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Entrevista: Roberta Estrela D'Alva

Diretora da primeira ópera rap do Brasil conta ao !ObaOba o segredo da mistura do teatro épico ao hip hop

Por: Gabriel Rocha Gaspar

Monday, 05 October, 2009 - 12h02

 

Créditos: Divulgação

Quando pintou a ideia de fazer Cindi Hip Hop - Pequena Ópera Rap, o Núcleo Bartolomeu de Depoimentos sabia que se propunha um projeto ousado. A ideia era casar o hip hop, mais forte expressão do jovem da periferia paulistana, ao teatro épico do alemão Bertolt Brecht. Até aí, sem novidades: o núcleo já trabalha nesse sentido há nove anos. Mas ópera são outros 500. Ainda mais quando se propõe retratar a juventude há luz de um arquétipo como Cinderella, que já teve mais de 3 mil releituras.

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O começo foi penoso, confessa a diretora Roberta Estrela D´Alva, atriz formada pela ECA (Escola de Comunicação e Artes da USP), MC e membro fundador do Núcelo. Quem é a Cinderella? "O jovem brasileiro que, apesar de todos os "nãos", consegue realizar seu sonho". Ok, uma solução e um problema. Quem é o jovem? "No começo pintaram umas cenas meio parecendo Malhação, umas cenas estranhas, que pareciam uma caricatura de jovem". A saída foi remeter às bases constitutivas do espetáculo. Afinal, um dos principais pontos de intersecção entre o hip hop e o teatro épico é o personalismo. Não existe rapper cover, não existe teatro épico sem verdade. Quem é o jovem? Os próprios atores.

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Aí, a coisa andou: o grupo incorporou sua própria história aos personagens e ganhou verdade. Se retratou no pedreiro que não conhece o pai, no operador de telemarketing que sonha viver do trabalho de ator e subiu no palco para encarar a si próprio. "Sem psicodrama", frisa Estrela D´Alva. O resultado foi Cindi Hip Hop que, depois de uma temporada em 2008, ganhou o prêmio FEMSA de Melhor Espetáculo Jovem. "Então, já foi?", você deve se perguntar. Sim, já foi. Mas é de novo, às terças e quartas-feiras, até 28 de outubro, no Centro Cultural São Paulo. Antes de correr para lá, confira os melhores momentos da entrevista que Roberta Estrela D´Alva concedeu ao !ObaOba:

De onde surgiu a ideia de fazer uma ópera rap?

O Cindi é uma mini-ópera rap. A ópera mesmo - a "hip hópera" - a gente está fazendo agora. Deve sair em 2011. O Cindi é um laboratório para essa ópera grande. Mas ele foi se configurando assim... Pegamos a história da Cinderella, queríamos fazer uma peça para jovens. Apesar de o Núcleo Bartolomeu já ter ganho prêmios de teatro jovem com outros espetáculos, a gente nunca tinha feito uma peça exclusivamente para jovens. No ano passado, dentro de um projeto chamado Particularidades coletivas, em que cada um dos membros fundadores - eu, Claudia Schapira, Luaa Gabanini e o Eugênio Lima - foi fazer projetos solo além de um feito pelos quatro, que era o Cindi Hip Hop. Era um projeto de experimentação, de fortalecimento da formação dos atores mais novos... Os antigos não participavam: eu dirigi, Claudia escreveu o texto, Eugênio fez a coreografia e a Luaa a preparação de atores. Foi uma prova da linguagem. Por isso, uma mini-ópera rap.

Música, dança, estilo de rua, ópera, Cinderela, não é muita informação pra um espetáculo só?

Essa linguagem é o que a gente chama de dramaturgia cênica. Importante não é só o texto, mas a música, o figurino, o cenário, o jeito como os atores se movem, a dança, tudo isso. Sempre tivemos música, o que é uma característica do teatro épico - uma linha que a gente trabalha. Como era uma Cinderella jovem, resolvemos fazer um musical. Mas não um musical como A Bela e a Fera ou esses musicais da Broadway, que têm uma linha bem dramática. Nossa característica é muito épica, não tem a intenção de... Ah, de "ludibriar" o espectador - transportá-lo para um mundo dos sonhos que não tem nada a ver com a realidade. Pelo contrário: ele é bem calcado na rua. Na verdade, a Cinderella é só um mote. Quando a gente começou a pesquisar, (descobrimos que) Cinderella é a história mais contada no mundo. Tem versão dela de 806 a.C. na China, tem da Índia, dos índios brasileiros. Não Cinderella com esse nome, mas esse arquétipo.

A história da Gata Borralheira?

É, a Gata Borralheira. O jovem ou a jovem que, apesar de todas as adversidades, realiza seu sonho e tem uma recompensa no fim: um príncipe ou qualquer coisa. A gente começou a procurar quem seria essa Cinderella. A gente chegou nesse denominador comum: o jovem brasileiro que, apesar de todos os "nãos", consegue realizar seu sonho. Mas isso, ao mesmo tempo, criou uma dificuldade. "O jovem". Quem é "o jovem"? Não tem uma entidade assim: "Oi, eu sou o jovem!". No começo pintaram umas cenas meio parecendo Malhação, umas cenas estranhas, que pareciam uma caricatura de jovem. Até que a gente se ligou e falou: "Meu, quem são os jovens?". Nós mesmos! A pessoa que está fazendo a peça. A gente tinha que contar a nossa história. Estava tudo no nosso nariz e nós não enxergávamos. Nos aproximamos: fizemos uma leva de depoimentos com histórias próprias.

