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Feijoada húngara

Músico húngaro que cantou clássico de Chico Buarque em Budapeste conversa com o !ObaOba

Por: Mariana Morais

Monday, 08 June, 2009 - 16h10

 

Créditos: Divulgação

O húngaro András Domján é músico, capoeirista e adora feijoada. Se você está achando estranha essa mistura e o nome ainda mais estranho, talvez não tenha prestado atenção na trilha sonora de Budapeste (foto), filme baseado no livro homônimo de Chico Buarque, lançado no mês de maio. Aquela versão húngara de "Feijoada Completa" (Chico Buarque, 1978) é dele. O que as pessoas não sabem é que András tinha um pé no Brasil bem antes de temperar em húngaro a feijuca do Chico.

Casado com uma brasileira que foi ensinar capoeira na Hungria, o cara se apaixonou não só pelo esporte, mas também pela cultura brasileira e pela instrutora, é claro. Hoje líder do Grupo Capoeira Brasil e guitarrista e vocalista de duas bandas - uma de música brasileira (Takalaka) e uma de blues (The Turnaround) -, ele já morou no Recife e coleciona ídolos brasileiros que vão de Raul Seixas a Racionais MCs, passando por Djavan e O Rappa.

Em entrevista ao !ObaOba, András Domján contou um pouco de seu trabalho, seu contato com o Brasil, sua relação com a música e como rolou o convite para fazer a trilha sonora de Budapeste. Enquanto você lê a conversa com o cara, escute "Feijoada Completa" em húngaro no site oficial do filme.

!ObaOba: Como pintou a chance de trabalhar na trilha de Budapeste?

András: O assistente da produtora Nándi Kiss já havia trabalhado com a minha esposa e por causa dela ficamos amigos. Quando ele começou a trabalhar no filme Budapeste, nos ligou perguntando se poderíamos ajudar a encontrar um músico húngaro que soubesse cantar samba brasileiro. Como nós tocamos música brasileira também com a nossa banda, minha esposa me indicou. Eu precisava mandar um vídeo tocando e cantando em húngaro e em português. Enviei então o material e eles me escolheram.
Quando a produção veio a Budapeste, nós entramos em estúdio.

!ObaOba: Você já comeu feijoada?

András: Sim, várias vezes. Eu gosto muito de feijoada. Como eu trabalho com a cultura brasileira, muitas vezes oferecemos feijoada nos nossos eventos. Em casa também costumamos comer.

!ObaOba: Na Hungria, come-se feijão, torresmo, feijoada e afins?

András: Sim. Temos muitas comidas tradicionais húngaras que parecem com comidas
típicas brasileiras, como babgulyás que é uma sopa de feijão e carne. Nossos
ingredientes e temperos são um pouco diferentes, mas nós também gostamos de
comida bem temperada, de feijão e carne de porco.
Os brasileiros que experimentam a comida húngara, geralmente gostam muito.

!ObaOba: A situação que existe na letra da música "Feijoada Completa" (de levar os amigos para comer em casa, pedir tudo para a mulher e etc) existe na Hungria?

András: Sim, existe, mas só entre amigos íntimos. Eu tenho que admitir que aqui (na Hungria) as
pessoas gostam mais de preservar a privacidade. Acontece de nos reunirmos na casa de amigos, mas geralmente combinamos antes.

!ObaOba: Como você adaptou o clima da música - que é bem peculiar da cultura
brasileira - para a cultura húngara?


András: O clima da música, na minha opinião, não está tão longe do que vivemos aqui na
Hungria. Por exemplo, a letra me fez lembrar da minha infância, quando meu pai chegava em casa com os amigos e minha mãe cozinhava para todos.

!ObaOba: Qual o seu contato com Chico Buarque?

András: Seria uma grande honra conhecê-lo. Mas eu já conhecia um pouco do trabalho dele porque ele é um grande ídolo da minha esposa.

!ObaOba: O que você acha dele (Chico)?

