Para entender o que rola hoje na música de Pernambuco, é preciso olhar pra trás e conhecer as raízes deste som. Foi com a chegada dos negros africanos que os ritmos mais conhecidos da região instalaram-se e aos poucos foram conquistando a população local, mestiça de negros, índios, portugueses e holandeses. Essa salada miscigenada ganhou os ouvidos do mundo com a apresentação de Chico Science & Nação Zumbi no Montreux Jazz Festival, de 1995, na Suiça. Mas aquilo que encantou os suíços foi o resultado de séculos de história cultural. Abaixo você confere um pouco dessa história:
Coco
Não é fácil traçar as raízes do coco, ritmo fortemente percussivo nascido no fim do século XIX. Reza a lenda que a dança surgiu de uma mistura de elementos africanos, indígenas e caboclos em Pernambuco. Mas há quem diga que a registros anteriores do coco em Alagoas e Paraíba. Pandeiros, ganzás, bumbos, zabumbas e surdos se entrelaçam ao som perambulante do triângulo. Sapateados e palmas ritmadas completam a festa.
Caboclinho
O caboclinho é uma dança criada por caboclos e índios que permaneceram no nordeste depois das invasões lusitana e holandesa. É música de festa, executada principalmente no Carnaval, com flautas, gaita, maracas, apito, preacas e surdo. Quem quiser participar precisa ter muito jogo de cintura e desenvoltura, pois a dança tem um ritmo muito forte. Os dançarinos vestem cocares, adornos de pena na cintura, colares e outros acessórios que representam combates e caças executados pelos índios.
Frevo
O frevo é uma tradição pernambucana tão arraigada quanto a tapioca e o cuscuz no café da manhã. No fim do século XIX, a efervescência cultural e política em que o país mergulhou formou em Recife um caleirão cultural, que misturou maxixe (dança africana), marcha e capoeira no amálgama que ficou conhecido como frevo. Bem no ínicio de sua história, o frevo era dividido em blocos que duelavam entre si, utilizando não apenas a capoeira mas também armas brancas. Ao longo da história do frevo, as armas brancas foram estilizadas e culminaram nas hoje tradicionais sombrinhas. Tão tradicionais que são símbolo do Estado. E nessa levada, não tem quem fique parado quando a música "Vassourinhas" - um dos temas mais conhecidos do gênero - toca em pleno Galo da Madrugada, festa de abertura do carnaval que toma as ruas do Recife Antigo. Alguns dos principais nomes desse ritmo são Capiba ("É de Amargar"), Antônio Maria, Alceu Valença, Zé Ramalho, Geraldo Azevedo, Elba Ramalho, Quinteto Violado, Nelson Ferreira e Spok Frevo Orquestra, entre muitos outros.
Maracatu
O pernambucano Mário de Andrade descreve o maracatu como uma forma de unir o sentimento da guerra ao da festa. Existem controvérsias sobre sua origem. A teoria mais aceita, no entanto, é que deriva de um tipo de homenagem aos reis negros de Congo e Angola, em que batalhões de percussionistas soltavam a todo peso os braços nos tambores e os faziam retumbar no fundo do peito de quem estivesse por perto. No Brasil, essa manifestação se fundiu à cultura indígena e originou o maracatu de baque solto, que traz um componente sobrenatural ao invocar entidades protetoras para garantir os sucesso da reunião. Durante o Carnaval, o maracatu ecoa por diversas regiões pernambucanas. Em especial, na cidade de Nazaré da Mata, meca do ritmo no estado.
Xaxado
Revolucionários para alguns, bandidos para outros, uma coisa é certa sobre Lampião e seu bando de cangaceiros: eles nos deixaram um belo presente musical. Esses nômades vagavam por terras sertanejas carregando raiva como maior aliada; tudo que estava pela frente era destruído. Ao conquistar vitórias após grandes batalhas, os cangaceiros comemoravam dançando e arrastando as sandálias. E assim se popularizou no cangaços o xaxado.
Baião
Para falar do baião é preciso falar também do lundu, pois o primeiro deriva do segundo. Enquanto a mistura de raças formava a identidade brasileira no século XVIII, o lundu - ritmo sensual africano, em que casais dançam colando os umbigos - se fundiu à música de bandolim criada pelos europeus. Quer dizer: o baião só poderia ter nascido no Brasil. Mas foi só no início do século XIX que o ritmo ganhou sua forma atual, repleta de tons alegres e coreografias. Se a coisa já contagiava os povos sertanejos, ganhou o Brasil com o surgimento de seu maior expoente - e um dos mais importantes astros da música nordestina -, o "rei do baião" Luiz Gonzaga.
Manguebeat
O Estado de Pernambuco enfrentou uma certa ressaca musical depois da explosão de ritmos que sofreu no final do século XIX e início do XX. Por um bom tempo, apareceram grandes artistas mas nada que revolucionasse o jeito de fazer som dos pernambucanos. Em 1992, por fim, surge um movimento inspirado nos manguezais que rodeiam os rios da cidade de Recife e Olinda. A escolha foi como um tiro certeiro: pela troca de matéria orgânica entre as águas doce e salgada, o mangue pode ser considerado o ecossistema mais diversificado e produtivo do mundo. E foi utilizando dessa metáfora que os autores do primeiro manifesto pró Manguebeat, Fred Zero Quatro, Chico Science e Renato L. criaram algo novo. Não apenas explicam, mas fazem acontecer. Todos os ritmos citados acima se misturam em uníssono com o rock, o hip hop e a música eletrônica para se transformar em um ecossistema cultural, em uma musicalidade diversificada, mas com raízes fincadas no mangue de Pernambuco. Sobre este movimento, Lenine disse em um documentário da BBC que "em momento nenhum houve unidade estética que juntasse essas facções. O Manguebeat é uma maravilhosa movimentação porque celebrou a diferença". Com poucas palavras, tudo foi dito. De lá pra cá, Recife, junto com sua antena fincada na lama - símbolo utilizado no primeiro manifesto -, os criadores da Manguetam tiveram projeção nacional e internacional.
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