Por isso Núcleo Bartolomeu de Depoimentos?

A gente sempre faz quando chega um ator novo, é o batismo. Quem é você? Pro Cindi, a gente fez de novo essa rodada de depoimentos, pra descobrir quem somos nós, agora, neste momento. Cada um começou a trazer o personagem a partir dos questionamentos: "O que a gente quer falar?"; "O que aflige a você?". Não "o que aflige ao jovem". O jovem não existe; existe você. "Quais os seus problemas, seus anseios, quais os seus sonhos?".

Quanto tempo vocês demoraram para criar o Cindi?

Ele começou a ser criado em maio de 2007 e ficou pronto em agosto de 2008. Aqui no Bartolomeu, tirando casos muito pontuais, a gente nunca monta uma peça em um mês. A gente é um núcleo de pesquisa. Se o tema é Cinderella, a gente junta tudo que tem de Cinderella, todas as versões, todos os textos que falam sobre isso, faz um estudo teórico relacionado, uma leitura comparada. Aí, a gente faz um treinamento bem vigoroso de Ashtanga Yoga, que é a base de tudo. Aulas de dança de rua, de voz, eles tiveram que dar voltas no quarteirão correndo - tinham que cantar e dançar sem ficar ofegantes. Eles tiveram que dar uma ripa, fazer um monte de treinamentos aeróbicos. Musical já não é fácil; ainda mais hip hop que é uma linguagem física e vocalmente tonificada. Mesmo quando ele é cadenciado, ele tem uma postura, uma base, um beat. É isso: é bater. Quer dizer, isso é a nossa visão. Nesses 30 anos no Brasil, o hip hop ainda tem pouca literatura confiável, é uma cultura em formação. Então nunca é bom ditar regras: o próprio hip hop já se estrepou várias vezes por isso. Na nossa visão, é celebração e diversidade.

Então, o hip hop dá margem a várias interpretações?

Tem contextos históricos. Por exemplo, o MC é o cara que tem entendimento com o b-boy, o DJ, o grafite, ele é parte de uma cultura. O rapper já tem a coisa do culto à personalidade. O (MC) Afrika Bambaataa, que é o mentor da cultura hip hop, era contra gravar disco porque, a partir do momento em que se gravasse, (o movimento) ia se descaracterizar porque não ia precisar de tudo ali junto. O cara que cantava não ia mais precisar do DJ, nem da Bloc Party, nem da festa, nem da comunhão, nem da diversidade.

Ia gravar um disco e acabou a troca.

É, o que é dialético porque isso permitiu que o hip hop dominasse o mundo. É uma faca de dois gumes, pois foi o que permitiu que chegassem o De La Soul e tudo o que chegou aqui no Brasil. Mas quando nos anos 90, acontecem as mortes do Tupac (Shakur) e do Notorious B.I.G., que são rappers, alguma coisa está errada porque aquilo era uma oportunidade de convivência. Quando a celebração e a diversidade ficam em segundo plano e começa a se falar: "Esse pode, esse não pode", perde-se a raiz, que é o mais bonito do hip hop. Mas também não podemos ter uma visão muito dura sobre as coisas, tudo é um processo. Nesse processo, acho que é uma pena que se tenha perdido isso... Fui a Nova York pesquisar pra fazer um espetáculo de Slam (batalha de poesia) no Brasil e vi umas camisetas "Hip hop is dead (Hip hop está morto)". Esse ano eu voltei lá e já tinha umas "Hip hop is not dead (Hip hop não está morto)". Tem um movimento que é normal de qualquer cultura artística forte, com ápices e quedas. É tudo processual.

Onde entra o teatro hip hop nesse processo?

Está dentro. Tem até um festival em Nova York, o Hip Hop Theater Festival. Aqui tem menos. Tem até grupos que misturam, mas com essa linguagem "Teatro Hip Hop", que eu saiba, o Bartolomeu é o único. É quase uma invenção.

O teatro hip hop pode virar um quinto elemento da cultura (o hip hop tem quatro elementos consitutivos: break, grafite, MC e B-boy)?

Acho que não. Está tão estabelecida essa coisa dos quatro elementos... O teatro se mistura (ao hip hop) mas tem uma outra raiz grega muito antiga. Apesar do encontro, acho que é outra árvore. Até dá pra ele entrar no hip hop, mas não colocá-lo como um elemento. Esses são elementos constitutivos. Desde que a coisa se criou, eles estavam presentes. Eles foram fundamentais para a formação do hip hop.

O que difere o teatro hip hop do teatro normal?

