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Adeus, Barcelona - 29/04
Thursday, 29 April, 2010 - 13h37
Cansei. Barcelona, cansei de você, sabe? E, desta vez, não vai ser como as outras, quando eu, iludida pelas tuas fachadas modernistas, voltava correndo para as organizadas ruas do teu Eixample com medo de me perder. Me explica por que isso? Depois de dois anos e meio, como é que você me faz uma galhofa dessas? Que palhaçada abrir La Vanguardia hoje e ler essa história de “el robo Ronaldinho”. Pois é, fiquei triste. E com vergonha. Por você, claro.
É que você ainda não me sacou, reina. Interpreta mal o meu sorriso e não sabe direito de onde eu vim. Peraí, é muita ingratidão batizar o novo modus operandi dos trombadinhas catalães de Ronaldinho (“Dar um Ronaldinho” é fingir que conhece a vítima, abraçá-la efusivamente, quase mobilizando-a, dizendo banalidades e rindo muito, enquanto o bolso traseiro é esvaziado. A prática acontece de madrugadas nas Ramblas, zona central de Barcelona).
Desculpa, mas pra mim não dá mais guapa, eu desço aqui. Porque eu também estou me sentindo lesada. Lo nuestro está terminado. Eu só queria me livrar do portunhol avançado e morar um ano fora, você pigarreou e falou firme: “Esquece Madri, eu também hablo castellano". Mentira! Só fala quando te interessa, e ainda ri dos erros do meu catalão ruim. Te odeio. Me esquece.
Vai ser difícil também pra mim. Acredite. Eu já tinha me acostumado com você. “¿Sentido mar o montaña?” Algum catalão so pleased to please me respondia quando ainda não conhecia a tua geografia limitada pela natureza, e perguntava por algum carrer desconhecido. Mar ou montanha, que lindo! Parecia uma cidade saída de algum conto dos irmãos Grimm. E que delícia era a volta! Você se perfumava, abria as flores de tuas laranjeiras e tinha sempre alguma surpresa, uma reforminha feita pelo Ayuntament anunciada sem pudor em todos os lugares: “Barcelona posa´t guapa”. É que humildade nunca foi o teu forte vai... confessa guapetona.
Eu morria de ciúmes de ver você se exibindo toda pra ingleses e alemães borrachos que inundavam as tuas ramblas de cerveja quente querendo te transformar em capital do turismo de borrachera. Eu te queria sem feiras megalomaníacas na Plaza España, sem Sónar, nem Woody Allen. Sem a esperada L9. Eu amei a tua essência poblerina e prudência adoráveis. Quando o avião ia baixando e você me sorria BARCELONA em letras amarelas e rechonchudas, meio tímida, tudo parecia possível.
Hoje você tá mais pra bingo às vésperas da falência. Diversão barata. Você me dá medo, Barcelona. Tuas velhinhas criminosas engordando pombas sujas pra me contaminar. Você quer me deixar surda com esse grito horroroso que soltam as gaivotas pelas manhãs? Parabéns, você conseguiu transformar esse animalito numa ameaça à saúde pública! E a mania de anunciar a primavera com um cartaz nessa loja de departamentos cafona e laberíntica chamada “El Corte Inglés”. Ah tá bom, até as estações do ano aqui são melhores, vê se te enxerga, desce desse pedestal de cidade-modelo!
E esse teu complexo com a españolidad? Está mais que na hora de deitar no divã e fazer as pazes com esse teu passado mal resolvido. Confessa que só porque a Unesco reconheceu as coreografias do Joaquín Cortez como patrimônio da humanidade você cedeu o palco do Coliseum pro moço sapatear. ¿A que si? Falta de personalidade, o elogio tem que vir de fora pra valer, né? Olha, de nada adianta esse asfalto lisinho, esse urbanismo tão modernoso com um pensamento tão colonial. Por fora bela viola, por dentro pão bolorento, se diz na minha terra.
Ai, desculpa... eu não queria dizer isso. É que dói muito... Dois anos e meio é muito tempo, e eu me acostumei à você, nena. Estou tentando ir embora antes da festa acabar pra não assistir esse final: alguma mulher de mala-leche lavando as Ramblas de madrugada e eu tentando subir com a minha mala pesada, cheia de recuerdos, de cenitas alegres no Bairro Gótico, almuerzos na Barceloneta, mimitos do vento Tramontana no pescoço, Sant Jordis, fiesta de gracia, verbenas, flamenquitos de sexta à noite. O peito batendo forte quando consegui dizer t´estimo, e ver que também posso sentir e falar de amor nessa tua língua complicada.
Não adianta pedir, nem com azeite de oliva extra virgem essa máquina volta a funcionar! Lo nuestro está muerto. Mas calma, peraí, não chora que eu não gosto... não me manipula, não abusa da minha buena onda brasileira... Olha... Tá bom. Eu te dou três meses. A partir de hoje, você tem três meses pra tentar me reconquistar. Pôxa, eu também sinto saudades... Me ajuda a voltar a ser essa turista enamorada... Três meses, entendeu? Senão... senão... Adeus, Barcelona.
Eixample: Bairro projetado pelo urbanista Ildefons Cerdà, cujas ruas estão simetricamente alinhadas, facilitando a locomoção e a rapidez.
Ramblas: Principal rua de Barcelona que comunica a Praça Catalunya com o Porto Velho.
Carrer: Rua.
Ayuntament: Prefeitura
“Barcelona Posa´t Guapa”: Campanha comandada pelo Instituto de Paisagem Urbano e Qualidade de Vida da prefeitura de Barcelona, que visa subvencionar e reabilitar edifícios.
Guapetona: Bonitona.
Borracho: bêbado
L9: Linha do metrô ainda em construção. Será a maior linha subterrânea da Europa, algumas estações já funcionam
Mala-leche: Mal-humor.
Tramontana: Vento gelado que sopra do Nordeste e Norte da Espanha sobre as Ilhas baleares e a Catalunha.
Sant Jordi: É o dia dos namorados da Catalunha, quando se presenteia com rosas e livros as pessoas queridas. (as moças regalam livros e os meninos rosas).
Verbena: Fiesta popular, celebrada muito pelas ruas.
T´estimo: Te amo.

Noooooooossa eu me senti denovo em Barcelona! Você traduziu muito bem a essêncial menosprezada dessa ciudad...
Adorei!
Tenho um blog q escrevo sobre a viagem que passei uns dias por lá entre outros lugares!
Dá uma olhada!
www.myblueberryskies.wordpress.com
Nataly, seu texto me deixou um tanto desanimada.
Conheci Bracelona em 2007 e tudo me pareceu muito encantador ( pessoas, ruas, construções, estilo de vida, comidas, língua...). Não sei se toda essa boa impressão aconteceu pelo fato de eu ficar apenas 4 noites nessa bela cidade mas, realmente, foi o único lugar da Europa que eu me senti "em casa". Com essa viagem alimentei em minha mente a vontade de futuramente voltar para aí e ficar definitivo.
Entretanto, ao ler seu texto, fiquei um preocupada. Será realmente que todo a beleza que vi 3 anos atrás ofuscaram todo lado negativo que você descreve? ou, você estaria um tanto desencantada com a cidade por conta de apenas alguns acontecimentos? beijos
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