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É possível fazer política sem gravata
Uma conversa franca sobre política com Ale Youssef, dono do Studio SP, ex-secretário da Juventude no Governo Marta Suplicy
Monday, 01 February, 2010 - 06h43
Créditos: Divulgação
Estamos em ano eleitoral - e vamos falar disso. De forma leve, alternativa e inteligível. Para começar a série de entrevistas sobre o tema, ninguém melhor do que Alexandre Youssef, um homem que defende uma política simples e sem gravatas. Em um bate-papo longo, Youssef falou sobre o governo Lula, o Movimento Estudantil e seu futuro político. De acordo com ele, existe um convite para que se candidate à Deputado Federal, agora em 2010. Apesar da enorme vontade de voltar para a política, o empresário afirma que nada está acertado e que pretende decidir até o meio deste ano. Para quem não conhece sua história, aqui vai uma breve apresentação, na ordem direta dos fatos. Afinal, não existe outra forma de mostrar que Alexandre Youssef é engajado desde sempre.
Muitas pessoas conhecem o Ale da vida noturna - ele é um dos sócios do Studio SP, um dos clubes que mais apoiam a cultura contemporânea em São Paulo. O jovem empresário, no entanto, começou a dar seus passos na política durante sua época de Mackenzie, onde cursou Direito. Ale foi Coordenador do Núcleo de Cidadania da Universidade e Presidente do Centro Acadêmico da Faculdade de Direito. Mais tarde, formado, assumiu o cargo de Assessor Especial do Ministro da Justiça, José Carlos Dias, entre 1999 e 2000.
No ano seguinte, dirigiu a implementação da Coordenadoria Especial de Juventude da Prefeitura de São Paulo, durante o governo Marta Suplicy. À época, Ale esteve à frente de diversos projetos em prol da valorização da cultura jovem, como o Festival Agosto Negro de Hip Hop, Lov.e por São Paulo. Além de tudo isso, Youssef foi um visionário ao apoiar pela primeira vez a arte urbana, por meio do projeto São Paulo Capital Graffiti, em que foram expostos mega painéis feitos em parceria com OsGêmeos, e também ao construir 64 pistas de skate - iniciativa que deu um upgrade no esporte, antes marginal. Seus últimos cargos relacionados à política, antes da abertura do Studio SP, foram a direção da campanha de Soninha Francine à câmara Municipal de São Paulo e a chefia do gabinete da vereadora no início do mandato.
De 2005 para cá, Ale continuou capitaneando outras inciativas de cunho social, como o Festival de Política, realizado em parceria com a revista Trip - da qual é colunista há quase cinco anos -, que reuniu em um "domingo ensolarado, com clássico de futebol e Fórmula 1" cerca de 1 mil pessoas para debater política. Passo a palavra a ele. Aproveitem os melhores trechos de uma entrevista que eu considero extremamente importante diante do cenário brasileiro atual.
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Qual a análise que você faz do Governo Lula?
Alexandre Youssef: Do ponto de vista macro, é inegável que houve um acerto na condução da política econômica, além de uma postura extremamente sóbria durante a crise financeira mundial. É também incontestável a inclusão social de mais de 20 milhões de pessoas. No plano internacional, o reconhecimento é absurdo, nunca visto antes. Na minha opinião, Lula representa muita coisa, ele é a caracterização do povo no poder.
Por outro lado, temos o mesmo problema, que já vem se arrastando desde outros governos, que é o sistema político brasileiro, em que há uma inversão de valores e diversos partidos abutres, que se apoiam para que ninguém saia do poder. Sabemos que hoje o maior câncer da política brasileira é o PMDB, mas os demais partidos também se enquadram nesta definição. Essas práticas ferem o sentido da ética. Afinal, como é possível governar sem que você abra espaço para o jogo de barganha?
Que outros fatores negativos você apontaria?
Quando você analisa em linhas gerais, dá para achar que esse governo poderia ter ido muito além. Eles poderiam ter peitado todo esse clientelismo. Faltou a reforma política, urgentíssima, para que essa situação de currais eleitorais seja extinta. Essa parte não é negativa, mas gostaria também de acrescentar a minha admiração em relação à sobriedade do Lula, por não ter pleiteado outra reeleição, como FHC fez. Ele poderia muito bem ter mudado a Constituição, mas não o fez.
