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Desafio da FLIP é criar novos leitores

Embora iniciativas como Flipinha e FLIPzona deem passos à integração, parte dos adultos locais vê feira com distância

Por: Gabriel Rocha Gaspar*

Monday, 06 July, 2009 - 13h55

 

Créditos: Carolina Mendonça

Nascido e criado em Paraty, Edmilson não desceu ao centro da cidade enquanto durou a FLIP (Festa Literária Internacional de Paraty). Alugou sua casa a um grupo de paulistanos e se manteve isolado em uma edícula com a mulher, duas filhas e mais de mil passarinhos de competição. "Alguns cantam até 150 vezes entre meio dia e quinze pra uma", se gabou. Observou aquela gente que ocupava sua casa com naturalidade, sentado em suas cadeiras, usando seus pratos, garfos e facas, cercado de seus quadros, os trofeus de seus passarinhos e as fotos de suas filhas.

"Não gosto dessa festa", disse Edmilson descompromissadamente, enquanto reabastecia a caixa d´água dos turistas e recomendava a um deles que moderasse no uso porque 100 litros não bastariam aos 12 hóspedes. "Bom mesmo é o Festival da Pinga, que acontece em agosto. Todos os alambiques descem para expor no centro, o povo fica louco, louco, louco", contou sorridente. "A FLIP é festa pra quem gosta de estudar, de ler", desdenhou.

Naqueles quatro dias, Edmilson foi um pária em sua cidade-natal. Não por seu gosto declarado pelo álcool. Nesse quesito, a turma que tomou as ruas de Paraty não ficou atrás. O próprio Gay Talese, jornalista americano que foi estrela maior da festa, não passa um dia sem um Dry Martini - que ele mesmo prepara - contou sob condição de anonimato uma fonte que trabalhou próxima ao homem. "Ele desceu em São Paulo e se deu conta de que havia esquecido sua garrafinha de uísque, carregada de gin. Tivemos que sair correndo para comprar a bebida e a garrafa", disse. Beber, na FLIP, todo mundo bebeu. Mas o que excluiu Edilson foi o fato de ele não ver na leitura qualquer função pós-escolar. Na escola, havia lido o mínimo necessário para passar de ano e não apanhar dos pais. Atingiu idade de trabalho - entre seis e sete anos - e passou a vender bananada aos turistas de Paraty. Adulto, garantiu um emprego público onerado em R$ 2 mil mensais e seguiu a vida. Quando "seu" vereador perdeu as eleições locais, passou a trabalhar na Secretaria de Esportes, a R$ 600 por mês. "Uma merreca, mas dá pra viver. O resto completo com meus passarinhos".

Enquanto Edilson enchia a caixa d´água, Talese, lenda viva do texto literário não ficcional, encheu os ouvidos de milhares de intelectuais com frases como "as pessoas ordinárias são extraordinárias". Disse que, se tivesse entrevistado Sinatra em sua célebre reportagem de 1966 ("Frank Sinatra está resfriado"), faria um texto ruim. Para ele, as melhores histórias saem da boca de gente comum, que geralmente passa despercebida do faro jornalístico.

"Um bom jornalista deve ser capaz de transitar entre as mais diversas classes sociais e conviver normalmente com gente diferente de si", disse. Reproduzindo ideias de seu mais novo livro, Vida de Escritor (Cia. das Letras, 2009), ele disse acreditar que todas as pessoas têm um primeiro e um segundo andares - imagem inspirada na loja que seu pai mantinha com sua mãe e que ocupava o térreo de sua casa. No primeiro andar, andar do dia e do trabalho, só se falava inglês e o apoio aos Estados Unidos na Segunda Guerra era incondicional, mesmo quando choviam bombas americanas sobre a Itália, terra natal de seu pai. No segundo andar, da intimidade, o italiano imperava e o velho Talese mostrava preocupação com a invasão aliada na Itália. Um andar era das convenções, o outro, da vida pessoal. Como em Platão, um da prática, um das ideias.

Pois a FLIP do primeiro andar foi de vento em popa: em uma coletiva de imprensa, o diretor geral da Festa, Mauro Munhoz, disse que pelo menos R$ 5 milhões foram injetados na economia de Paraty. Enquanto a festa literária custou cerca de R$ 3,7 milhões, mais de R$ 1,3 milhão foi destinado a programas sociais, urbanísticos e educacionais, como a Flipinha (atividade para crianças que se desenvolve ao longo do ano) e a FLIPZona (cobertura jornalística do evento feita por 200 jovens da cidade). Os dois projetos levaram a um aumento de 30% do público do evento. É um resultado de se orgulhar. Mas, no segundo andar platônico taleseano da FLIP, mora uma discussão complexa que (não) abriga o Edmilson dos passarinhos e foi encampada logo no início de FLIP, no lançamento do Manifesto por um Brasil Literário, de autoria do poeta Bartolomeu Campos de Melo.

Por que o Brasil não lê? Mesmo alguém que trabalha em um órgão público de uma cidade que recebe milhões de reais anuais graças à literatura não dá importância alguma a ela. O problema está na base, nas escolas, nas crianças? Ou é uma chaga que se perpetua de geração em geração? Como fazer para aproximar a periferia do centro intelectual? E mais: como aproveitar o choque cultural entre o literato e o semi-analfabeto? Gay Talese dá uma fórmula certeira: "hang out" (enturmar-se, em tradução anarquicamente livre).

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