Brasil
/
Magazine
Kobra quer transformar SP em galeria a céu aberto
Artista plástico já expôs até no Louvre mas não abandona a arte de rua
Monday, 18 January, 2010 - 11h36
Créditos: Divulgação
Houve um tempo em que a arte de Eduardo Kobra era caso de polícia. Ele, como todos os jovens da periferia de São Paulo que se aventuravam no grafite em meados dos anos 80, andava na encolha, com as latas de tinta escondidas na mochila e o rosto sob o boné. Mochila e boné não saíram do repertório deste paulistano de 34 anos, mas a ideia dele agora não é esconder nada. Muito pelo contrário: Kobra quer expandir o trabalho pelos quatro cantos do mundo e já começou muito bem. Acaba de voltar de Paris onde expôs no lendário Louvre, museu que abriga, entre outros patrimônios da humanidade, a Monalisa de Leonardo da Vinci. Na bagagem, trouxe elogios e alguns contatos. Coisa pouca, em Nova York, Paris, Inglaterra, Itália...
Por aqui, o artista plástico tem se dedicado às pinturas 3D no chão. Como eu e você, ele recebeu por e-mail fotografias de obras do inglês Julian Beever que abusou do giz de cera para criar ilusões tridimensionais pelo pavimento de Londres. Mas, com a curiosidade artística que lhe é peculiar, foi atrás de dissecar a técnica, que descobriu chamar anamorfismo. O primeiro teste em larga escala foi um carro na Praça do Patriarca, que já foi parar na tela do Jornal Nacional. Dias depois, Kobra pintava de novo da tela da Globo, dentro do estúdio do Fantástico. O programa filmou todo o trabalho e, no final, o apresentador Zeca Camargo se despediu do telespectador sentado num sofá 3D estampado no chão.
Assista à reportagem do Fantástico com Eduardo Kobra
Mas, se parece que o cara ficou pop demais para a arte de rua, basta caminhar por São Paulo para ver que não mesmo. Ele mantém o trabalho que o consagrou e, apesar da demanda de museus e mostras, quer levá-lo ainda além e fazer de São Paulo "uma galeria de arte a céu aberto". Afinal, seu trabalho "só tem um significado completo enquanto ele acontece na rua". Abaixo, você confere os melhores momentos da entrevista que Eduardo Kobra concedeu ao ObaOba, por telefone, de Belém do Pará.
Leia também:
>>Metrôs de São Paulo viram galerias de arte pop
>>Grafite: do muro para o museu
>>Grafiteiros do mundo inteiro se reúnem em Salvador
O que você está fazendo em Belém?
Uns três meses atrás, a Joana Pessoa daqui de Belém do Pará foi a São Paulo, viu o mural que eu pintei na 23 de maio e convidou a gente para pintar aqui na Feira Panamazônica do Livro. Então, a gente pintou 16 painéis com imagens da Belém do início do século e ficaram todos expostos aqui na feira, que é a terceira maior feira do livro do Brasil. E aí, a gente decidiu pintar também nos muros de Belém. Porque o que eu tinha feito pra eles foram painéis... Mas aí surgiu a ideia de pintar murais mesmo para comemorar o aniversário da cidade. Na semana retrasada, eles me ligaram e a gente está aqui desde sábado, andando na cidade toda pra conseguir murais aqui e fazer esse trabalho para homenagear Belém. A gente conseguiu seis muros grandes de aproximadamente 5 metros de altura por 30 de comprimento. Aqui em Belém não tem trabalho desse tipo. Tem grafite mesmo, na linguagem do hip hop. A ideia deles é abrir uma nova possibilidade para a arte pública, de rua. Inclusive, a gente vai fazer uma parceria com grafiteiros daqui, pintar algo em conjunto com eles. Na verdade, hoje, eu tô trabalhando basicamente em São Paulo e Rio de Janeiro. Agora, vim pra Belém, acabei de fazer um trabalho em Brasília... Está expandindo para todo o Brasil.

Detalhe do mural na Avenida 23 de maio, São Paulo
Os trabalhos em Brasília e Rio são tridimensionais, né?
Sim. Mas no Rio, nós também pintamos umas imagens do Rio antigo em vários lugares.
Como surgiu a ideia do "Muro das Memórias"?
