O cenário musical de Pernambuco continua rico e diversificado. O verão do manguebeat passou, mas deixou como legado uma nítida mudança de postura. O público roqueiro mais xiita passou a ter uma visão abrangente da cultura local; os tradicionalistas abriram-se para influências externas; e o próprio poder público se antenou à novidade. Os orgãos oficiais - municipal e estadual - de Pernambuco tinham uma visão de certa forma preconceituosa da produção contemporânea e também em relação à periferia. Preconceito não acaba da noite pro dia, mas novas oportunidades surgem. Há, por exemplo, um plano municipal de cultura em Recife que incorpora todas as linguagens musicais (do hip hop ao hardocore) dentro do planejamento de crescimento cultural da cidade.
"A produção continua muito rica. Todos os acontecimentos foram decisivos para a vitalidade da música e o surgimento de novos festivais como o Abril Pro Rock e o Coquetel Molotov, entre outros eventos culturais", comenta Fred Zero Quatro, líder do Mundo Livre S/A. Outro grande festival é a Feira Música Brasil, que acontece no mês de dezembro, em Recife, uma iniciativa do Governo Federal, em parceria com a ABRAFIN (Associação Brasileira de Festivais Independentes), FunArc e Ministério da Cultura. Das 24 vagas abertas no festival, sete ficaram com bandas e músicos de Pernambuco. Isso mostra a vitalidade e representividade que a musica da região possui atualmente.
Se um volume desses soa normal nos dias de hoje, quando surgiu o manguebeat o fato de Chico Science & Nação Zumbi assinarem contrato com a Sony foi um ponto fora da curva em 1993. "Isso não mexeu só com música, mexeu com a auto-estima de toda a comunidade cultural da cidade", lembra Fred. O álbum Da Lama ao Caos fez tanto sucesso que gerou o primeiro longa-metragem produzido em Recife depois de muitas décadas - Baile Perfumado, de Paulo Caldas e Lírio Ferreira, lançado em 1997. Chico Science, Fred Zero Quatro e Lúcio Maia (guitarrista da Nação Zumbi) ficaram à frente da trilha sonora do filme, que mostrava o cangaço com base em imagens feitas pelo fotógrafo libanês Duda Mamberti. Antes mesmo do início das filmagens, o pessoal do mangue foi chamado para trabalhar a música. Com uma trilha totalmente contemporânea, de manguebeat mesmo, o filme foi sucesso, ganhou o Festival de Havana, e estimulou outras áreas da arte, como a moda, por exemplo.
Mas nem tudo foram flores na história da revitalização da música de Pernambuco. Alguns políticos e donos de emissoras de rádio teimam questão de tomar a contramão do crescimento cultural. Para Fred Zero Quatro, é pura ignorância: "Incrível essa falta de informação. Aniversário de Caruaru, por exemplo, capital do forró, e as principais atrações eram da Bahia. Tudo porque o prefeito gostava de música baiana." conta. É inegável que exista uma grande tentativa de resgate a essa forte cultura regional, mas abrindo matagal com faca de serra é que essa nova geração conquistará voos cada vez mais altos.
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