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Léo Kret, a vereadora transexual de Salvador
Entrevista com a dançarina
Monday, 23 August, 2010 - 11h50
Léo Kret
Créditos: Divulgação
Léo Kret do Brasil, 26 anos, dançarina e vereadora de Salvador, hoje tem muito a comemorar: está lançando um novo projeto musical e é uma das mais populares candidatas à deputada estadual da Bahia. Mas nem sempre foi assim. Nascida Alecsandro, foi só recentemente, em novembro de 2009, que a transgênero conquistou o direito judicial de mudar o nome civil. Não seria verdade dizer, porém, que junto com o direito ao nome, veio o direito de ser Léo Kret, porque Léo Kret ela já é há vários anos - desde a adolescência quando adotou a alcunha de Kret, por causa da cara de cretina que fazia quando dançava. Na família e na comunidade, onde hoje é adorada, Léo também já passou por maus bocados. Mesmo junto às pessoas mais próximas, o respeito pela sua condição de transexual teve de ser conquistado, como foi, ao longo do tempo. Hoje, Léo diz não guardar mágoas e recebe, com alegria, o carinho de todos.
Antes da carreira política, Léo ficou famosa dançando na banda de pagode Saiddy Bamba. Tendo Carla Perez, Madonna e Beyoncé como inspirações declaradas, a sua figura insólita, extravagante e excentricamente sensual acabou seduzindo o público. Na sua primeira candidatura à vereadora da Câmara soteropolitana, foi tratada como piada pela imprensa e por intelectuais do movimento gay da cidade. E quando foi eleita, como a 4ª vereadora mais votada de Salvador, a imprensa polemizou um pouco sobre o vestuário feminino e o uso do banheiro de mulheres na Câmara. Mas foi sem maiores escândalos que Léo tomou posse de tailleur rosa claro e seguiu seu mandato fazendo shows por todo o estado. Preta, pobre, dançarina de pagode e travesti, Léo é a cara do povo e é a prova de que a política é possível e acessível a todos.
Por telefone, Léo nos concedeu uma entrevista em que fala sobre sua trajetória pessoal, sobre política e projetos futuros:
A senhora descobriu e adotou sua identidade feminina ainda jovem, como foi crescer como transgênero em Salvador?
É, foi com 16 anos, é difícil, né, amiga? Porque sem o apoio da família, a gente não tem o apoio das pessoas da rua, e eu não tinha o apoio da família. Meus pais são do interior, aí... já viu, é aquela burocracia (risos), não quer saber se é viado, se é trans, tem que ser homem, senão esconde em casa, tranca no quarto...
Durante o seu mandato, a senhora apresentou projetos visando crianças e adolescentes. Pensando que hoje os debates sobre as questões raciais e de liberdade religiosa, por exemplo, parecem estar mais avançados do que as questões de sexualidade, o que você pensa de uma educação sexual nas escolas?
Eu dou o maior apoio. Muitas crianças e adolescentes não tem como falar com os pais sobre esses assuntos, até os básicos: DST, menstruação, primeira vez. No caso dos gays, a gente sabe que tem criança que a gente olha e já vê a estrela brilhando, mas elas deixam de se assumir por causa do preconceito.
Como foi seu ingresso na política?
Na verdade, minha irmã, eu caí de paraquedas. E eu nem tinha uma visão boa de política, porque a gente vê na televisão coisa de corrupção, mensalão e acha que é só sujeira. Vendo de dentro, eu sei que tem muita sujeira, mas se a gente quiser, a gente limpa. E eu era muito popular, era a dançarina do povo, daí um dos meus produtores me inscreveu escondido e foi assim minha candidatura: sem um centavo no bolso para campanha.
Quais foram seus principais projetos como vereadora e o que deu para realizar nesses dois anos de mandato?
Eu trabalhei na regulamentação da lei anti-homofobia de Salvador, só tá faltando o decreto do prefeito. Trabalhei também na regulamentação dos mototaxistas na cidade, e o prefeito já se comprometeu a ajudar. Teve também o Orçamento Criança Adolescente (OCA)... você sabia, minha amiga, que por causa da Léo Kret o prefeito pode ganhar o prêmio da UNICEF? [A aprovação do projeto de lei que cria o OCA é condição para que o prefeito receba o título Prefeito Amigo da Criança da Fundação Abrinq e UNICEF].
