| Aquele que nasceu pra tostão |
| 09/10/2007 |
Meu saudoso avô dizia, recostado no balcão do Mateus e entre uma caninha e um torresmo: "Não adianta, quem nasceu pra tostão não chega a mil reis". Eu sei que esse dito popular tem um sem número de variações, mas todas com o mesmíssimo sentido -sentido este que até domingo eu discordava. Agora aceito, em parte, o raciocínio.
Vejam como no futebol a velha máxima cabe como sempre e cabe como nunca. Tomem o jogo de domingo, quando outra vez o São Paulo fez seu papel predileto: time linha auxiliar do Corinthians.
Evidentemente que o pó-de-arroz terá um faniquito e, na costumeira arrogância, alegará que serão campeões e isso é o que importa. Uma grossa bobagem. Não há nada mais espessamente idiota do que tal afirmação.
O pobre time do Morumbi é a prova viva de que apenas títulos não são capazes de lustrar a história de ninguém. Clube fugaz e de tradição escassa, corre atrás de troféus sem entender que um miserável vestígio de sofrimento talvez lhe trouxesse um pingo de graça, coisa que muito lhe falta.
O São Paulo consegue a proeza de ser o único clube que não tem rigorosamente nada de épico em toda a sua história -curta é verdade. Poderia, portanto, ao menos contribuir para rebaixar o velho rival do meu amado Palmeiras. Talvez isso pudesse conceder-lhe 15 minutos de fama.
Nessas horas que me orgulho -ia dizer que me ufano- do meu time. O Palmeiras está sem ganhar uma copa Danup há quase oito anos, mas quando chamado a cumprir seu dever cívico não vacilou: enfiou dois nabos no Corinthians e não concedeu sequer a misericórdia de sofrer um gol.
E mais: fosse dada ao Verdão a oportunidade que teve o tricolor, no fatídico jogo em que o Grafitti humilhou o Juventinho da Mooca, e faltaria espaço no placar para tamanha goleada. Um Palmeiras triunfante daria voltas olímpicas comemorando os 15 X 0 sofridos -um contra de cada jogador e uma lambuja para a comissão técnica- que levariam o Sport Clube à obscura segunda divisão do Paulista. A isso é dado o nome de rivalidade.
Acabada a pelada do Morumbi, lembrei do velho Laurindo que, seja lá onde estiver, há de ter resmungado: "Quem nasceu pra tostão não chega a mil reis".
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| Há coisas... |
| 28/09/2007 |
O sábio, o imortal e o estilista da palavra Nélson Rodrigues já disse e, como assecla que sou, reproduzo:
“Vejam os triunfos de um Vasco, ou de um Fluminense: - parecem uma contingência normal de qualquer competição. Mas o Botafogo é diferente. Dir-se-ia que o êxito exige, de si, uma maior abundância de suor e de lágrimas. Tudo é mais difícil para o Botafogo e o povo, com seu instinto, costuma dizer: Há coisas que só acontecem ao Botafogo! (...) Tem contra si a fatalidade, mesmo quando assombra, mesmo quando esmaga, mesmo quando arrebenta.”
Aos meus grandes amigos, amantes da Estrela Solitária, que me recebem sempre com tantos préstimos na cidade que é, de fato, maravilhosa e que eu tanto amo, minhas condolências e sinceros abraços. Nessas horas se reconhecem os verdadeiros torcedores.
P.S.: Só não me venham querer descontar no Brasileirão, que a vaga da Libertadores já é do Verdão! |
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| Em defesa da Canarinho |
| 21/09/2007 |
Noticiaram que a Seleção Brasileira não é mais a primeira do mundo pelo ranking da FIFA. Isso é um erro crasso e isso é um erro grave.
No meu modo de ver, só o fato de o Brasil não ter direito vitalício ao topo da lista já configuraria motivo suficiente para que os aviões da FAB chovessem mísseis sobre Zurique. O Brasil deveria é ter uma cadeira de membro permanente no Conselho de Segurança da ONU, com direito a veto e que tais. Afinal, se os outros têm armas nucleares, nós temos CINCO Copas do Mundo!