Foi mais ou menos por acaso. Não totalmente por acaso, mas mais ou menos. Eu persigo muito a arte de rua e eu conheci um artista americano chamado Eric Grohe. Ele faz murais maravilhosos, mas não têm nada a ver com coisas antigas, são murais supermodernos. Mas esse trabalho dele é cheio de perspectiva, luz e sombra, e parece que você pode entrar no muro. Eu tinha uma referência do trabalho desse artista. E eu tenho uma parceria com um arquiteto da USP que acompanhou meu trabalho por mais de dez anos. Numa conversa que estávamos tendo, a gente resolveu pintar uma imagem do porto de Santos em 1920. Era uma imagem dos caras carregando sacas de café... A gente pintou isso na Avenida Sumaré. Esse foi o primeiro dessa leva de trabalhos antigos. Esse muro não tinha a ver com a capital, era uma cena de Santos. Mas ele veio com uma linguagem completamente diferente por causa da influência do Grohe. Depois de mais ou menos um ano, a gente foi pintar um painel na Avenida Paulista em homenagem ao aniversário de São Paulo. A ideia era pintar uma foto da Paulista atual - a gente já tinha até o desenho pronto. Por acaso, visitei uma exposição no Shopping Center 3 de fotos da Avenida Paulista antiga. Aí, eu achei sensacional. Eu nunca tinha tido contato com esse material. Quando eu vi as fotos, achei incrível. A Paulista era cheia de casarões, aqueles bondes... De repente, em menos de 70 anos, derrubaram tudo e encheram de prédios. Daí veio a ideia de pintar um painel que fizesse um contraste, que mostrasse como a Paulista era e no que ela se transformou. Não é nem uma crítica, é só pra mostrar a transformação radical que a cidade sofreu em pouquíssimo tempo. A partir daí, a gente começou a espalhar essas ideias por todos os lugares, mostrando as ruas como elas eram e no que elas se transformaram.
Do muro das memórias para a arte tridimensional foi um caminho natural?
Aí, foi uma outra história. Assim como todo mundo, eu recebi aqueles e-mails daquele Julian Beever, que pinta aqueles buracos, aquela coisa toda. Eu não tinha noção de como era feito aquele trabalho, mas comecei a pesquisar, descobri o nome da técnica - anamorfismo - e nós fizemos vários testes em pequena escala. Na hora que nos sentimos seguros, pintamos um carro 3D lá na Praça do Patriarca. Deu uma p... repercussão, passou no Jornal Nacional, a gente foi convidado para ir no Fantástico pintar um sofá, em que o Zeca Camargo sentou no final. Na sequência, a gente pintou esses três lugares aí - São Paulo, Rio, Brasília -, inclusive com patrocínio do Banco do Brasil. Em nenhum dos meus trabalhos eu tive patrocínio, eu sempre banquei tudo. Para esses três, eu tive o patrocínio do Banco do Brasil. No Rio, mostrando as Olimpíadas, pintamos uma piscina no Calçadão de Copacabana; em Brasília, pintamos os 50 anos de Brasília; e em São Paulo, a gente queria falar sobre a Copa do Mundo e resolveu homenagear o Pelé.

Homenagem 3D a Pelé, na Av. Paulista
A piscina no Burle Marx (Rio) causou certa polêmica...
O Rio de Janeiro não tem tradição em arte de rua: arte pública, muralismo, esse tipo de coisa. Quando nós começamos a fazer esse trabalho - que é inédito no Brasil -, nós chegamos no Calçadão de Copacabana, com todas as autorizações da Prefeitura, tudo certinho. Só que um morador de lá não entendeu e achou que a gente ia danificar a calçada, pintar com uma coisa permanente... Pô, se você for lá na Paulista agora, vai ver que está quase tudo descascado e a gente pintou dez dias atrás. Até explicar pra ele que aquilo saía, que era um trabalho artístico... Ele não entendia, nunca tinha visto nada desse tipo. E levou pro lado pessoal mesmo! Porque a Calçada de Copacabana é como se fosse o quintal da casa dele: ele cuida mesmo, é super legal da parte dele. Só que ele não quis dar ouvidos ao que a gente estava tentando falar pra ele. Aí, ele quis vir pra cima, baixou polícia lá, seis policiais para tentar prender a gente (risos). Só que tínhamos as autorizações, apresentamos tudo direitinho e os policiais não puderam fazer nada. Aí, esse morador ficou louco! Quando ele viu que não podia fazer nada, ele ligou no jornal O Globo e causou a polêmica. Foi uma pessoa que causou a polêmica. O jornalista, também sem muito conhecimento, publicou uma nota lá e no outro dia O Globo corrigiu a nota, dizendo que a tinta saía e tal. Mas foi até normal isso ter acontecido com a gente porque a gente é pioneiro nessa técnica e as pessoas não entendem mesmo. Até porque, você só consegue ver o 3D de um ponto e, principalmente, através de lentes de câmeras. Então, você tem que achar o ponto exato, fotografar da altura certa... De outro jeito, a imagem não se forma muito bem. As pessoas já viram pinturas 3D, mas desses detalhes, elas não sabem - a gente tem que explicar. A gente até tem uma menina só para explicar isso... É bacana, a gente quer continuar fazendo, mas acontece esse tipo de coisa. Normal.
