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Entrevista: Paulão das Velhas Virgens
Em meio a bebedeiras homéricas, sexo depravado e quadrinhos, vocalista arruma tempo para TV, imprensa e até shows
Monday, 09 November, 2009 - 17h49
Créditos: Divulgação
Paulo Carvalho é vocalista das Velhas Virgens, uma das mais antigas bandas independentes do Brasil, foi finalista do concurso de repórteres promovido pelo programa CQC, da Bandeirantes, trabalha durante o dia e toca à noite e ainda foi o responsável pelas "sedutoras" chamadas do canal pago Sex Privê Brasileirinhas. Este último trabalho ele define com elegância: "Era um texto tipo ´Nesta oficina, as moças não se fazem de rogadas e apertam os parafusos até espanar a rosca´. Falar de putaria com alguma classe".
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Com o lançamento do CD Ninguém Beija Como as Lésbicas, o !ObaOba bateu um papo com Paulão, que está a frente da banda que já completou 23 anos de estrada. O saldo de tanto tempo? Histórias. Muitas histórias. Não foi à toa que o novo álbum foi lançado junto com As Eletrizantes e Etílicas Aventuras das Velhas Virgens, livro em quadrinhos protagonizado pelos integrantes da banda. A HQ foi roteirizada por Alexandre "Cavalo" Dias, guitarrista das Velhas Virgens, que já trabalhou como roteirista inúmeras vezes. Mas nunca escreveu sobre ele próprio e seus companheiros.
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Ninguém Beija Como as Lésbicas é um disco conceitual. As 13 músicas narram a história de Genelvis, um gênio idolatrado "dentro da garrafa". Mas seus dias de prestígio são ameaçados por um filme em que sua mulher faz revelações extraordinárias. Todas as canções são interligadas por efeitos sonoros e textos, que dão o tom da "ópera rock".
!ObaOba: Qual o momento das Velhas Virgens?
Paulão: Puta, meu... é um momento muito louco porque a gente está lançando um CD novo. A gente já está com 23 anos de estrada e as pessoas sempre acham que rock´n´roll é coisa de molecada, né? E começam a se perguntar "O que esses velhos querem mais na vida?", né bicho? Engraçado é que continua soando da mesma forma, continuamos falando das coisas que a gente sempre gostou, que é boemia, bebedeira, mulher, festa e bar, entendeu? Então, na verdade, não parece nada estranho para nós: continuamos tendo um puta público gigante nos shows, muita molecada que não tem nem a idade que a banda tem. E isso faz a gente entender que o tal do rock´n´roll deve ter uma substância ali que faz a gente falar a mesma língua a vida inteira. Talvez isso explique o Iggy Pop estar por aí e tantas outras pessoas.
!ObaOba: Como está sendo o Ninguém Beija Como As Lésbicas?
Paulão: A gente está lançando este CD que também é uma certa ousadia; uma "ópera rock". Uma "ópera rock" tosca, humildezinha, do jeito que a gente pode fazer. Mas ela conta uma história, tem uma sequência de músicas amarrada por um enredo, e este enredo é explicado num livreto que a pessoa pode baixar num site, independentemente até de comprar o CD. E entre as músicas, a gente criou umas cortinas musicais, para tentar criar o cenário onde a ação se passa, entendeu? De certa forma, e guardada obviamente as proporções, fica uma coisa meio Pink Floyd, meio (The) Who. Você vê que acaba uma música entra uma ruído de uma praça, um pastor pregando, porque o personagem está ali, está acontecendo alguma coisa e tal. Então, pô, estamos com um disco que é diferente dos outros neste sentido de linguagem. Começamos uma turnê com dez múscas novas no set, algo que a gente só fez acho que em 1998, e estamos com a agenda praticamente fechada até final de janeiro. Até dezembro agora não tem mais sexta e sábado! É uma fase fantástica, cara. Parece que a gente chegou num ponto em que as pessoas pararam de ficar enchendo o saco que a gente é machista, que o rock´n´roll morreu, esses papos furados, e resolveram consumir o drink, que eu acho que têm que fazer! Se você não gosta do drink das Velhas Virgens, vai tomar outro! Mas não fica reclamando do bar, que o bar é esse.
!ObaOba: E vocês sentiram muita diferença neste novo trabalho conceitual?
