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Kind of Blue, obra-prima de Miles Davis, faz 50 anos

Álbum de 1959 criou um novo patamar musical e recolocou o jazz no eixo da música popular

Por: Gabriel Rocha Gaspar

Monday, 17 August, 2009 - 10h30

 

Créditos: Reprodução

"É como a Bíblia - você simplesmente tem uma cópia em casa". Foi assim que o rapper Q-Tip sintetizou Kind of Blue, de Miles Davis, em uma entrevista em 2008. Antes dele, a crítica foi prolixa, tentando por em palavras o som do álbum mais vendido da história do jazz. O editor sênior do Allmusic Stephen Erlewine, por exemplo, disse que "Kind of Blue não é meramente o ápice da arte de Miles Davis; é um álbum que se ergue sobre seus pares, o definitivo álbum de jazz, um padrão de excelência universalmente reconhecido". O escritor Ashley Kahn, que dedicou ao disco um livro inteiro (Kind of Blue, Ed. Barracuda, 2007), disse: "Quatro décadas depois da gravação, Kind of Blue é o melhor disco de sua era, de jazz ou de qualquer estilo".

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O fato é que, há exatos 50 anos, Kind of Blue foi uma revolução (quase) silenciosa na música. Se até Charlie Parker teve um tempo de maturação para estabelecer o padrão de seu bebop, Miles Davis inventou o novo jazz numa tacada só. Ok, isso foi exagero: desde que teve contato com o conceito musical do pianista George Russell - que defendia a improvisação sobre a tonalidade da música e livrava os instrumentistas da preocupação com rápidas e complexas mudanças de acordes -, Davis começou a experimentar a nova forma que ganhou, no jargão jazzístico, o nome de modal. Ele tentou aqui e ali, nos álbuns de 1958, Milestones e 1958 Miles, colocar um pouco daquela simplificação do jazz.

Mas em Kind of Blue, foi além, como conta Bill Evans nas notas de contracapa do LP original, lançado a 17 de agosto de 1959: "Como um pintor que precisa da tela, um grupo de improvisação musical precisa das partituras. Miles Davis nos trouxe esboços que eram esquisitos em sua simplicidade, mas que continham tudo que é necessário para estimular a performance dos músicos. E Miles fez isso apenas algumas horas antes das sessões de gravação". Quer dizer, aqueles sete músicos do mais grosso calibre de sua época - Cannonball Aderley (sax alto), John Coltrane (sax tenor), Wynton Kelly (piano), Bill Evans (piano), Paul Chambers (baixo) e Jimmy Cobb (bateria) - se viram no estúdio, prontos para gravar com o temperamental e perfeccionista Miles Davis sem a mínima referência a que estavam acostumados. Uma situação de gelar os ossos.

Clique aqui e veja o sexteto de Miles Davis tocando "So What", faixa que abre Kind of Blue

Mas o band leader deu sua colher de chá: já que eles teriam de tocar praticamente às cegas, livres das partituras e improvisando sobre uma fórmula atípica, eles tocariam o mais básico dos ritmos negros americanos; o blues. Foi assim que Miles Davis conseguiu extrair o máximo da noção melódica daqueles músicos; trouxe à tona seus medos, angústias, alegrias, traumas. Escancarou aquelas sete almas em dois dias de estúdio. E mais: criou um novo caminho para o jazz que, no fim dos anos 50, patinava sobre formas cada vez mais complexas e se encerrava nos ouvidos treinados dos músicos. Recolocou no eixo popular um gênero musical que havia ficado técnico e barroco demais para o público normal. Criou uma porta de entrada para um novo jazz. Por isso, quase 50 anos depois, um sábio crítico musical pode dizer: "Se você não gosta de Kind of Blue, não gosta de jazz".

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