András: Eu o admiro muito pelo trabalho que ele faz, pelas suas letras e pela sua música e, apesar de nunca tê-lo assistido ao vivo, já vi muitos vídeos dele e adoro seus shows. Ele é um dos maiores representantes da música brasileira.

!ObaOba: Que tipo de cantor você se considera? Se encaixa em algum gênero ou estilo na Hungria?


András: Eu me considero um cantor amador. Eu canto na minha banda de blues que é chamada Turnaround em que toco guitarra também. E toco também na nossa banda brasileira, a Takalaka. Nós tocamos em alguns bares em Budapeste.

!ObaOba: Quando e como foi o seu primeiro contato com o Brasil?

András: Foi pela capoeira, quando eu comecei os treinos no grupo Capoeira Brasil com a instrutora Pimenta, com quem depois eu me casei. Durante nosso namoro, fomos ao Brasil de férias e passei três meses morando em Recife. Eu gostei muito do Brasil; é minha segunda casa, para onde sempre tenho o prazer de voltar.

!ObaOba: Quais são seus músicos brasileiros favoritos?

András: Eu escuto muita música brasileira, sempre tem CDs no meu carro. Sou um grande admirador dos músicos brasileiros em geral. Mas meus preferidos são O Rappa, os cantores Chico Science, Raul Seixas (tive a sorte de tocar com um dos seus ex-guitarristas, Tony Osanah), Chico Buarque, Seu Jorge, Djavan e todos os grandes ídolos da Bossa Nova; além da música e cultura tradicional: forró, frevo, samba, maracatu, afoxé etc. Gosto muito também do hip hop brasileiro, como Racionais Mcs.

!ObaOba: O que você conhece de cultura brasileira?

András: Apesar de não morar no Brasil, eu vivo dentro da cultura brasileira sendo capoeirista, vivendo com uma brasileira e dirigindo com ela um centro de cultura brasileira aqui em Budapeste. Eu estou muito bem ambientado com a culinária, a música e os costumes, mas principalmente do nordeste. Sei que tem muita coisa ainda que não conheço, principalmente no Sul.

!ObaOba: Como você começou na capoeira?

András: Durante toda minha vida eu fiz esporte. Aos 18 anos, eu parei e passei a procurar um novo esporte para praticar. Foi quando conheci a capoeira. Pimenta tinha acabado de chegar em Budapeste para ensinar a capoeira no Grupo Capoeira Brasil. Comecei a fazer aulas com ela em 2001. Um ano depois começamos a namorar, depois comecei a trabalhar com o grupo e passados quatro anos, nos casamos.

!ObaOba: Como você começou na música?

András: Meu pai tocava violão nas festas familiares e por causa disso eu sempre quis aprender a tocar. Aos 12 anos, comecei. Depois disso, fiz parte de várias bandas amadoras até começar a tocar blues no Turnaround, em que tive oportunidade de tocar (e cantar) com Jeanne Carroll, uma americana do
Mississipi de 76 anos de idade que já trabalhou com BB King e Muddy Waters. Desde então, tenho sempre tentado me aperfeiçoar. Eu adoro o blues e espero tocar de novo com Mama Jeannie.

!ObaOba: Como é o mercado musical na Hungria?

András: O mercado é bem menor. Apesar de existirem músicos maravilhosos conhecidos
internacionalmente, principalmente da música clássica e tradiconal. A música popular húngara, na minha opinião, ainda tem muito a aprender. Mas já surgem bons jovens músicos que estão fazendo um trabalho legal.

!ObaOba: Quais são seus artistas húngaros favoritos?

András: Entre húngaros, gosto de bandas da geração do meu pai, como Fonográf, Illés, Edda e outros.

!ObaOba: Quais são os principais temas na música húngara?

András: As músicas húngaras falam sobre paixões, amores e sofrimentos cotidianos. Da
época do comunismo e sobre política - apesar da censura. A língua húngara é muito rica, por isso rende
poemas belíssimos. Infelizmente, os músicos de hoje em dia não estão sabendo aproveitar isso tanto como os antigos.

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