Paulão: A gente insistiu muito nessa fórmula, exatamente como AC/DC insiste na mesma fórmula há muito tempo. Muita gente fala "Mas AC/DC, ouviu uma música, ouviu todas". É porque todas são ótimas! A gente insiste nessa fórmula de rock´n´roll reto, falando as coisas diretamente e tal. E, porra bicho, está sendo o começo de turnê mais fácil que a gente já teve. Pô, domingo a gente tocou em Franca para mais de quatro mil pessoas e num set de, sei lá, 18 músicas tinha dez novas. Isso não costuma acontecer - as pessoas não têm muita paciência com o que elas não conhecem. No entanto, a gente tocou as músicas novas, as pessoas que não conheciam ficaram ouvindo, tentando cantar junto. Não sei se foi essa coisa de a gente insistir e as pessoas começarem a respeitar a gente mais, mas acho que chegou num ponto em que a gente está quase virando vintage, entendeu? Mas se o Sidney Magal virou cult, talvez a gente possa virar, né? Mas as coisas estão andando assim, tem muito show marcado e a imprensa vem tratando a gente com mais respeito. Costumam achar que falando de diversão o seu trabalho é menos importante do que alguém que fale de filosofia, eu já acho que falar de boteco é a melhor filosofia que tem. Tá num momento muito, muito especial mesmo, cara. Curiosamente as pessoas começaram a gostar da gente, viu? To ficando até com medo.
!ObaOba: Depois de 23 anos, a banda segue independente. Por que esta opção?
Paulão: Na verdade, nunca foi opção e sim a "falta de", entendeu? Sempre foi uma coisa, tipo assim: queríamos fazer, ninguém queria apoiar, então a gente mesmo se virou para fazer. Quando a gente lançou o primeiro CD independente, o Sr. Sucesso, foi assim. A gente tinha feito o primeiro disco, para uma gravadora pseudo-independente que roubou a gente, uma cagada. (Sob) a fantasia de independente, às vezes, tem um monte de ladrão e safado. O segundo, a gente fez pela Velas, que é uma gravadora independente, mas é uma gravadora pequena também e não era nossa. Aí quando chegou no terceiro, a gente fez o disco e saiu batendo em tudo quanto é gravadora. Grande, pequena, média, qualquer uma. E ninguém se interessou! Aí sobrou para a gente tentar bancar o nosso disco. O Cavalo abriu o selo, que é o Gabaju Records e a gente começou a se virar. A internet começou a ficar um pouco mais acessível no Brasil e isso que foi a grande diferença da nossa independência. Quando ela começou a se tornar realmente uma janela com o público, paramos de depender de mídia. Aí, a independência cresceu muito! Ninguém queria a gente, essa que é a verdade, entendeu? Não foi uma oção, mas "falta de". E a grande vantagem dessa história é que você tem a liberdade de fazer do jeito que você quer. Mas lógico que a liberdade sempre bate na falta de grana, de estrutura. Então é meio que esse paradoxo que as pessoas têm que escolher. Mas é na vida, não é só na música. Ou você engole sapo porque está sendo bem pago, que é o que acontece numa grande gravadora, ou você faz do seu jeito. Mas aí, você rala. E a gente tá nessa de ralar, apesar de já estar numa fase bem legal, cara. Numa fase que a gente consegue bancar nossos custos de disco, de sobrevivência, tem bastante show para fazer, tá bem, tá bem. A parte mais complicada já foi. Mas também, porra! São 23 anos, caralho!
!ObaOba: Então, dá para viver só de banda independente?
Paulão: Veja só, eu não estou dizendo que todo mundo só faz isso na banda. Essa história de música dá tempo para você fazer outras coisas. Eu sou redator do SBT, no Domingo Legal, estive envolvido lá naquele concurso do CQC e estou sempre com uns trabalhos paralelos de TV e de música. O Cavalo está cuidando da gravadora, se envolvendo com edição de livros, o Roy só toca, mas toca em várias bandas, inclusive no Tutti-Frutti que é do pai dele e a Juliana dá aula de música. Mas se a gente parar e só ficar com a banda, segura. As contas do bar só vão ter que diminuir um pouco.
!ObaOba: Mas e você? Como é a rotina no meio de tudo isso?
