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Pixies - Um encontro que já deveria ter acontecido
Fã incondicional da banda conta sua impressão do show no SWU
Thursday, 14 October, 2010 - 10h35
Créditos: Cuca Pimentel
Frank Black, jeans, moleton preto com capuz e óculos escuros e os não menos importantes Kim Deal (Breeders), Joey Santiago e David Lovering, um dos quartetos mais fantásticos da história do rock, adentram o palco e, sem palavras, disparam "Bone Machine", um clássico da coesa discografia da banda de apenas quatro álbuns e um mini-LP, lançados entre 1987-1991. O que esses caras gravaram em pouco mais de quatro anos, tem muita banda com 30 anos de carreira que nunca vai chegar perto.
Kurt Cobain - contemporâneo dos Pixies - sabia disso, tanto que declarou à Rolling Stone que a primeira vez que ouviu a banda chapou e quis fazer parte dela, e que tirou dali a dinâmica de ter peso e agressividade + silêncios e partes calmas numa mesma música. "Smells Like Teen Spirit" não o deixa mentir.
Mas os Pixies não vieram a passeio e atacam uma sequência de porradas, curtas e diretas, pra não amenizar o clima: "Isla de Encanta", "Tame" e "Broken Face", afinal tocando no dia das bandas mais pesadas do SWU precisavam marcar território. Ali transparecem algumas de suas vertentes características: o punk, ecos de surf music, uma mistura desenfreada de estilos incluindo até letras em espanhol, as neuroses e trejeitos vocais de Black Francis, a imprevisibilidade.
A platéia, mais amena do que em outros shows do festival, observa extasiada. Os primeiros acordes de "Debaser" são a ficha que faltava para o público reagir de forma apaixonada, pulando, cantando, gritando. E então uma sequência pra não deixar dúvidas de que os Pixies, apesar de poucos, também tem hits: "Wave Of Mutilation", "Here Comes Your Man" e "Monkey Gone To Heaven". Olho para os lados e vejo aplausos e sorrisos que, finalmente, selam o encontro de um ávido público brasileiro que, sem conseguir ir a Curitiba em 2006, passou muitos anos esperando por este momento.
Kim, a baixista - e relações públicas da banda - devolve os sorrisos e agradece em português claro e de boa pronúncia. Ainda arrisca: "Essa é a primeira vez em São Paulo!", arrancando coro dos súditos. Então, anuncia o baterista David Lovering, que além de tocar, empresta seus vocais um tanto tímidos para uma das mais fofas do repertório: "La La Love You". E outra sequência vencedora vem com "No.13 Baby", "Gouge Away", "Velouria" e "Dig For Fire", com o discreto Joey Santiago arremessando riffs precisos. É indiscutível que eles tem pegada ao vivo.
Os Pixies se dissolveram em 92 e ficaram 12 anos separados até anunciarem uma turnê de volta, em 2004. A maioria de seus contemporâneos já havia passado pelo Brasil, de Sonic Youth e Jesus & Mary Chain à turma do grunge, mas os Pixies ainda nos deviam essa. Apesar de não lançarem material novo, continuaram fazendo shows e tocando muito bem. A voz de Frank Black ainda surpreende, e a banda toca sem enrolação, uma atrás da outra, algumas músicas bem curtas como nos CDs. Isso só fortalece a apresentação e permite um repertório longo em um show de pouco mais de uma hora.
"Vamos", com seu refrão latino "...vamos a jugar por la playa..." e uma longa levada instrumental ao fim, encerra um show antológico com base em um repertório muito bem escolhido - ao todo seriam 21 músicas, 11 das quais do álbum "Doolittle", o melhor do grupo, na minha opinião - deixando de fora uma ou outra pérola, principalmente do álbum "Bossanova" (que em agosto completou 20 anos).
As luzes da platéia se acendem, os quatro vêm até a boca do palco e andam de um lado a outro, olhando o público que aplaude de braços erguidos. Frank Black, com ar de "é isso aí, a gente merece mesmo" é o mais cínico, e faz teatro sobre um possível bis. A massa grita, eles sucumbem.
"Planet Of Sound", a inigualável "Where Is My Mind" e "Gigantic", com vocais de Kim Deal, que arruma espaço no meio da música pra contar "que gostaria de dizer boa noite a todos!" Ela brinca dizendo que vai pra cama imediatamente após o show, e pergunta aos companheiros se farão o mesmo. Frank enfaticamente acena um não com a cabeça. Faz sentido, afinal inundados com tamanha energia vinda da platéia certamente eles iriam precisar de algumas horas pra digerir tamanha adoração.
Pixies fizeram o show mais gostoso do festival. O clima foi saudosista, longe de ser piegas, e a banda mostrou que tem ainda muita lenha pra queimar e, quem sabe, até aparecer com material inédito. No caso de Pixies, sempre vale a pena esperar.

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