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A arte urbanizada de Titi Freak

Grafiteiro fala sobre a mostra SEMPRE, na Choque Cultural

Por: Anderson Nascimento

Monday, 30 August, 2010 - 09h31

 

Créditos: Caroline Bittencourt

Uma miscelânea de estilos. Essa é a melhor definição para a obra do paulista Hamilton Yokota, vulgo Titi Freak. O cara desenha quadrinhos profissionalmente desde os 13 anos, e na década de 1990 já grafitava muros da capital paulista. Depois de muito tempo expondo seu trabalho nas ruas, Titi leva sua arte para galerias. A exposição SEMPRE, na Choque Cultural, revela uma faceta "sentimental" do trabalho do artista, como ele mesmo define. Grafiteiro das antigas, da mesma turma de Speto e Os Gêmeos, Titi Freak também é jogador profissional de ioiô. Durante a conversa, o cara exacerba seu lado street, fala na gíria "memo". E parece não ter vergonha. É por opção própria.

O que te motivou a trabalhar com arte? E como foi no início?
Eu comecei com 13 anos, quando fui convidado para trabalhar com o Mauricio de Souza, e durante sete anos trabalhei com quadrinhos, desde Turma da Mônica, Disney, Marvel, DC Comics. Então eu sempre tive esses traços de ilustrações e quadrinhos. Com o Grafitti eu comecei em 1995, porque eu não aguentava mais fazer quadrinhos, personagens de outros, queria fazer um trabalho mais autoral. A partir daí, comecei a fazer ilustrações independentes, uns trabalhos para a Simples, para a MTV, uns flyers de balada, e o grafitti rolando sempre em paralelo. Foram rolando uns trampos para umas companhias grandes, que me davam muita liberdade para criar, mostrar meu estílo.
 
Titi, você acha que a arte de rua das grandes cidades do mundo, como São Paulo, Nova York e Tóquio são diferentes uma das outras?
Existe total. São Paulo é uma das capitais mais importantes do graffiti atualmente por causa da diversidade de estílo, os artistas têm muitas técnicas, ideias, concepções diferentes. Já em Nova York, o trabalho cai muito para a letra, o lifestyle. Na Europa, rola muito sticker, stencil. Aqui, como o spray é muito caro, o brasileiro meio que se adapta para fazer o trabalho. No começo, sme dinheiro, o cara pinta com rolinho, usa o spray para contornar. Então, todas essas difculdades vão nos ajudando a criar outros estílos.
 
Te agrada essa migração do graffiti da rua para as galerias de arte?
Muitos artistas que têm o graffiti como berço, que usam a rua como suporte, começaram a receber convites para expor em galerias. Mas não considero esses trabalhos que eu apresento em ambientes fechados graffiti, são pinturas contempôraneas, urbanas, não têm nada a ver com o graffiti. A única ligação que existe é o spray. Graffti de verdade é feito na rua.
 
Hoje você se considera uma grafiteiro, artista plástico ou os dois?
Os dois. Artista plástico, pintor urbano, por conta da minha linguagem. E grafiteiro, porque eu continuo fazendo meus trabalhos de rua. Uma coisa me ajuda na outra. Se eu estou no meu ateliê produzindo e sinto a necessidade de ir para a rua e fazer um trabalho meu. Sentir o real mundo do grafite, saca?
 
Quais suas influências? Você ainda se inspira nos quadrinhos para criar?
Meu trabalho passou por várias fases. Na época dos quadrinhos eu gostava de artistas que trabalham nesse ramo, como Frank Frazetta, Frank Miller, John Burnie. Também existem muitos quadrinistas brasileiros bons, como Roger Cruz, Mike Deodato. No grafite, eu gosto muito do trabalho do Speto, dos Gêmeos, da galera que pintou na minha época, em 1995. E como sou vizinhos dos Gêmeos, existem muitos trabalhos deles na redondesa. E um dia, ao ver os caras produzindo, ao vivo, me despertou uma vontade de pintar também. Ilustradores, os caras do grafite, tatuadores. Eu olho várias coisas. Tem  muita gente boa, talentosa por aí.
 
E é difícil viver de arte no Brasil?
Em qualquer situação, qualquer tipo de trabalho, o cara precisa acreditar naquilo que ele gosta, naquilo que ele quer fazer. Tem que correr atrás. O "bagulho" não é fácil. Talvez hoje, por conta da mídia, foram abertos vários caminhos para a galera que está começando. Hoje em dia existe muito mais informação, revistas, internet, diferente da época que eu comecei. Precisa correr atrás. Estudar, ver outros trabalhos, conversar com outros artistas, ir em exposições. Acho que isso tudo ajuda o artista a cerscer mais. Não é fácil para ninguém, nem para o músico, nem para o cara que trabalha num hospital. Todo mundo tem o seu "corre". Desde pivete eu sonho em desenhar. Então se eu não estive pintando, fazendo meu trabalho, estaria em alguma empresa desenhando, que é o que gosto de fazer. Mas Graças a Deus hoje eu consigo viver só da minha arte.
 
Você é casado com a artista plástica Yumi. O relacionamento com alguém "do meio" ajuda na hora da criação?
Não tem influência nenhuma porque nós trilhamos caminhos diferentes. Eu venho do grafite, trabalho mais essa linguagem de rua, e ela trabalha com pintura a óleo, tela, tinta acrílica. É meio que um outro mundo. Mas o fato dos dois serem artistas ajudam a enender o "corre", o que o outro está preocupado em fazer, respeitar o time para poder criar. Esses detalhes ajudam na convivência.
 
Tua nova exposição na Choque Cultural, a SEMPRE, tem alguma coisa nova em relação aos seus últimos trabalhos?
Meu trabalho é muito focado nos retratos, nas pessoas. Nessa exposição, os retratos têm um grafismo quase abstrato, alguns esboços focados no sentimento. Tem muita coisa abstrata, algumas instalações, painéis de madeira e pinturas nas paredes da galeria. O pessoal pode ir, ver, fotografar. A exposição vai até 2 de outubro.

Você mora na Liberdade, na região central de São Paulo. Costuma curtir a noite da capital paulista, dar um "rolê"?
Antes eu saia, curtia uns shows. Mas hoje a real mesmo é trombar uns camaradas e parar num boteco legal e alí fazer a festa. Não sou muito de pegar fila de balada, curto mais a boemia.
 
Você também joga ioiô. É uma profissão ou um hobby?
É um esporte. Eu e mais quatro caras fomos os primeiros a mostrar esses "bagulhos" aqui no Brasil, a modalidade de ioiô com rolamento, mais caindo para uma categoria mais esportiva. Tem campeonato mundial, nós fundamos a Associação Brasileira de Ioiô, que é focada mais nesse caminho esportivo. Eu faço parte de dois times worldwild de ioiô chamados Duncan Crew e IXL Crew. A Duncan é uma das primeiras fabricantes de ioiô do mundo, lançou um modelo em 1949. Então, a gente meio que representa os caras aqui no Brasil. Mas, no momento, por causa do trabalho, da família, é só for fun mesmo. Eu ainda participo dos campeonatos nacionais como juiz. Vamos ver se ano que vem eu vou para o campeonato mundial.

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