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Sonhos com Guimarães e seu manuelzinho-da-croa

Nossa colunista resgata um livro que mudou sua vida

Por: Marilia Neustein

Monday, 23 January, 2012 - 08h31

Manuelzinho-da-croa

Manuelzinho-da-croa 

Dias desses, zapeando na TV, parei para assistir a uma entrevista da artista plástica Adriana Varejão. Adoro entrevistas, não por menos escolhi esse para ser meu ofício. A curiosidade como mote de vida.

Entre coisas lindas e reflexões herméticas - talvez por isso a arte seja mais fácil sentir do que entender - ela leu um trechinho de O Grande Sertão: Veredas, um dos meus livros preferidos. Li há alguns anos. Minha mãe, que é mineira, me deu de presente com uma dedicatória linda. Escolheu a dedo uma frase pescada daquele livrão: "viver é um descuido prosseguido", ela escreveu. E ainda emendou o recado dizendo que eu levava a vida muito a sério, mas que sabia bem dosar o doce e o salgado dela, da vida. Eu adorei.

Presente igual a esse eu nunca mais ganhei. E tudo que eu falar sobre esse assunto pode soar piegas, eu sei. Porque muito já se falou, estudou e publicou sobre Guimarães Rosa, O Grande Sertão, Diadorim e mães em geral. Mas a verdade é que esse livro mudou a minha vida. Depois da primeira leitura, durante meses, só conseguia pensar naquela história de amor, nas "veredas" que existem nas nossas vidas e nas de quem a gente ama.

Com o tempo, o cotidiano, o trânsito e o dia-a-dia do trabalho, meu Grande Sertão ficou perdido, esquecido na prateleira, jogado em uma memória longe. A gente vai enferrujando as delicadezas, os olhares apurados, desacostumando a viver epifanias... até esse famigerado dia em que vi a Adriana Varejão lendo um trechinho lindo. Voltou tudo. Catei o livro, jogado na prateleira, reli a dedicatória da minha mãe e fui buscar aquele pedacinho. Dos pássaros. Do curso do rio:

"O rio, objeto assim, a gente observou, com uma croa de areia amarela, e uma praia larga: manhãnzando, ali estava recheio em instância de pássaros. O Reinaldo mesmo chamou minha atenção. O comum: essas garças, enfileirantes, de toda brancura; o jaburu; o pato-verde, o pato-preto, topetudo; marrequinhos dançantes; martim-pescador; mergulhão; e até uns urubis, com aquele triste preto que mancha. Mas, o melhor de todos – conforme Reinaldo disse – que é o passarim mais bonito e engraçadinho de rioabaixo e rio-acima: o que se chama manuelzinho-da-croa.

Até aquela ocasião, eu nunca tinha ouvido dizer de se parar apreciando, por prazer de enfeite, a vida mera deles pássaros, em seu começar e descomeçar dos vôos e pousação. Aquilo era para se pegar a espingarda e caçar. Mas o Reinaldo gostava: - É formoso próprio – ele me ensinou".

Sonhei por dias com manuelzinho-da-croa, esse passarinho engraçadinho que deixa todo mundo encantado. Depois, como as coisas não são lineares e Freud tenta explicar o inconsciente, sonhei com o próprio Guimarães. Que ele ia na Mercearia São Pedro e bebíamos uma cerveja, falando de Minas e queijo branco. Busquei vídeos do Lima Duarte recitando o escritor. Fiquei sabendo que o Fernando Meirelles quer fazer um filme do Grande Sertão. Descobri que a mulher do Guimarães ajudou fugitivos a escaparem do Holocausto. Reli Primeiras Estórias. Lembrei do cursinho, minha professora recitando de cor "Sorôco, sua mãe, sua filha". Mandei esse trecho do livro para um monte de amigos. Alguns responderam. Outros não. E tudo bem. As pessoas são como aquela instância de pássaros também. De todos os tipos.

Fiquei agradecida por minha mãe ter presenteado com essa história. Mais ainda por ter encontrado, num sábado à tarde, Adriana Varejão lendo lindamente o mineirinho. Me senti inteira de poder escrever sobre isso sem nenhuma obrigação acadêmica ou literária.

Afinal, é tudo "formoso próprio", como diria o poeta.

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