Mas isso é um ônus da arte urbana mesmo, né? Desde o princípio, chamaram grafite de vandalismo...
Vou te falar mais: entre os próprios artistas que pintam na rua, existe discriminação, que é uma coisa absolutamente ridícula. Existe um duelo do que é grafite, o que não é; o que é mural, o que não é; o que é arte, o que não é; o que é pichação... Meu, é mó zona! E, ao invés da galera - que já é discriminada -, se unir e cada um pintar na cidade, que é o que mais interessa, tem gente brigando por causa de rótulo. Eu digo que meu trabalho hoje está mais voltado para o muralismo, mas eu não questiono o trabalho de ninguém que está na rua.
No meio dessa briga, existe a discussão entre a galeria e o muro. Na galeria, a arte deixa de ser "de rua", deixa de ser contestadora?
Eu respeito a opinião das pessoas, cada um critica o que quiser, de acordo com a vivência que teve. Mas quando sou convidado a expor, meu trabalho é a mesma coisa que faço na rua. Muda o suporte, mas o desenho é o mesmo, a técnica é a mesma, a proposta é a mesma. Eu não acho que (a galeria) descaracterize ou mude alguma coisa. É a mesma coisa que você pegar um músico que toca jazz na Praça da República sentado no banquinho e levar para dentro do Credicard Hall. Aí, não é mais jazz? O que muda é o suporte: ele estava na rua e foi para um ambiente fechado, mas continua tocando jazz com seu instrumento, sua ferramenta, tudo a mesma coisa. Eu não acho que seja diferente o que está na rua e o que está dentro do museu.

Por que um artista de rua que vai para a galeria é contestado e um artista de galeria que vai para a rua não?
Na década de 70, gente como (Jean) Michel Basquiat já expunha em galeria e tem gente achando que isso começou agora.
E o Basquiat sempre foi o alternativo do alternativo...
Claro! Eu acho que isso é a atitude do artista. Não é porque o cara tá dentro de uma galeria que ele não pode contestar a própria galeria. E também não é porque o cara tá na rua que ele tá contestando alguma coisa. Muita gente fala que tá contestando alguma coisa e, na verdade, não tá contestando nada. Só satisfaz os próprios interesses pessoais de pintar na rua - o que não é nada mal também. O que eu acho complicado é você defender uma coisa que é frágil, que não se sustenta. O Alex Vallauri fez Bienal em 80 aqui em São Paulo. E fez instalações maravilhosas. Agora mesmo, eu e um artista amigo participamos da Bienal de Arquitetura. Seis artistas foram convidados a fazer intervenções dentro da Bienal e esse meu amigo Ozi levou um grupo de pichadores lá para dentro da Bienal, eles picharam lá... Foi uma forma de ele contestar alguma coisa. Mas eu não conseguiria defender que meu trabalho na rua é uma coisa, dentro da galeria é outra, acho complicado isso.
Há quanto tempo você faz grafite?
Eu comecei com 12 anos na região do Campo Limpo, com pichação, e nunca parei. Hoje, tenho 34 anos. Na época, as pessoas não tinham a mínima noção do que era um desenho no muro, nada. Quando nós começamos, era uma coisa bem precária, a polícia prendia mesmo, fui preso já... Era uma coisa bem complicada. Agora que a população passa a entender o que é arte de rua, passa a respeitar também. Acho que hoje São Paulo é a principal cidade do mundo em arte pública. Arte de rua, arte pública, não só grafite. Grafite é uma parcela, mas tem várias outras manifestações acontecendo na cidade, como é o caso do Eduardo Surur, que fez aquelas garrafas PET gigantes, que colocou os coletes (salva-vidas) nas esculturas. Eu acho que tudo isso é abertura, é coisa nova que está acontecendo.
No começo, você era totalmente ligado ao hip hop?
Totalmente. Eu fazia parte do grupo de break (dancing) Jabaquara Breakers e era o grafiteiro do grupo. Em todos os lugares, todos os eventos, tinha os caras dançando break, outros cantando rap e eu estava lá grafitando o painel no fundo do palco. Até hoje eu gosto dessa cultura de rua.