Mas a desgraça, tal como a cachaça e a bunda da mulata, também só vale quando é grande. Ocorre que o Brasil foi ultrapassado não por um, mas por dois – DOIS – outros escretes. E quem são as nações rivais? Itália e Argentina, nessa ordem.
Vamos e venhamos: o que é mesmo a Itália? A Velha Bota, com todo o respeito, depende dos nossos craques até para montar campeonato de pebolim. Em Milão, por exemplo, não se dá dois passos sem trombar com um Kaká, com um Adriano, com um Ronaldo.
Um carcamano poderá intervir alegando que em 82 fomos batidos por eles. Não vou ficar aqui discorrendo sobre o que qualquer brasileiro em cima da terra e em baixo do céu está careca de saber - culpa de Toninho Cerezo, o quinta-coluna. De mais a mais, digo e repito: o Brasil deveria ter retirado o nosso corpo diplomático de Roma no exato e fatídico momento em que Paolo Rossi cometeu a suprema deselegância de marcar aquele gol.
Para colocar um ponto final no tema “Azzurra” e ir ao que interessa: vejam no filme da Copa de 94 e a diferença dos semblantes de Baggio e Romário antes de entrar em campo. A imagem é auto-explicativa.
Vamos à Argentina.
Como é possível estarmos atrás deles em qualquer classificação se acabamos de entubá-los em duas Copas Américas? É só essa pergunta que eu, Adriano e Júlio Batista nos fazemos.
Contam à raia miúda que, na última final da Copa América, Lula estava no Torto, cumprindo seu dever cívico, gelada na mão e uma porção de salaminho apoiada na barriga, quando bate o telefone. Krischner. Um Lula com visível má vontade atende:
- Pega mais essa peia, companheiro Kirshner.
O argentino, incrédulo diante da absoluta incapacidade futebolística do seu plantel, rebate em voz súplice e o olho ainda mais esbugalhado:
- Lula, estaba piensando, usted no cres que yo lo puedo ser un gran governador del 27º estado brasileiro?
Depois dos adventos Adriano e Júlio Batista, é voz corrente na América Latina que o Brasil tem o direito de anexar a Argentina. Até eles não agüentam mais e querem comemorar as nossas glórias.
Tenho pra mim que certas humilhações influenciam em todas as questões, da briga de casal às relações comerciais entre as nações. Ou alguém acha que o Kirshner consegue negociar, em igualdade de condições, algum acordo no Mercosul depois que o Júlio Batista meteu aquela bola no ângulo? Nada. Ele leva, polido e lustrado, o signo do martírio futebolístico de seu país.
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| Paulo Renato pisa na redonda |
| 28/08/2007 |
Sabe-se lá por que tormentas dágua, mas o ex-ministro Paulo Renato resolveu pensar sobre o futebol. Em boa coisa não haveria de dar e o deputado saiu-se com uma formidável batatada, abaixo da linha da miséria intelectual. Sem o menor pejo, propôs diferentes pontuações para os jogos, não se apegando apenas nos tradicionais resultados de vitória, empate e derrota, mas no número de gols da partida.
Confesso: quando abri o Lance! e vi o artigo, desconfiei. Porém, li com abertura de espírito e resignada humildade. A primeira passada de olhos não me foi suficiente. estupefato, pedi outra Brahma e reli.
A ignominiosa idéia prevê que empates em zero a zero não valham rigorosamente nada. Os magros, porém honestos 1 a 0 valeriam um ponto. Já as goleadas - com quatro gols - chegariam a dar extravagantes quatro pontos. Como se vê, digno de um Bolsa Família intelectual.
A valer o raciocínio, os zagueiros deveriam ser considerados parte de um corja de canalhas militantes. Os goleiros, então, seriam recolhidos a cárceres de segurança máxima, posto que figurariam entre os crimonosos hediondos. Um Marcos ou um Diego Cavallieri, por exemplo, dividiriam celas com um Maníaco do Parque ou um Fernandinho Beira Mar, malfeitores de igual quilate. Haveríamos também de dar conta das gerações passadas, pois o crime de fechar o gol não prescreve. Oberdan, Gordon Banks, Leão e Rodolfo Rodrigues que se cuidem.
