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Entrevista: a atual Nação Zumbi
Lucio Maia fala sobre Planeta Terra, disco novo e as mudanças no cenário
Monday, 31 October, 2011 - 16h08
Lúcio Maia, Jorge Du Peixe, Dengue e Pupillo
Créditos: Fábio Braga
São 20 anos de estrada e o posto de ter ajudado a fomentar um dos movimentos mais importantes da música brasileira. Se no fim dos anos 50, o Brasil viu o surgimento da bossa nova e entre 60-70 brindou a Tropicália, no início dos anos 90, foi a vez de sentir o maracatu de uma tonelada do manguebeat. Misturando ritmos típicos da cultura pernambucana ao rock, batidas de hip hop e até eletrônico, o caos da região foi catalisado em letras que criticavam a desigualdade econômica e social da manguetown recifense.
Em 2011, um dos expoentes dessa efervescência e inventividade sonora, a Nação Zumbi, se mantém em plena atividade. Com sete discos consagrados no currículo, o grupo prepara seu oitavo trabalho, sem deixar de sair dos principais festivais de música brasileira – que vão do Festival de Garanhuns, no Recife, ao Rock in Rio e Planeta Terra, que acontece neste fim de semana, em São Paulo.
E quando o assunto é Nação Zumbi ninguém melhor para conversar que Lucio Maia, guitarrista da banda desde à sua primeira formação ao lado de Chico Science. Em entrevista, ele fala sobre a participação dos brasileiros nos festivais, do álbum novo - que deve sair no começo do ano que vem -, o manguebeat hoje, as mudanças no cenário musical, a produção atual e questões como direitos autorais e gravadoras. Confira!
Foto: Divulgação
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Lucio Maia é considerado um dos melhores guitarristas da sua geração
A banda vai tocar pela primeira vez no Planeta Terra, o que vocês estão preparando para o show?
Como faz muito tempo que não tocamos em São Paulo, o repertório vai ser de músicas que fizeram a história da banda. Estamos com um disco novo em produção, mas não queremos divulgar nada ainda, será um show com canções de álbuns antigos.
O Brasil tem realizado cada vez mais esses grandes festivais de música. Você acha que a música brasileira é valorizada nesses eventos?
Vale uma tentativa de valorização, mas eu acho que é uma valorização mascarada. É aquela coisa “vamos colocar algumas bandas brasileiras”, mas sempre em todos os festivais, sem exceção, são as atrações internacionais que têm os melhores cachês, os melhores horários, as melhores condições de palco. Eles fingem que estão dando apoio à música brasileira. Não que eu esteja reclamando, acho que as iniciativas são ótimas, super providenciais, a gente sempre fica muito feliz de participar desses festivais, mas enfim, essa é a minha opinião.
A Nação Zumbi está produzindo seu oitavo disco de estúdio, o que o público pode esperar da sonoridade desse álbum?
Eu acho que é um disco da Nação Zumbi propriamente dito, com novidades no sentido da produção, da maneira como conduzimos as músicas novas, ao mesmo tempo em que todo mundo vai sentir que é a velha Nação Zumbi que está ali, mas de uma maneira renovada. As letras transitam em outros assuntos, está bem legal. É um disco com vários momentos diferentes, alguns altos e outros mais suaves.
Como essa renovação chega às composições?
As letras estão bem acessíveis. Jorge [Du Peixe, atual vocalista da banda] já trabalhou de forma muito subjetiva, hoje em dia ele está escrevendo de uma maneira mais direta, criou um conforto para os ouvintes. Sempre exigimos muito do nosso público, trazemos muita coisa e às vezes eu acho que é informação demais. Então, dessa vez, direcionamos um pouco mais para uma canção, até para a simplicidade de uma canção, de fazer uma música bonita, que fale de coisas bonitas.
Esse CD novo já tem nome e previsão de data de lançamento?
Não, ainda não tem nada voltado à questão conceitual. Estamos na fase de mixagem, só vai ficar pronto ano que vem, algumas coisas ainda vão acontecer. Acho que ainda é meio cedo para falar qualquer coisa, muita coisa ainda vai mudar. Mas vai sair no começo do ano que vem, com certeza no primeiro semestre.
Vocês têm a intenção de mandar esse novo trabalho a uma gravadora ou de produzí-lo independente?
Vamos apresentar a uma gravadora, como a gente sempre faz. Aliás, como todo mundo faz. Nós somos uma banda muito mais de gravadoras do que independente, dos sete discos da banda apenas um foi independente. Agora, obviamente, se não tiver nenhuma perspectiva de gravar com nenhuma, vamos fazer independente, com certeza. O disco tem um potencial excelente, é um dos melhores discos da banda. Pelo processo que fizemos agora dá para perceber que é um grande disco e que tem uma perspectiva de trabalho muito boa, é possível que alguma gravadora se interesse.
São 20 anos de carreira, o que mudou para a banda de 1990 para cá?