Paulão: Isso aí é a maior demência que você pode imaginar! Quando você trabalha como músico, você trabalha de noite e de dia você dorme. E como eu trabalho com televisão, trabalho de dia também. Então eu trabalho o tempo todo! Tenho que estar todo dia teoricamente lá, sou o chefe da redação do Domingo Legal. E tento chegar lá na hora, ficar o tempo que eu posso, mas tem entrevista para fazer, tem show para viajar e tal. A rotina dessa semana, por exemplo, é bem assim. A gente toca sexta-feira em Criciúma. Mas não tem vôo para lá. Ou eu compraria passagem bancada do meu bolso, para ir na sexta, que aí eu tramparia no Domingo Legal. Eu vou sair com a banda quinta-feira à meia-noite, a gente chega lá em Criciúma em torno do meio-dia, almoça, fica por lá, faz o show, no dia seguinte vai para Blumenau e sai de Blumenau lá pelas 5h, 6h da manhã de domingo. Não dá tempo de chegar para fazer o programa ao vivo, que o Domingo Legal começa às 11h. Vou chegar em casa no meio da tarde. Na segunda, tem uma entrevista, na terça eu vou com a banda para Floripa, faço o show na quarta, quinta de manhã eu pego o avião e venho trabalhar. Aí, gravo o piloto de um programa que eu estou fazendo com uma galera que fez um documentário com a gente em cima dessa história do CQC mesmo, me aproveitando como apresentador. Chama-se "Esquenta com o Paulão", que é uma entrevista com uma pessoa e depois ir para balada com ela. Então eu gravo isso, deve ir a noite inteira. Na sexta eu trabalho o dia inteiro no SBT, pego um avião lá pelas 17h e vou pra Curitiba. Às 19h tem lançamento da revista e do CD numa livrara e show à noite. Aí, no sábado, a gente vai pra Chapecó, toca em Chapecó, volta para pegar um vôo para tocar em Belém do Pará no domingo e, bom, daí vai assim. Mas, pô, do caralho estar com um monte de coisa pra fazer!
A minha rotina é meio que essa, fazendo umas coisas de TV, para tentar emplacar essa coisa de apresentador e repórter, que é algo que eu sempre quis fazer, trampando no SBT para pagar as contas também, correndo com o lançamento do disco, estou com um projeto paralelo também no Café Aurora que chama Clube dos Cornos, que a gente vai tocar sons do tipo Agnaldo Timóteo e Nelson Gonçalves, música de corno mesmo. Vai acontecer todas as quartas de novembro. A ideia é fazer uma mistura de chifre com humor, com testemunho, chamar as pessoas para o palco para contar histórias de chifre e, se a história for boa, ganha um chope. Tem toda uma brincadeira de participação do público também. É isso que eu faço. E, às vezes, quando consigo, eu durmo.
!ObaOba: E participação no concurso do CQC? De onde veio a ideia?
Paulão: Eu trabalho em TV ao mesmo tempo que eu tenho a banda, né? São 23 anos de Velhas Virgens e eu me formei justamente no ano em que eu comecei a tocar, que foi em 1986. Desde 1990 eu escrevo para o SBT, e ir para a frente da câmera sempre foi um sonho meu. Sempre achei que eu podia ser um apresentador numa mistura de Sergio Groismann com Tadeu Jango, se você lembra da Fábrica do Som. Eu achava aquilo do caralho, eu falava "Pô, talvez eu consiga fazer alguma coisa nesse nível e ser um pouco mais esculhambado por incorporar a coisa da bebedeira, da boemia". Fui procurando um espaço para isso e quando eu vi o concurso do CQC, falei "Bom, eu vou tentar ser eu mesmo lá e vamos ver o que acontece". E eu fui pra lá barbudo e cabeludo, que era o visual que eu estava usando no show, até porque eu abria o show de vestido de pirata, meio Jack Sparrow. Eu achei que aquilo não ia durar muito! Mas eu falei "Bom, de todo jeito, nós estamos lançando o CD da banda, qualquer buchicho que der, é buchicho para a banda".
!ObaOba: E o processo foi divertido?