Sem falar no mais grave. De um chiste, um lampejo, o ex-péssimo ministro da educação praticamente propõe a extinção do 1 a 0, placar mais bonito do futebol, segundo Nelson Rodrigues. E, de fato, o gol é um acontecimento transcendental, não deve ser vulgarizado de forma nenhuma. Ninguém sai por aí panfletando gols, como um volante promocional de mãe de santo.
Mas o que não me sai da cabeça é o seguinte: Deus do céu, por que ter idéias sobre o futebol? Vivos, mortos e moribundos sabem que, desde a segunda lei do impedimento, não há modernidade que melhore o futebol. Futebol bom é o futebol tradicional. Velho e antiquado, poderia ser encontrado num sítio arqueológico, mas é o futebol. E, por incrível que pareça, tem goleiro, zagueiro, volante de contenção, cabeça de área e técnico retranqueiro. E continua sendo o sublime, fantástico e extraordinário esporte que conhecemos e amamos.
Fala-se em valorizar o gol, valorizar o craque. Nada mais mentiroso. No tempo em que o jogo era jogado e o lambari era pescado, nunca foi preciso invencionice para que um Palmeiras e Santos terminasse num épico 7 a 6 (para eles, infelizmente).
Por tudo isso, eu suplico: deixem o futebol em paz!
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| A telefonia contra mim |
| 21/06/2007 |
Eu deveria ser mimado como um gato angorá pelas empresas de telefonia. E o normal seria que fizessem um duelo, como num filme de faroeste, por um cliente como eu. Explico: sou um perdulário em matéria de telefone. Gasto horrores mensalmente com celular – teve um mês que um terço dos meus vencimentos foram engrossar o patrimônio da TIM . E talvez seja a única conta que não atraso. Atrasar até atraso, mas pago.
Nunca recebi um “oi”, um “oba”, que dirá uma promoção. Conheço gente que recebe ofertas faraônicas para trocar ou ficar na mesma operadora. Comigo ocorre o avesso: a TIM dedica-se à meticulosa campanha para me prejudicar.
Vou tentar ser mais claro. É sabido que todo homem tem, teve ou terá uma mulher que martela na sua cabeça desde antes de escovar os dentes até a hora de dormir. Uma paixão dessas de D. Pedro II pela condessa de Barral. Pois é o que quero dizer: se eu fosse o Pedro D`Alcântara, a condessa de Barral ligaria no meu celular TIM e não conseguiria completar a chamada. E o telefone não registraria a tentativa, que é para sepultar a possibilidade de retorno.
Pois minhas ligações importantes são constantemente desprestigiadas pela TIM, como aconteceu mais uma vez - e com a mesma pessoa – no último final de semana. Não posso achar outra justificativa que não um complô organizado contra os meus interesses.
Agora raciocine o exato inverso: fosse o mais desagradável contato e eles se apressariam em arrumar um jeito de completá-lo. Fosse um de meus muitos credores e a TIM providenciaria sinal para o último pavimento subterrâneo do metrô República, ou para um poço de prospecção de petróleo, ou para a caverna do Diamate, ou para a ilha do Náufrago.
E eu já trabalho com a seguinte hipótese. O Palmeiras tem urgência por um centroavante. Eu não engraxo a chuteira do Evair, mas sou melhor que o Cristiano “Boneco de Olinda”. Vai o Caio Jr. e bate o telefone me convocando... meu TIM estará fora da área de cobertura. |
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Fernando Borgonovi:
Apesar de possuir apenas 1,65 m de altura, Fernando não é o baixinho tipo Danny de Vito. É um rapaz esguio, o que lhe confere certa elegância. Torce apaixonadamente pelo Palmeiras e é morador da zona norte de São Paulo, o que torna redundante dizer que é um cara do samba. É também Henrique, o que não o torna Cardoso, tanto que é militante do PCdoB e da UJS. Fernando dá um boi pra não brigar e daria uma boiada pra sair ileso de uma. Toma uma cervejinha com os amigos sempre que possível, joga uma bola quando consegue. Enfim, um cara razoavelmente boa praça.
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