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Recordista de discotecagem desce o pau na cena
DJ Paulinho Pedroso, que aguentou 139 horas e 15 minutos atrás das pick-ups, diz que alguns tops não são tão tops assim
Monday, 03 August, 2009 - 09h23
Créditos: Eduardo Bussolin
No último dia 16 de julho, Paulinho Pedroso quebrou o recorde mundial de maior tempo de discotecagem num clube, com 139 horas e 15 minutos. O número é impactante, mas representa uma pequena fração da extensa carreira deste gremista de 40 anos, que trabalha atrás das pick ups há duas décadas. E jura que nunca baixou uma música de graça na internet, ao contrário de muito "djzinho por aí".
Atual residente da Kimik, em Porto Alegre, Paulinho conversou com o !ObaOba e contou um pouco de sua história, sua carreira e deste último feito, a Longest Club DJ Marathon, que lhe rendeu um lugar no Guinness.
!ObaOba: Como foi a experiência de quebrar o recorde e entrar no Guinness?
PP: Olha, as primeiras 10 horas foram horríveis. Mas aí eu comecei a pensar que tinha feito um barulho tão grande, tinha tomado uma proporção tão grande que... Segui em frente, né? Foi legal no fim, conheci um monte de pessoas que eu não tinha muito contato, elas foram solidárias, ficaram dando força e tal. Foi dolorido, passaram alguns dias que eu não aguentava mais de dor nas pernas, nos pés e tal. Mas aí a vontade de conseguir superou tudo.
!ObaOba: Chegou a pensar em desistir?
PP: Nas primeiras 10 horas eu pipoquei um pouco (risos). Mas depois, me acostumei.
!ObaOba: E se alguém te superar, pensa em tentar de novo?
PP: Não. O DJ anterior fez 120 horas, se não me engano, né? Eles (a equipe do Guinness) até falaram para mim que eu fiz um recorde que eles acreditam, pela experiência deles, ser muito difícil de bater. Só para se ter uma ideia, o último recordista saiu de ambulância da danceteria. E eu saí caminhando (risos)! As 139 horas eles consideram um pouco difícil de ser batidas. E tomara que não batam, né? Que eu fique lá por muito tempo!
!ObaOba: Depois, você descansou o final de semana inteiro?
PP: Olha, não consegui, cara. Eu não consegui ficar na cama. Dormi 12 horas e saí na boa, depois voltei e dormi mais. Mas assim seguido eu não consegui ficar muito na cama não. Não sou de cama, cara. Não consigo ficar parado. Foi uma das coisas que me ajudaram a superar o recorde. Tem todo um processo para mandar para o Guinness. Até eles postarem no site, tem um tempo de uns dois ou três meses, que eu tenho que juntar todas as provas, entrevistas que eu já dei em televisão, coisas que estão saindo, as testemunhas e mais as músicas (eu tive que anotar todas), todo o pacote que eles fazem o requerimento.
!ObaOba: Nestes 20 anos de carreira, o que mais você já fez como DJ?
PP: Eu tenho dois passaportes completos de viagens. Fui DJ da primeira agência de DJs do planeta, a Razormaid! Productions. Todo mês, no máximo um mês sim e um mês não, eu viajava para o exterior. Conheci mais de 18 países tocando. Passava quatro ou cinco dias tocando com eles por aí. Com certeza, eu fui o primeiro DJ brasileiro a tocar fora porque eu fui patrocinado pela DJ Shopping de São Paulo, quando tinha sede em Novo Hamburgo. Daí os caras comercializavam bastante isso para mim.
!ObaOba: De onde surgiu a vontade de ser DJ?
Paulinho Pedroso: Na realidade, foi uma necessidade. Em 1989, quando eu morava no México, tinha um amigo meu que era DJ e viajava pelo país inteiro tocando, e eu acompanhava. Começaram a pintar outros lugares para tocar e precisavam de mais DJs, porque na época DJ não tinha "às pencas" como agora. E daí eu comecei a tocar, ganhar um dinheirinho e quando voltei para o Brasil, continuei numa danceteria que se chamava New Looking. E a música eu sempre gostei. Ser DJ foi um pouco de gostar e de dinheiro também, porque era um trabalho que já tinha uma remuneração interessante.
!ObaOba: E o que você fazia no México antes?
PP: Eu jogava futebol no México. Aí tive um problema no joelho, operei e, ao invés de voltar, fiquei lá até o clube saldar todas as dívidas que tinha comigo. Porque quando eu voltasse para o Brasil, não ia mais nem ver a cor do dinheiro (risos). Então fiquei lá e esse meu amigo DJ, para não me deixar sozinho, me levava com ele para fazer essas jornadas. E eu tocava com ele, de vez em quando, enquanto ele descansava. Eu fazia de DJ reserva.
!ObaOba: Hoje em dia você trabalha só como DJ?
PP: Hoje, sou empresário. Tenho uma empresa de relacionamento de profissionais de arquitetura e decoração, um programa de televisão do mesmo assunto e faço um livro chamado Elite Design. Sou publicitário e fui para esse ramo porque era uma área presente e em expansão.
!ObaOba: A profissão na vida noturna é difícil? É complicado conciliar a vida pessoal?