E qual é sua plataforma de campanha como candidata à deputada estadual?
Defendo o que defendi como vereadora. Minhas bandeiras, no começo, eram quatro: LGBT, jovens, artistas e pessoas carentes. Mas agora eu não posso dizer que minha bandeira é só LGBT ou só outra coisa, porque minha bandeira é o povo, eu sou do povão. Quando eu viajava para fazer show, as pessoas me cobravam que eu só cuidava de Salvador, então eu quero ser deputada estadual para a Bahia toda poder me cobrar. Eu acho que para fazer política, nem precisa entender de política - tem que saber a necessidade do povo.
Que análise você faz do governo Lula?
Lula é do povão, né, minha irmã? Igual a mim, fico só sentida de ele não poder se reeleger. Lula foi e é um presidente que trabalha pelo povo, pela periferia, o Bolsa Família taí, melhorando a vida do povo que precisa. Para mim, Lula foi o melhor presidente até agora.
E do governo Wagner na Bahia?
Como sou baiana, soteropolitana, não posso dizer que foi um governo ruim, digo que foi um governo bom, mas como minha coligação é outra: smack [faz barulho de beijo]. Daqui a pouco, o bicho pega...
Você conquistou seu primeiro mandato aos 24 anos, como você acha que está o espaço para os jovens na política brasileira hoje?
Tá muito aberto, abriu muito depois que Léo foi eleita. Tem vários jovens que estão seguindo o exemplo e entrando na política, inclusive jovens idosos, quer dizer, idosos que são jovens na política e estão chegando aí também.
Qual o papel da internet na sua campanha?
Olha, eu sou muito popular, sou artista, tenho facebook, cinco orkuts, twitter, blog, site, comunidade com 20 mil pessoas. Respondo um por um, faço questão. A internet é um canal direto com o público, diferente da imprensa, porque a imprensa fala o que quer, né? Por exemplo: eu quis dar título de cidadão honorário para Michael Jackson, porque eu queria mostrar o Pelourinho por onde Michael Jackson passou como ele tá hoje, e daí falaram que eu queria aparecer às custas de Michael Jackson. A imprensa nem quer saber do que a gente faz mesmo.
Nas eleições de 2008, as lideranças do movimento LGBT baiano não foram lá muito simpáticas à sua candidatura. Depois de dois anos de mandato e tendo sido a 4ª vereadora mais votada de Salvador, o que mudou?
Não foi nem o movimento LGBT baiano, foi o soteropolitano mesmo, do GGB, que tinha seus próprios candidatos [GGB é o Grupo Gay da Bahia, a mais antiga associação baiana defensora dos direitos humanos dos homossexuais]. O resto do movimento baiano me apoiava sim, porque eu era transexual, do pagode, que é a música do povão mesmo. Agora tudo mudou, eu fui eleita, aí foi um tapa com luva de veludo, né? Com o GGB agora é diferente, me tratam super bem, me ajudam, tirando os diretores, Marcelo Cerqueira e Luiz Mott, que ainda torcem o nariz...
O que achou da aprovação do casamento gay no Senado argentino? Você acredita que o Brasil já está perto de alcançar essa legalização?
Eu adorei! E tá perto! Se Léo Kret for presidente, então, aguarde! Eu aprovo e aproveito e caso com o meu marido que tá aqui na minha frente...
Mas você é casada mesmo? Tá comprometida ou prefere ficar na calaçaria?
Eu prefiro ficar solteira (risos), enquanto não vem meu príncipe num cavalo branco me tirar da solidão... aaai!
É verdade que a senhora pretende fazer uma operação de mudança de sexo em breve?
Tudo pode acontecer. Não queria falar disso agora, mas bote aí: tudo pode acontecer.
Depois da saída pouco amigável do Saiddy Bamba, quais são seus próximos projetos como dançarina?
Se prepare que tá vindo agora minha banda nova, a Kapa Fixa: Kapa, porque é capa, e fixa porque vai fixar na mente e no coração, a mais pura swingueira de povão!!!

adorei sem comentario parabes leo kret nota 100000000000000000
simpatica
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