Mudou muita coisa, 20 anos é uma vida, um estado de amadurecimento e o ápice. Desde a parte de composição à de business, estamos muito bem resolvidos entre nós. Acho que a Nação Zumbi é uma banda bem sucedida dentro do que tentamos explorar. É complicadíssimo trabalhar com música brasileira dentro do Brasil, mas somos uma banda, que eu diria até bem-sucedida.
Falando dessa cena musical dos anos 90, de quando a Nação Zumbi surgiu pra o atual cenário, o que você sente de mudança? Como vê a cena artística hoje?
Acho que o cenário da música muda de dez em dez anos, mas eu não tenho sentido que ele tenha mudado para melhor. Sinto que tem mudado para a mesma coisa e para o mesmo lugar. Só está se repetindo nas ideias, não está surgindo nada realmente fantástico, assim uma coisa renovadora, revolucionária. E eu acho que, por enquanto, não tem nenhuma sombra de que isso vá acontecer.
A Nação Zumbi, junto com o Mundo Livre S.A, ajudou a fomentar o manguebeat, movimento que revolucionou a música brasileira. Você vê o manguebeat vivo ainda hoje?
Todo aquele processo conceitual que conversamos nos anos 90 já vinha de 30 anos antes, na Tropicália, só que não repetimos a conversa, fizemos outra coisa. Esse negócio de trabalhar a música brasileira de uma maneira modernizada e mais contemporânea começou desde Baden Powell e Tom Jobim, pessoas que foram grandes influências na evolução da música brasileira. Quando tivemos a ideia de misturar maracatu com ciranda e aqueles ritmos que estavam do nosso lado foi muito impulsivo e espontâneo. Não criamos uma ideia para transformar aquilo na prática, foi o inverso. Começamos a tocar daquele jeito e dali surgiu a teoria.
Além dessa inventividade sonora, outra característica marcante no movimento foi a contestação política. Você acredita que o tema ainda cerceia o cenário musical nacional?
Não há um porquê, vivemos em um momento completamente diferente do que foram os anos 60 e 70, essa condição artística depende muito da pressão que você sofre. Não tem sentido, hoje em dia, uma banda compor uma letra para falar sobre falta de liberdade porque é algo que realmente não acontece, hoje você tem liberdade de expressão e pode fazer coisas que não podia fazer naquela época. Como o Chico Buarque disse uma vez em uma entrevista “não tem sentido falar de revolução se não tem nada para ser revolucionário”.
Foto: Daniel Bernadinelli

Além da Nação Zumbi, Lucio Maia trabalha em seu projeto paralelo, o Maquinado
E letras que falem, por exemplo, de questões sociais, tema que também foi abordado e que continua atual?
Aí eu acho que é muito mais uma questão de enfoque artístico de cada um. Chico [Science] tinha muito mais esse lado, Jorge [Du Peixe] não tem nada disso ou pelo menos é muito mais distante que ele. Fred [Zero Quatro, da Mundo Livre S/A] sempre foi um cara voltado à política, ele é jornalista, trabalha na Prefeitura de Recife e tem essa característica de compor letras com uma forte crítica social. É mais uma questão individual.
É possível sentir o manguebeat daquela época nessa atual produção da banda?
Não tem como você se desvencilhar do seu número de identidade, você passa a ter o mesmo o resto da sua vida, por mais que não queira mais falar sobre aquilo. Sempre aquilo vai estar dentro de você, não é que isso faça parte ou deixe de fazer parte, nós somos isso.
Não dá para falar de música atual sem citar a Internet em um momento que grandes artistas fazem shows online e baixa-se discos pela web. Gostaria de saber sua opinião a respeito desse cenário e da questão dos direitos autorais.
Eu acho ótimo, quanto mais ferramentas existirem para facilitar a vida das pessoas, melhor. Mas eu acho que está cada vez mais difícil baixar um disco na Internet, cada vez mais controlado. Você tenta puxar um arquivo do Ipod e não consegue, não é possível mais transitar independente, tem que passar por programas e softwares que servem para controlar. Os direitos autorais não estão correndo risco, essa história que todo mundo fala “ah, gravadora acabou”, eu naquela época já sabia que era só uma questão de reestruturação. Não vai acabar, esse mercado é muito forte! Se você vai aos Estados Unidos, o show business lá está riquíssimo, é muito dinheiro rolando. Não tem perigo nenhum de acabar os direitos autorais, de as gravadoras fecharem as portas, a Sony, por exemplo, continua vendendo muito. Fechou muitas lojas? Fechou, mas eles estão dando um jeito de vender de outra maneira, existem muitas formas de trabalhar um artista. Hoje em dia, as gravadoras fazem outro tipo de acordo. “Oh, como o disco não está dando dinheiro, a gente vai investir bastante na sua carreira a ponto de você fazer muito mais shows do que você fazia. A gente tem uma porcentagem desses shows agora, vamos trabalhar juntos? Vamos. Precisa de disco? Não” .