Ele não é teatro E hip hop é teatro hip hop: o casamento de duas linguagens (teatro épico com esse teatro com pé na realidade), com o hip hop, o que cria uma terceira linguagem. Na verdade, ele é o filho de um casamento casamento estético. O que difere é a premissa: misturar teatro e hip hop. Eu sou atriz de formação, mas hoje em dia sou MC. E muito disso se deu aqui dentro. O Eugênio (Lima) que entrou aqui como DJ, hoje em dia, é ator. A Luaa, que era atriz e videomaker, virou DJ. Isso, em cena, traz muita diferença estética e até no discurso. Porque o teatro épico e o hip hop têm um denominador comum na auto-representação: "Eu conto a minha própria história, não preciso de ninguém que conte pra mim. Eu sei quem eu sou, sei onde eu estou, reconheço o que está em volta de mim e sou capaz de me auto-representar". Tanto que você não vê um MC cantando letra que alguém escreveu. É sempre uma visão muito própria.

Não existe rap cover...

Não existe rap cover. E o teatro épico como ele foi criado lá no começo (pelo dramaturgo alemão Bertolt Brecht) é o trabalho dos trabalhadores para os trabalhadores. Tem um forte recorte de classe, um papel histórico, um discurso social. Mas não uma coisa panfletária... Dá para fazer um Romeu e Julieta, falar de amor. Mas, a maneira como você fala de amor mostra sua visão de mundo.

No começo, o rap falava de amor, com Athaliba e a Firma, Thaíde & DJ Hum, aquelas coisas antigas...

É, mas só o fato de você ter um beat, ter aquela postura, é diferente de um cara que é de outra classe social, ou é mora em outro lugar... O hip hop não dissocia a ética da estética: o que eu digo não é descompromissado do que eu sou e do que eu vivo. Não é assim: sou uma coisa na vida e no teatro faço outra.

Mas vestir as máscaras não é uma das coisas mais legais que tem de ser ator?

Ah, a gente veste a máscara! O lance é: você sabe porquê. Não é que se você faz uma coisa na vida não pode fazer outra no teatro. Por exemplo: apesar de eu procurar ter atitudes éticas na minha vida, já fiz personagens que são crápulas. Mas eu sei muito bem o que estou representando. O lance é saber o que você está fazendo. "Vamos colocar um negócio em cena porque é bonito!"; não. O que isso quer dizer? No teatro, tudo é signo. Nada é em si mesmo, tudo está em relação a. Teve uma hora em que o Cindi esbarrou nisso: "Quem são esses caras?"; "Esse cara é você". É o cara que tem que pegar o trenzão de manhã, trabalha no telemarketing, mas ainda se vira pra fazer teatro. Não é uma utopia. Se você está falando de você, alguém pode até achar que é mentira. Mas é verdade (risos)!

Como tem sido a recepção da galera do hip hop?

Quando eles veem o Cindi, eles chapam: "Nossa, a gente não sabia que existia um negócio assim, que o hip hop não tinha limite". Não tem mesmo. Você pode misturar hip hop com tudo, fazer de mil jeitos. Pô tem freestyle (estilo livre, tanto de rima quanto de dança). Tem grupos (de break) que são só de freestyle: o cara fica inventando passo! Inventar batida, é sem limite, inventar grafite, rima, tudo, é infinito. É liberdade.

A liberdade de circulação de ideias é uma premissa do movimento. Como a ópera rap faz para promover esse diálogo?

Acho que pelo fato de ter público e os atores se exporem, porem o dedo na ferida e fazerem isso da forma mais honesta possível. A gente põe histórias pontuais na roda. São quatro cinderellas - cada uma tem um sonho. Uma delas é um pedreiro que não conhece o pai. E essa é a história do ator que faz. A gente colocou na roda sem psicodrama. Mas tem uma hora que aparece uma certidão de nascimento que tem "pai desconhecido". É a certidão dele. Chega nesse ponto. Quanto mais você abre e coloca sinceramente as questões para o público, mais rola o diálogo. Mas a gente também faz debates depois, abrimos para escolas virem. A gente quer que chegue no público.

Para que o público chegue até o Cindi Hip Hop, confira abaixo o serviço da peça.

Serviço

O quê: Cindi Hip Hop – Pequena Ópera Rap
Onde: Centro Cultural São Paulo, Sala Adoniran Barbosa - Rua Vergueiro, 1000 – Liberdade

Quando: Terças e quartas-feiras às 19h30, até 28/10/2009

Quanto: R$ 10,00 inteira e R$ 5,00 meia

Capacidade da sala: 200 lugares

Recomendação: 12 anos

tel: 3397-4001 / 4002

Ficha técnica

Direção e Direção Musical: Roberta Estrela D´Alva (indicada ao prêmio FEMSA melhor direção)

Dramaturgia: Claudia Schapira (eleita melhor dramaturgia pelo Prêmio Cooperativa e indicado ao prêmio FEMSA melhor texto)

Elenco: Alan Gonçalves, Daniela Evelise, Dani Nega, Ícaro Rodrigues, Jé Oliveira, Raphael Garcia, Roberta Marcolin (indicado ao prêmio FEMSA e prêmio Cooperativa - categoria especial pelo conjunto do elenco)

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