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Há 40 anos, Woodstock mostrava a cara do hippie
Festival marcou a geração dos anos 60, mas deixou poucos ecos nas subsequentes
Friday, 14 August, 2009 - 19h50
Créditos: Reprodução
Domingo, 17 de agosto de 1969. O sol já baixava sobre a fazenda de Max Yasgur em Bethel, Nova York, quando Jimi Hendrix subiu ao palco, encarregado de encerrar o Woodstock, maior festival de rock da história. Pouco antes do fim do show, durante a faixa "Purple Haze" - que faz alusão ao consumo de LSD -, o guitarrista fez sinal para que a banda parasse de tocar e o deixasse a sós com sua guitarra e seu público. Em poucas notas, fez cair o queixo do mundo. Ligou a distorção no limite do suportável e dedilhou os primeiros acordes do hino nacional norte-americano, rasgado por berros de guitarra, tão distorcidos que lembravam o som de bombas, metralhadoras, gritos; guerra. Hendrix manchou a bandeira dos Estados Unidos de sangue sem dizer uma palavra.
Clique aqui e veja Jimi Hendrix tocando o hino nacional americano em Woodstock.
Foi um desfecho à altura do festival. Durante três dias, a juventude norte-americana rompeu as amarras do reacionarismo no país e ostentou sua música, sua cultura e sua face, literalmente, nua. Naquele mês de agosto de 1969, a geração hippie mostrou a que veio. As bombas que Hendrix soltou de sua guitarra trouxeram para o campo colorido de LSD, maconha, batas e cabelos, a outra parte da juventude. Uma parte da juventude que, alheia à política ou por culpa dela, enfrentava a selva do Vietnã, em nome de um projeto político do qual eram o jovens as maiores vítimas. Woodstock, à beira do colapso nervoso de uma América prepotente e belicista, apontou o flower power como saída viável.
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Mas, o projeto inicial dos investidores John P. Roberts e Joel Rosenman estava longe de ser salvar a América do suicídio na Guerra. Quando eles anunciaram no New York Times e no Wall Street Journal que tinham "capital ilimitado" para "oportunidades de investimento legítimas e interessantes", encantaram-se pela ideia de Michael Lang e Artie Kornfield de criar um estúdio de gravação. A ideia evoluiu para um festival de música, que evoluiu para um mega-festival cultural para 70 mil pessoas, que virou um ultra-festival, a que compareceram mais de 400 mil pessoas. Virou Woodstock.
Neste sábado, completam-se 40 anos que o movimento hippie mostrou a força da flor no coração dos Estados Unidos. E, se hoje há ecos daquela filosofia ao mesmo tempo pacifista e transgressora - a moda está cheia! -, a essência do hippie soa datada. Se aquela turma esperava voltar à vida em comunidades, a noção do jovem de hoje de comunidade passa pelas redes da internet; do amor livre, sobraram as ficadas sem amor; o rock anti-establishment abriu alas para uma música que flerta com a auto-ajuda; e a própria palavra hippie remete mais ao subemprego do que à vida alternativa.
Exemplo disso foi a reedição de Woodstock que, em 1999, manchou a cidade de Rome, Nova York. Embora a contestação política tenha dado seus respiros no palco - o Rage Against The Machine queimou uma bandeira americana durante o show -, a violência anárquica tomou conta da plateia. Conta a polícia local que o saldo do Woodstock dos anos 90 foi de quatro estupros, sete prisões, uma dúzia de trailers, um ônibus e dezenas de banheiros químicos incendiados. Não houve nem sombra do pacifismo de 1969. Como diria John Lennon, depois parafraseado por Gilberto Gil, o sonho acabou. Pelo menos, uma geração pode se orgulhar de dizer que, há 40 anos, sonhou.
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