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Crônica: Lei antifumo completa um mês em São Paulo

Paulistanos se adaptam à lei de um jeito ou de outro; e, mesmo pra quem reclama, o saldo é positivo

Por: Gabriel Rocha Gaspar

Monday, 07 September, 2009 - 07h00

 

Créditos: !ObaOba

"Guarda-chuva é toldo?", alguém perguntou outro dia. Se há 30 dias a pergunta soava completamente esdrúxula, agora faz sentido. Outro alguém na mesma mesa de bar - repleta de cervejas, mas livre de cinzeiros, fumaça e isqueiros - respondeu: "Não sei se é toldo, mas se você der carona a alguém, não pode fumar embaixo dele". "É como o táxi", mais alguém falou. "Todo mundo pode fumar em seu carro, mas o taxista é multado". E mais: pode até perder a licença para circular.

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Outro dia um taxista estressado destilava palavrões contra a lei. Dizia: "O carro é meu, quero fumar aqui dentro!". E se o passageiro se incomodar? "Troco de passageiro!", esbravejava. Mas concluía que o movimento em seu táxi aumentou desde que o carro perdeu o cheiro da fumaça. Principalmente no caso dos passageiros de longa distância: "Daqui até o aeroporto de Cumbica, eu fumava quatro cigarros. Já teve gente que reclamou, mas eu quero que se..." e descarregava os palavrões. Mas no fundo, no fundo, sabia bem que com a grana extra dos passageiros do pulmão limpo, ele podia encostar o táxi por uns 20 minutinhos e fumar seu cigarrinho sossegado. Fora do ponto: seus colegas não fumantes fizeram o favor de instituir a lei a mão de ferro debaixo da casinha. "Bando de filho da..."

Pê da vida ficou o garçom de um boteco em Pinheiros que percebeu que seus clientes haviam transformado o banheiro em fumódromo. Ele próprio fumante encarou a lei como uma questão de honra - e de bolso, pois sabe muito bem que se tiver que fechar o bar por 30 dias por causa da fiscalização, melhor arrumar a trouxinha e voltar para o interior. Então, foi radical: censurou os fumantes, clientes assíduos, com a excomunhão de seu balcão. E voltou pra dentro esfregando as mãos em missão cumprida.

E comprida é a jornada dos fumantes de um certo prédio comercial no Brooklin, que encaram 30 andares de elevador mais 40 metros de caminhada para desfrutar seu cigarrinho no... meio da Marginal. Tem quem desista só de ver o fluxo de carros na avenida. Afinal, com a quantidade de fumaça que se aspira por ali, um tubinho de câncer não dá nem pro cheiro. Ou melhor: só dá pro cheiro. Por isso, conta um funcionário que largou o cigarro "só de raiva". Bom pra ele e pro governo. Afinal, a ideia é desestimular o consumo, certo?

Pois é, a lei antifumo está rolando em São Paulo há um mês e a galera está bem adaptada a ela. Houve quem batesse o pé, quem protestasse, quem gritasse. Mas lei é lei: entrou em vigor, tem que cumprir. O pessoal aqui no !ObaOba tem cumprido. O cigarrinho no bar do alemão depois do almoço ganhou a calçada. Se antes, fumávamos lá dentro de cafezinho em riste, desde que a fumaça ficou proibida de entrar, foi a xícara que saiu. Até aí, tudo bem. E quando chove, é só ficar embaixo do toldo. Coisa nenhuma. Tá pensando que toldo é guarda-chuva?

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