Paulão: Foi legal pra caralho. Eu realmente tenho experiência com televisão, atrás das câmeras, não fazendo reportagem. E é muito diferente. Mas eu tenho uma certa experiência de escrever pauta, por exemplo, né? E fui indo, indo, indo, até que eu cheguei na semi-final. Estava muito a fim de ganhar, não sei como ia ser minha vida, porque eu já te contei como é a rotina, e eu ainda tinha que enfiar o CQC no meio da história. mas a minha filosofia de vida é criar os problemas e depois resolver. Não fico nessas de "Ai, não vai dar. Então, não vou fazer". Vou fazer! E eu acho que assim, cara, eu fiz boas matérias, eu acho que as quatro pessoas que chegaram nas finais foram bem, eu, o Rogério, a Carol, a Mônica, e acho que eles estavam interessados em colocar uma mulher, realmente acho. Quem trabalha em televisão sabe disso, você manipula a edição, da forma que te interessar. Mas eu não posso nem reclamar disso, porque da mesma forma que a edição eventualmente ajudou A ou B, ela também me ajudou, né? Para chegar na semifinal, é o mesmo princípio.
!ObaOba: Mas você acha que o resultado foi justo, com a vitória da Mônica?
Paulão: Eu acho que a Carol estava melhor do que ela. Acho mesmo. Acho a Mônica compentente, tem sua experiência de humor... Ela é atriz, na verdade. Mas achei que a Carol estava melhor na final.
!ObaOba: O resultado para a banda foi bom?
Paulão: Eu acho que foi bom sob todos os aspectos, cara. Muita gente torcia o nariz pra gente quando me viu lá no CQC, que é um programa de muito prestígio, pensou "Os caras gostam dele lá, ele deve ter algum valor". Até isso eu acho que rolou! Eu acho que rolou um buchicho legal em cima da banda, um pouco mais de respeito com o trampo que a gente faz, o próprio nome da banda andou um pouco mais, ajudou na divulgação do CD novo, e me ajudou profissionalmente. Aprendi pra caralho o modo de operar deles. Então, pô, achei do caralho! Só teve coisa positiva. A única negativa é que eu não ganhei e eu queria ganhar, né? Mas de todo jeito, eu estou fazendo outras coisas, tenho outros projetos em andamento e espero que esse buchicho que saiu em torno da minha participação seja estendido para outras coisas que eu faça. Algo talvez mais voltado para o rock. Vou ser sincero, cara: teve uma hora que eu fiz uma matéria lá com uns políticos, fiquei esperando o José Serra, o prefeito de São Paulo e aí o cara chega, não chega, chega, não chega, sabe? Aquela tensão louca, falei: "Meu, se eu entrar nessa porra, minha vida vai ser esperar esses merdas". Mas como repórter do CQC eu teria que ficar lá babando ovo neles. Neste momento, juro por Deus, eu pensei: "Será que vale a pena essa merda?". Mas foi só rapidinho, porque eu queria muito ganhar. Quando eu entro numa parada é para ganhar! Posso não ganhar, mas é para ganhar. Mas acho que a Mônica foi bem pra caralho, acho que eles queriam um perfil talvez que facilitasse algumas coisas tipo merchandising, e acho que a ela tem algumas qualidades neste lado também, entendeu? E acho que também é uma opção deles. Eu não tenho visto as matérias dela, mas parece que está bem. Vejo o Tas elogiá-la toda semana. Fiquei meio com dor de cotovelo... Daqui a pouco, passa.
!ObaOba: E agora as Velhas Virgens têm história em quadrinhos. Como foi isso?
Paulão: A gente trabalha com quadrinhos faz muito tempo. O Cavalo é roteirista de quadrinhos desde sempre e ele já fez roteiro de HQ para a Disney, Maurício de Souza e o diabo a quatro. Desde o início da banda, a gente associou o símbolo das Velhas Virgens a uma imagem de HQ. Não de bobeira, mas para atenuar a coisa do sexo e da putaria, para não ter tanta encheção de saco. Então, a gente ao invés de botar gente transando de verdade, a gente colocava em quadrinhos. Em 1998, quando lançamos o Sr. Sucesso nas bancas de jornal, ele veio encartado numa revista em quadrinhos. Os quadrinhos estão na nossa vida faz muito tempo e a animação também. O Cavalo já vinha querendo fazer um livro realmente, com capa dura e com uma finalização bonitinha, ele estava atrás de desenhistas e achou dois de Porto Alegre. Basicamente, ele pegou nomes das músicas da banda, incorporou a história de que a gente vive na estrada e criou ali. É legal, porque além de ser um jeito de abordar o trampo de rock´n´roll de outro ponto de vista, dos quadrinhos, tem a ver com rock´n´roll pra caralho. É um jeito também de a gente entrar na mídia de um jeito diferente. A gente lançou o CD junto da HQ e os quadrinhos são mais notícia para a imprensa do que o próprio disco. E faz até sentido, porque uma banda lançar um álbum é normal. Lançar HQ não é qualquer um que lança. Então, funciona como ferramenta de marketing, como outra linguagem. E o Cavalo está planejando em cima dessa históra da "ópera rock" um outro livro de quadrinhos, contando a história do disco. A nossa ligação com quadrinhos é antiga.
