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Sexo: as histórias mais picantes do Brasil

Compilado reúne os melhores "Quadrinhos Sacanas"

A pornografia e o erotismo sempre tiveram espaço garantido nos quadrinhos. Desde que as tiras de Mutt & Jeff começaram a ser publicadas, em 1907 – e elas foram as primeiras tiras de jornal como a conhecemos –, já existiam histórias de outros personagens em posições sacanas ou falando sobre temas maliciosos.

Artistas italianos como Milo Manara e Guido Crepax fizeram fama trabalhando com esse segmento do erostimo. Enquanto isso, no final dos anos 1960, a contracultura falava abertamente do tema, usando as neuroses e as vontades animalescas das personagens de Robert Crumb.

Mas vamos do começo, quando as Tijuana Bibles (Bíblias de Tijuana, em tradução literal) circulavam de mão em mão entre os jovens cheios de vontade de 1920 a 1960. As bíblias mostravam personagens famosos da época como Popeye, Betty Boop e Mae West em atos escandalosos.O fato é que os desenhos dos quadrinhos poderiam mostrar histórias e personagens em posições que nenhum outro meio seria capaz de, sequer, mencionar.

E se nos Estados Unidos as Tijuana Bibles eram tema de discussão, sendo vendidas ilegalmente, no Brasil ficaram famosas as histórias e ilustrações de Carlos Zéfiro, que entre 1950 e 1970, desenhou quadrinhos eróticos, chamados de “catecismos”. Os desenhos de Zéfiro, pseudônimo do funcionário público Alcides Aguiar Caminha, chegaram a ter status cult e até ilustraram a capa do álbum Barulinho Bom , da Marisa Monte, lançado em 1997.

Inspirado na obra de Carlos Zéfiro, o editor Toninho Mendes reúne 12 clássicas histórias pornográficas em quatro livros com temas distintos. O box, intitulado "Quadrinhos Sacanas", conta com a colaboração de diversos outros autores anônimos - assim como Zéfiro - que marcaram a adolescência de hoje "senhores" e, por que não, "senhoras". Em conversa com o ObaOba, Mendes fala sobre os "catecismos" e sobre o projeto "Quadrinhos Sacanas"

Qual sua trajetória a frente de quadrinhos?
Eu sou uma pessoa que tem uma formação muito forte com a imprensa alternativa, com a imprensa independente. Trabalhei na Istoé, quando a revista estava nascendo, trabalhei no jornal da República, fundei a Circo Editorial, responsável por Chiclete com Banana, Piratas do Tietê, Geraldão do Glauco. E continuo editando esse material ligado ao humor, aos quadrinhos e a história da imprensa.

Nesse compilado de "catecismos", tem algum trabalho seu?
Não, não. Eu não sou desenhista. Eu sou essensiamente editor. São todos autores anônimos. Eu só fiz a organização das histórias e o projeto gráfico.

Você pode me citar nomes de grandes quadrinistas de sexo no Brasil e no mundo?
No Brasil, hoje não existe um mercado de quadrinhos eróticos, existe pouca coisa. Existia na década de 1970, 1980. Mas nomes estrangeiros, que produziram trabalhos clássicos, eu posso citar o Guido Crepax e Milo Manara.

O que se enquadra em um quadrinho de sexo? O Geraldão do Glauco pode ser considerado um?
Não. Nenhuma dessas pessoas fizeram quadrinhos eróticos ou pornográficos. O trabalho de nenhuma dessas pessoas tem alguma relação com quadrinhos eróticos.

Essas catecismos hoje são vistos como um material excitante ou algo mais curioso?
Levando em conta que esses quadrinhos são da década de 1950, 1960 e 1970 hoje eles são considerados documentos históricos, grandes curiosidades. Porque depois da abertura política, do fim da censura, o acesso a sites de pornografia, vídeos, filmes, revistas recheadas de fotos ficou muito mais fácil.

E o que te motivou a criar ese compilado de catecismos?
Eu acho que esse material tem uma importância cultural muito forte, pois ele marcou toda uma geração que hoje tem 40, 50, 60 anos. E também porque eu acho que os catecismos sempre estiveram a margem do mercado, por ter um pouco de mau gosto mesmo, por ter muito humor e por não ser um material muito sofisticado. Eu acho que esses catecismos têm uma importância histórica muito grande, eles representam um período da história do Brasil, da história da imprensa.

Você acha que ainda existe espaço para esse tipo de publicação no Brasil?
Eu acho que não há mais espaço hoje. Pois existem muitas outras maneiras, outros veículos que transmitem herotismo, sexualidade, sacanagem. Eu não acredito que exista um caminho para criar catecismos novamente.

E o conteúdo pornográfico encontrado na internet hoje, tem a mesma qualidade dos catecismo de antigamente?
Eu acho que são coisas completamente diferentes, não se pode fazer uma comparação. A internet tem sexo ao vivo, vídeos, pessoas que através da webcan se exibem e cobram por isso. São duas linguagens completamente diferentes. O mais importante disso tudo é o caráter documental e a qualidade com que foi editado.

Qual a importancia do Carlos Zéfiro nessa história toda?
O Carlos Zéfiro foi a pessoa que se tornou mais conhecida nesse conjunto. Ele é um ícone, ele é o papa, ele é o rei disso tudo. Tanto que o material dele já foi reeditado várias vezes de alguma forma. Ele é o sinônimo desse mundo do catecismo, da pornografia. O Zéfiro que norteou tudo isso. Tanto que em nenhum dos nossos livros existem histórias do Carlos Zéfiro. Nós optamos por publicar quadrinhos de outros autores anônimos. Até o ZéfIro foi anônimo por muito tempo. Ele só foi revelar sua verdadeira identidade em uma entrevista para a Playboy, na década de 1990.

Você acha que um escritor de história sacanas necessariamente precisa ser um "putanheiro"? Ou ele pode ser um sexólogo, um cara que não entende absolutamente nada de sexo?
Eu acho que isso pode vir de todos os lados. Desde pessoas extremamente moralistas, que se realizam fazendo os desenhos, ou até gente que vive o sexo intensamente e transforma suas experiências em história, romance, quadrinhos, o que for.

E você, Tonhinho? Gosta de putaria, de sacanagem?
Eu acho que o aspecto visual da sexualidade é muito importante. Eu tenho uma ligação muito forte com o desenho, tanto o erótico, de sacanagem, como o desenho em geral.

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