Você sempre foi filiado ao PT? Ainda é?
Eu fui filiado durante quinze anos, hoje não sou mais. Eu sou fã do presidente Lula, mas não compartilho as ideias do PT de hoje em dia. O PT se institucionalizou demais, virou um partido engessado na ideia. Eu sou a favor da modernização da política: temos que transformar essa caretice toda, o jeito ultrapassado de lidar com as mudanças.
E agora está filiado a algum partido? Pensa em voltar para a política?
A ex-ministra Marina Silva tem me inspirado muito. Ela resgatou em mim a vontade de fazer política. Acompanhei todo o processo de desligamento dela do PT, comecei a gostar da bandeira que ela levanta, de política transversal, sustentabilidade, a ideia de pensar realmente em um país para o futuro... Me filiei ao Partido Verde, hoje sou PV. Existe um convite, uma sondagem por parte do PV, que conta com a aprovação da Marina, para que eu me candidate à Deputado Federal agora em 2010. Eu tenho muita vontade de voltar para a política, é a minha vocação desde sempre. Nesses anos de Studio SP, fui muito cobrado por amigos e conhecidos para que retornasse ao meio político. A ideia do PV seria me ter como um representante da economia da cultura, a partir de um pensamento vanguardista. Eu estou pensando seriamente; tenho até o meio do ano para me decidir...
Mudando de assunto, dê sua opinião sobre o Movimento Estudantil.
O Movimento Estudantil dos dias de hoje é falido. O enfoque está errado, ele perdeu a conexão com os anseios do jovens. Se, na época da Ditadura Militar, ele representava a liberdade dos jovens, hoje falamos de uma instituição totalmente partidária. Quem representa mais os jovens de hoje: o Mano Brown ou o presidente da UNE? É preciso entender os jovens para poder representá-los. Plenárias, delegados e votações são coisas antigas. Por que não usar as redes sociais, por exemplo? Não existe eleição direta na UNE. Portanto, tudo aquilo que eu falo sobre o atraso da política convencional se aplica para o movimento estudantil. Tudo engessado. Isso afasta as pessoas do convívio político.
Como aproximar suas experiências com a noite, no Studio SP, da política?
Vou te dar um exemplo: o Festival de Política que fizemos no fim de 2009, em parceria com a Trip. Para provar que ainda existe interesse das pessoas, apesar de grande parte estar descontente com o cenário atual, conseguimos reunir cerca de 1 mil jovens, com o objetivo de discutir maneiras de fazer política fora do âmbito convencional. É possível fazer política sem gravata! Percebendo que existe essa vontade de fugir do convencionalismo, pretendemos mostrar o lado bom da política, pois todo mundo tem necessidade de mudanças e, querendo ou não, a política está presente em todos os setores.
>> Clique aqui para ver os vídeos do Festival de Política da revista Trip
O que falta para que isso seja colocado em prática? Qual o caminho das coisas, na sua visão?
Eu espero que, com o tempo, mais e mais ações como o Studio SP e o processo de revitalização da Rua Augusta comecem a ter relevância política. O Movimento Baixo Augusta pode servir como uma dica para os políticos de hoje. Afinal, é um processo que está sendo feito de baixo para cima, sem nehuma ajuda pública. E ali pertinho, temos a Cracolândia para fazer uma comparação: milhões e milhões estão sendo investidos para revitalizar aquele lugar, em um processo inverso, de cima para baixo. E, mesmo assim, as pessoas continuam com medo de frequentar aquela região. Esse é um exemplo de que lugares como o Studio SP e as demais iniciativas da Augusta podem fazer a diferença. Estamos batendo de frente com a política convencional. Uma outra mudança que precisa acontecer tem a ver com os cargos políticos em si. Veja a nossa geração: eu tenho amigos juízes, advogados, editores e repórteres dos maiores veículos do país e existe um gap enorme. Não temos representantes da nossa geração ocupando cargos políticos. Ou seja, está na hora de uma mobilização dessa galera, para a ocupação destes lugares.

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