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A ida de Renato Ratier à Santa Catarina
DJ e dono da D-Egde foi tocar em Florianópolis, mas parecia que ele estava em casa
Monday, 09 February, 2009 - 21h00
Créditos: Fotos: Carol Zancani
Renato Ratier é quieto, mas elétrico. De calça escura, blusa preta e passos lentos, ele desce a escada rolante, ajeita a franja do cabelo e atravessa com calma as fileiras de cadeiras do saguão inferior de Congonhas. É sexta-feira, 6 de fevereiro, 22h10. Com a serenidade de um andarilho que reboca sua vida numa carroça, o dono do clube D-Edge
puxa vagarosamente seu case de discos (tesouro para felicidade de outras tantas almas) e estaciona na boca do portão 18.
Na tela iluminada da televisão, a palavra Florianópolis escrita em azul denuncia seu destino. Ele definitivamente não está tão atrasado, mas seus olhos revelam uma atenção (ou tensão) latente com o que está ao seu redor. "Cara, é sempre assim. Vou fazendo as coisas, achando que vai dar tempo, que tá tudo certo. Mas acabo sempre na correria", conclui, levemente agitado, com um sotaque único de quem já morou em lugares tão antagônicos como Califórnia e Mato Grosso do Sul.
Renato Ratier é quieto, mas elétrico. Por trás daquele jeito ponderado na cabine, existe uma mente férvida. É nessa velocidade que ele pega o ônibus interno, circula pela pista e entra no avião. Em menos de uma hora, desembarca na capital de Santa Catarina. O nome do aeroporto? Hercílio Luz. E de luz Renato gosta. Logo antes de pegar sua mala na esteira, o DJ procura um ponto de eletricidade. "Posso usar esse daqui?", pergunta ao oficial da Infraero.
Com a autorização, rapidamente pluga o carregador de seu celular na parede. A tela, até então preta, começa a piscar. O status do aparelho avança. Vermelho, vermelho, vermelho, vermelho. Verde, verde, verde, verde. As luzes cintilando trazem uma recordação clara à cabeça. A partir daquele instante - e dali por diante -, tudo começou a lembrar a D-Edge.
O cicerone da ocasião era Davis. Revelação da nova geração de DJs e figurinha carimbada das festas na Barra Funda, o amigo pega Renato e sua bagagem. No carro, enquanto viadutos e pontes iluminadas ficam para trás na janela, os detalhes da noitada são acertados. Uma conversa animada toma conta do veículo. Os assuntos passam por moda, novos negócios, histórias do passado e abrigam até teorias filosóficas sobre o sucesso do clube paulistano. "O segredo é a acústica, o ambiente. Coloca o mesmo aparelho da D-Edge em outra casa para ver se fica igual", desafia.
Na Circuit, no centro do Floripa, um primeiro andar todo iluminado de azul recebe os clientes. Não há sinal de pista. As pessoas conversam em pufes, tomando cerveja. No bar, a cada pedido, a equipe anota a bebida consumida em um caderninho espiral de estudante de colegial. Roubada? Algumas surpresas ainda estariam por vir. Subindo uma escada, está escondida uma pistinha bem dark. O forro é preto. Sofás igualmente negros estão espalhados pelos escuros dos cantos. Atrás da cabine, uma placa de acrílico funciona como um escape que deixa o público admirar a vista da orla da Lagoa da Conceição.
Quando a festa começa, fortes luzes coloridas rasgam o teto, em uma versão bem feitinha (e bem mais modesta) da decoração da casa original do DJ que tocaria em instantes. No frenesi, uma figura ganha contornos pardos na cortina de fumaça que insiste em cuspir nos olhos dos presentes. O vulto grita iê-iê-iê. Balança os braços, dança. Está com um cabelo arrumado, batom vermelho marcante e uma feição revigorada. Quase uma Aretha Franklin, mas manezinha. É Dani (foto ao lado), ícone das noites da D-Edge (dentre outros), provável campeã na lista dos últimos a atravessar Alameda Olga nas manhãs da vida. "Será que o Renato vem? Sei não. Só vendo", diz a mais nova moradora da ilha, com o sorriso característico.

Quando chega, Renato não só surpreende Dani como dá início a uma espécie de flashback muito louco. Na cabine de luz, Davis esquece o toca-discos e parece um light jockey de verdade. Dá pulinhos. Até o balanço do corpo lembra seu guru Jonhson. O cenário estava montado. No ouvido esquerdo de Ratier, formou-se o núcleo duro da noitada. Como num camarote adaptado, em uma prima-pobre catarina da balada paulistana, a festa toma rumos inimagináveis. Respeitadas todas (mesmo) proporções, a música era a mesma. A Dani era a mesma. A luz era parecida. O camarote estava no mesmo lugar. E, mais uma vez, Renato Ratier estava quieto, mas elétrico.
Colaboração especial para o !ObaOba

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