PP: É difícil. Namorada quer sempre te acompanhar e tal. Minha vida na cena eletrônica na realidade ficou um pouco enfraquecida, porque dei um tempo no trabalho de DJ. Eu estava estudando, veio uma filha e dei um tempo, tocava só em festas específicas. Por isso até que hoje eu não tenho uma projeção maior no mercado, porque eu saí numa hora errada. Foi bem a época em que a música eletrônica estava tomando conta, sabe? E aí eu voltei a convite de amigos mais velhos e do Double S. "Bah, Paulinho, tu toca legal, volta, vamos fazer o projeto E-Session lá na Kimik", e aí eu voltei e ainda fiz esse negócio do Guinness. Começou como na outra vez, como uma brincadeira. E eu fui levando adiante.
!ObaOba: E em todo este tempo, o que te marcou?
PP: Lancei em 1990 um álbum de músicas escolhidas por mim. Saí na capa e tudo, era o New Looking Dancing Hall, que foi a compilação da... (Pausa) Hoje é Building Records o nome, mas antigamente era outra empresa. Fiz um monte de coisa assim. O mais marcante foi quando eu toquei numa danceteria no Canadá que se chamava Electric Circus e aparecia no canal Multishow, da Globo a cabo. Teve um programa em que eu estava tocando lá. Foi uma das coisas mais marcantes para mim, porque muita gente daqui viu e eu nem era muito de espalhar que eu viajava para fora, para tocar, porque não tinha essa repercussão que tem hoje, entendeu? Antigamente nem foto digital tinha, então para registrar era complicado, tinha que levar máquina fotográfica, pedir para alguém tirar, depois revelar e era uma mão de obra tão grande que a gente nem dava bola para essas coisas. Hoje em dia, tu vai viajar para o exterior e tu procura (sic) no Google e te acha.
!ObaOba: Você acha que hoje em dia é mais fácil ser DJ?
PP: Não. Para um DJ de verdade é mais difícil, principalmente no Brasil. Porque o cara troca o DJ de "200 pilas" por um DJ que cobra menos. Hoje em dia, tu tem que fazer muito marketing, se envolver só nisso. Eu, por exemplo, tenho que cuidar dos meus negócios; não tenho como mergulhar 100% nisso, entendeu? E tem muito DJ que baixa "musiquinha" na Internet aí, cobra "100 pilas" de cachê e toca aí. Absurdo... Todo mundo quer dar de DJ agora (risos). Esses dias eu olhei num site e quase desmaiei: a Gloria Menezes atacando de DJ (risos)! Baixa cinco ou seis musiquinhas no Emule e já está pronto o seu setzinho. Chega lá, abaixa a cabeça, toca seu set e pronto, virou DJ! Então, para mim, a coisa ficou bagaceira demais agora.
!ObaOba: Quem ainda faz um trabalho bem feito?
PP: Eu respeito muito o Carl Cox, respeito muito os DJs que eu conheço pessoalmente, cara. Muitos nem são conhecidos do público. O pessoal que trabalha com cinema, em Hollywood, fazendo produções para filmes e que, graças a Deus, tive a oportunidade de conhecer no passado, uns caras que já têm 40, 50 anos, o pessoal do New Order, quem produzia a Madonna... esses caras todos, entendeu? No Brasil tem poucos, sabe? Tem muitos caras que o pessoal diz que são os melhores do Brasil. Gente da antiga sabe que não é bem assim: é muito marketing. Eu acho que o marketing tomou conta, sabe? Eu acredito no marketing. Tanto que fiz publicidade, né? Mas tem muita coisa que os caras... (Pausa) Bah, se a pessoa prestar atenção e escutar realmente, botar o marketing de lado, muitos DJs que são considerados "tops" aí não entram nem num Top 10. Tem muita mentira aí no meio.
!ObaOba: O que você recomenda para quem quer ser um DJ de verdade?
PP: O cara tem que investir e investir. Eu, por exemplo, nunca baixei música. Posso dizer e comprovo, nunca peguei música de graça na Internet. Só para ter uma ideia, eu uso um site que eu pago por todas as músicas que baixo, um valor por cada uma. Tem absurdos, de eu estar tocando para quebrar o recorde e DJs de renome em Porto Alegre chegarem para mim e perguntarem o nome da música, porque eles queriam depois baixar na Internet. DJs de renome! Estou te falando DJs de renome, que tocam todos os dias com cachê alto em Porto Alegre e são dados como tops. Eu paguei as músicas, toquei e eles gostaram. Lógico, algumas vezes eu dizia o nome certo, mas depois eu não conseguia nem dizer, porque eu já estava para lá de Bagdá... Nem vou citar nomes. Deixa para lá (risos)... Mas essa história é bom contar, para o pessoal se ligar mais, não prostituir tanto o ramo. Porque a nossa careira está tão... Teve uma alta e agora está decaindo de novo, por causa desses "DJzinhos". A menina coloca um silicone, uma calça apertada, vai lá pra frente do palco fazer macaquice e vira DJ. Mas tudo bem, eu não vivo disso graças a Deus. Se vivesse disso, estava em apuros. Porque a concorrência é muito grande e desleal. A gente investe e aí tem que concorrer com quem baixa musiquinha da Internet.
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