Mas você ainda é ligado ao hip hop?
Eu gosto. Mas a linguagem do meu trabalho já passou bastante da linguagem do hip hop. Eu fui partindo para outras vertentes. Hoje meu trabalho é isso que você vê, a parada antiga e tal. Mas com certeza, tem uma pitada aí de tudo que eu aprendi na rua.
Hoje, se te perguntam o que você é, você responde "grafiteiro" ou "artista"?
Eu digo que meu trabalho é muralismo. A classificação mais rápida para o meu trabalho é essa.

Painel na Vila Madalena, São Paulo
Os rótulos atrapalham a criação artística ou você simplesmente os ignora e segue com seu trabalho?
Eu acho péssimo, não significa absolutamente nada. A técnica que o cara usa, a ideologia que ele tem... Isso não leva a nada. O que leva a alguma coisa é o resultado que o cara tem na rua. É passar e ver o trabalho lá. Evidentemente, é uma democracia, todo mundo questiona tudo. Mas eu acho que melhor do que ficar brigando é pintar a rua. Embora, eu tenha feito vários trabalhos - participei inclusive de uma exposição de brasileiros no Museu do Louvre -, meu trabalho permanece na rua. O importante é manter seu trabalho na cidade, não perder completamente a direção do que você faz. Meu trabalho só tem um significado completo enquanto ele acontece na rua. Isso eu pretendo manter até o fim, inclusive expandindo pra pintar cada vez mais lugares de São Paulo. Estou com o projeto agora de pintar três laterais de prédio. A gente já tem as autorizações e está tentando arrumar um patrocínio ou algum apoio para fazer, mas em breve vai acontecer.
Você não enfrenta problema com a Lei Cidade Limpa (que proíbe outdoors em São Paulo)?
Tudo que eu, particularmente, faço na cidade, eu apresento uma preliminar para a Regina Monteiro, da Emurb (Empresa Municipal de Urbanização) que é a principal responsável pela Lei Cidade Limpa. Tem uma posição lá na Emurb que analisa todos os projetos de arte de rua e depois aprova ou não. Tudo o que nós fazemos passa antes pela aprovação da prefeitura. Eu não faço nada irregular nem ilegal na cidade.
Você trabalha com uma equipe?
Eu tenho uma equipe que já trabalha comigo há bastante tempo. São mais ou menos umas doze pessoas. Todos artistas, ilustradores, designers, todos realmente profissionais. A partir dessa união, a gente consegue ter uma produção maior e com mais qualidade. Cada fica encarregado de determinado ponto do trabalho.
O que você pretende fazer daqui para frente?
Essa questão de trabalhar o Brasil todo, que já está acontecendo. Colocar trabalhos em todas as principais cidades brasileiras é uma vontade que eu tenho. E continuar fazendo cada vez mais murais em São Paulo, uma quantidade grande de trabalhos, para fazer com que São Paulo vire uma galeria de arte a céu aberto mesmo. São Paulo é o lugar que eu mais gosto de pintar, sempre foi assim. E começar a expandir o mercado exterior. A gente está com alguns contatos em Nova York, Paris também, Inglaterra e Itália para fazer murais lá. Tem algumas pessoas que a gente está movimentando pra colocar esse trabalho em prática. Ainda neste ano a gente deve começar a produção desses murais. É que é bem difícil, tem que fazer tudo passo-a-passo. Imagina o que é organizar a pintura de seis muros que acontece consecutivamente numa cidade que não é sua, como aqui em Belém. É difícil. Agora, imagina fora do País como é complexo.
Comentários
links patrocinados
Últimas matérias
Se joga!
Dicas do eletrônicoSkindunskindunskindun...
Blocos de rua em São Paulo 2012Gringos no Brasil
Shows internacionais confirmados em 2012Folia eletrônica
Carnaval no litoral de SPBaguncinha boa!
Acessórios para a bebedeiraAlalaôôôôôô
Blocos de rua do Rio de Janeiro em 2012Muitos shows
Festivais de música que rolam no Brasil em 2012Acampamento digital
Campus Party 2012Agenda


Gostei do seu trabalho Kobra,eu pinto em papel desde 2005,tenho um portfolio de meus trabalhos artisticos,mais nao consigo achar uma galeria de arte ou um lugar para expor meus trabalhos,voce pode me ajudar,com alguma dica obrigado amigo.011 - 32315369 - cel 8377 - 8863
é isso Kobra bola pra frente.sucessos e boa sorte parceiro
Post new comment