!ObaOba: A resposta dos fãs foi positiva?
Paulão: Pra caralho, cara. Pra caralho. Tem vendido bem, a gente tem feito tarde de autógrafos em livrarias, lançado o CD e a HQ. E é legal, porque é uma linguagem que é acessível para todo mundo. De certa forma, as pessoas tomam conhecimento das histórias malucas que acontecem na estrada com a gente. Então assim, acho que é um casamento perfeito: quadrinhos com rock´n´roll.
!ObaOba: Com certeza são muitas histórias. Tem alguma que pode contar para a gente, que você se lembra agora?
Paulão: Gente que desapareceu em Ouro Preto e tivemos que sair caçando. Integrante da banda, mas não vou falar o nome não, porque entrega o ouro! Mas a gente ia sair do lugar, acordar para ir embora. E cadê o cara? Você sai pela cidade e "Ah, ele tava na república tal". Aí você vai, mas isso eram umas seis ou sete repúblicas. Até achar o cara com um roupão cor-de-rosa da mulher que ele estava comendo. O que você tá fazendo com esse roupão cor de rosa? "Ah, só achei esse".
!ObaOba: Com tanto tempo de música, quais foram o melhor e o pior momento?
Paulão: O melhor são sempre os shows, cara. A gente em cima do palco tocando para dez mil pessoas num festival de Salvador, tocar para 40 mil pessoas na Virada Cultural em São Paulo neste ano, tocar para 30 mil pessoas em Assunción, no festival da Quilmes... Eu acho que o grande lance todo são os shows, o contato com o público. Eu te falei dos maiores mas, às vezes, um show num lugar pequeno para 200 pessoas também é do caralho. E eu acho que o pior momento foi a saída de alguns integrantes, que foi meio traumática. A gente sempre foi muito amigo. Tinha funcionário que estava fodido no Natal, eu pegava em casa, saía para tomar cerveja com o cara, virava a madrugada e depois ele entrava na justiça, dizendo que trabalhava sete dias por semana para a gente, cobrando absurdos. Eu não trabalho sete dias por semana com a banda! Então, essas coisas deixam a gente triste pra caralho porque, queira ou não queira, a coisa fica em cima de amizade. Mas a amizade vai pro caralho quando as pessoas começam a ficar sem dinheiro.
!ObaOba: Nestes 23 anos de estrada com a banda, o que você aprendeu?
Paulão: (Risos) A curar ressaca, a não trepar sem camisinha... (Risos) Na estrada, quando você para para comer, coma. Você não sabe quando vai comer de novo. Quando for para dormir, durma, porque você não sabe quando vai dormir de novo. Porque é muito louco, velho. Passamos muito tempo dentro do ônibus. Essa história de ser independente é isso. A gente sai às vezes terça à noite de São Paulo e vai voltar segunda no meio da tarde. De cidade para cidade, fácil, fácil você passa 70 horas no ônibus. Então, eu acho que a lição que a gente aprende, é que estamos num país com uma diversidade cultural poderosa. Muita música específica de vários lugares. Estive no sul e você tem a música folclórica deles forte, vai para o nordeste tem o maracatu e a merda do axé que é um lixo. Então, é muita concorrência, entendeu? A Argentina me parece que tem lá a cumbia, que quem gosta é o Tevez e Defederico aqui do Corinthians, o tango que deve ser da velharada, e o resto é música popular mesmo, só que lá na Argentina é o rock´n´roll. Aqui no Brasil, no sul, é um pouco mais assim, mas também não é muito, não. Então você aprende, velho, que para você tocar rock´n´roll e estar vivo, você tem que ralar. Essa sensação de superstar, de aparecer na TV, eu acho que ficou na década de 80. O resto é ir para estrada e ralar. E essa lição quem me ensinou foi o Marcelo Nova: "Quer fazer uma banda de rock, vai comer poeira na estrada".

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