conhecia os discos que rolavam no meio hardcore, punk rock. Quando você vê discos sem arte impressa, estampados com carimbos mesmo, circulando em pequenas quantidades através de distribuidoras locais, é sinal de que ali existe produção e atividade independente.
E como você conheceu o dubstep?
Ouvindo vinil. No meio de uma pilha de white labels estava um exemplar da primeira compilação Grime, do Rephlex. Os discos traziam faixas do MRK1 e do Plastician. Procurei o catálogo do selo na internet e consegui entrar em contato com eles por email. Naquela época não existiam sites dedicados exclusivamente ao tema. O dubstep ainda era novidade para muita gente, mesmo em Londres. As mixtapes com gravações da Rinse FM, divulgadas em blogs, ajudavam bastante na pesquisa. O Caspa chegou a mandar alguns CDs pelo correio. Todo mundo queria sair do gueto londrino para tocar pelo mundo.
Como e porque surgiu o Tranquera.org?
Topei fazer uma festa pequena para mostrar minha pesquisa sonora. Era preciso sentir o grave batendo num sound system de verdade. Já andava gravando mixes, recebendo discos e tocando em outras gigs. Resolvemos chamar a nossa noite de Tranquera. A festa e a plataforma digital surgiram ao mesmo tempo. Depois veio o programa ao vivo na internet, os podcasts, etc. O projeto foi tomando corpo ao longo dos anos.
Além da Baixaria, onde mais se pode ouvir dubstep no Brasil?
Na Subcut. O que era para ser um projeto avulso com a gig do Elemental (Reino Unido) no Brasil se transformou numa proposta de festa mensal. O resultado foi excelente, as pessoas gostaram bastante e logo deve rolar a próxima edição do projeto.
Você acha que no Brasil a predominância de festas mais 'otimistas' e 'upbeat' pode atrapalhar a existência do dubstep?
O dubstep flerta com diversos gêneros musicais. É a herança genética do seu DNA sonoro que vem do house. No momento, o dubstep concentra muitos artistas que estão rompendo barreiras musicais entre estilos diferentes. O convívio e a relação com outras cenas é fundamental.
O que é o Subcut?
O Subcut é um projeto audiovisual que explora as baixas freqüências do espectro sonoro e instiga a memória através de flashes imagéticos epilépticos. Para saber como é na prática tem que estar lá ao vivo mesmo.
Muitos o chamam de 'Embaixador do dubstep' no Brasil. Como você encara isso?
Quando as pessoas procuram por dubstep elas inevitavelmente encontram o Tranquera ou algum tipo de desdobramento do nosso trabalho. A Mary Anne Hobbs me convidou para participar do Dubstep Warz na BBC, fui chamado para representar o Brasil no Wiener Festwochen (Festival de Viena) e a XLR8R encomendou o podcast Dubstep Goes South para mostrar ao mundo o que a América Latina está produzindo. É sem dúvida uma responsabilidade muito grande.
Quais são os seus próximos projetos?
Para 2009 meu objetivo é colocar o som que toco e produzo nos clubs mais legais do país e trazer artistas do exterior para o Brasil. O intercâmbio é fundamental. O Tranquera serve de plataforma para artistas iniciantes e novos talentos. É preciso apoiar quem está começando e cuidar para que tudo seja feito com muita qualidade e relevância.