Brasil
/
Magazine
A vez da arte urbana
TRANSFER faz panorama completo do movimento no Brasil
Monday, 19 July, 2010 - 12h04
Obra de Luciano Scherer, Experiência Extraordinária
Créditos: Divulgação
Nos últimos anos, São Paulo observou a arte urbana sair das ruas e conquistar as paredes dos museus da cidade, com grandes exposições no MASP e na FAAP. Apesar de já serem um grande passo no processo de reconhecimento, essas mostras podem ter deixado a impressão de que a arte urbana se limita ao grafitti, quando na verdade ela é muito mais ampla e complexa.
A exposição TRANSFER, que começa neste domingo 18 de julho e vai até 12 de setembro, no Pavilhão das Culturas Brasileiras deixa isso bem claro, e de uma forma diferente. O curador Lucas Ribeiro (Pexão) explicou que “Não falamos para os artistas produzir o que eles fazem na rua. Aqui temos o registro dessas intervenções”.
São mais de 500 obras que fazem um panorama completo da história da arte urbana no Brasil. Elas foram divididas em quatro eixos. O Beautiful Losers exibe a produção norte americana e é uma das mais significativas mostras de cultura urbana e contemporânea. Criada em 2004, ela foi a primeira mostra mundial a mostra a arte urbana. Pexão explica que o motivo para incluí-los na TRANFER é o reconhecimento de que a cultura urbana brasileira se relaciona muito com a americana, já que foi de lá que vieram os skates, os quadrinhos e a street art. Mas ao chegar aqui essa arte tomou rumos diferentes: “No Brasil, o skatista sempre teve que se adaptar a uma vida urbana diferente, às vezes mais dura. E isso acabou mudando o rumo.”
O curador também contou que quando o artista Barry McGee veio ao Brasil em 1990 para expor no Museu Lazar Segall, ele conheceu OSGEMEOS e houve um momento de mudança. Apaixonado pelas ruas brasileiras, Barry disse aos brasileiros que eles tinham tudo o que precisavam para fazer um trabalho de qualidade aqui. Pode-se dizer que também deve-se aos americanos (e europeus) o reconhecimento da arte urbana brasileira. Sem eles, talvez a sociedade brasileira iria continuar a considerar os grafittis como um monte de pichação.
Já o eixo Intervencionistas é mais ligada ao skate e ao street art, termo usado para lidar com a intervenção urbana. “Muitas pessoas fazem as duas coisas: andam de skate pelas ruas e colocam a arte na cidade. As duas coisas acontecem juntas”, explicou Pexão. É dentro dessa proposta que se encaixam as fotografias da dupla Diafra, formada por Alexandre Vianna e Fabiano Lokinho. Elas exibem skastistas em manobras e até tombos, tiradas com suportes diferentes. “A gente tirou a maioria das fotos com filme, usamos Polaroids, câmeras antigas, filmes vencidos. É uma exposição para trabalhar as diferentes formas da era digital”, explica Alexandre. Enquanto ele tira foto há muito, Fabiano é da era da câmera digital, e quis explorar o que era a fotografia antes, com fotos em preto-e-branco, artísticas e granulada.
Trabalhos dos já celebrados OSGEMEOS, Titi Freak e Nunca e outros artistas também fazem parte desse eixo. Outra obra que tem grande destaque nesse eixo a obra de Pedro Mendes da Rocha, que é uma estrutura multi-funcional, que serve para andar de skate e terá perfomances da equipe brasileira da Element Skateboards e como uma sala de projeções dos vídeos da mostra.
Mauditos apresenta artistas dos anos 80 e 90 que na época não tiveram espaço nas artes plásticas, mas que tinham espaço dentro do encarte Mau, da revista de quadrinhos Animal. O encarte serviu de plataforma para que artistas do Brasil inteiro se conhecessem. Neste eixo é possível ver os shapes e gravuras de Billy Argel, que eram uma febre nos 80, quadrinhos do Speto nunca expostos, o trabalhos em caixa de leite Tetrapak de Lauro Roberto, que era considerado um dos mais mauditos, obras de Lourenço Mutarelli, Fábio Zimbres, Alexandre Curz "Sesper", fanzines da década de 90, fitas K7 demos, flyers e cartazes de shows.
O cearense Weaver Lima que tem uma parede com seus personagens de histórias em quadrinhos, conta que foi o encarte que possibilitou com que ele fizesse amigos de Curitiba, Rio Grande de Sul e São Paulo, que trabalhavam com fanzines como ele “O MAU gerou uma rede”. Em Fortaleza existe pouco espaço para arte urbana. “É foda. Eu faço quadrinhos e até ano passado não existia nem edital de cultura.”, desabafa Weaver. O artista estava feliz com a exposição: “Ela tem uma coisa meio histórica, ela parece uma fanzine.”
O quarto eixo da TRANSFER é o Autoindicados, com obras de artistas que não precisaram de indicações de outros para se destacarem. Segundo Lucas, “ele lida com a integração da arte urbana com a arte contemporânea. São obras pensadas para o circuito de arte.” Esse é o caso da tela Luciana Araújo. Feita com tinta e serigrafia ela foi inspirada no heavy metal e nas memórias pessoais. Ela é uma das poucas mulheres presentes na mostra. “Eu acho muito legal eu estar aqui. É uma conquista. Não é como se rolasse um preconceito dos homens, não rola, mas esse meio de arte urbana ainda é muito masculino”, conta a artista. Sobre a exposição, ela reflete: “a hora é agora. Eu já trabalhei em galeira de arte há 10 anos e antes não fazia sentido, mas hoje é super cabível”.
O Autoindicados também tem instalações site specificir de Bruno 9li, Alex Hornest, Valério Cicqueira, Felipe Yung "Flip", Vitché, Adriano Cinelli "Onio", Alexandre Cruz "Sesper" e João Lelo, uma seleção de fanzines e lvros, pinturas desenhos, esculturas e instalações de Stephan Doitschinoff, OSGEMEOS, Nunca, entre muitos outros.
A TRANSFER já aconteceu, com obras diferentes e em um formato menor em Porto Alegre em 2008. Foi lá que o Secretário Municipal de Cultura, Carlos Augusto Calil, se interessou pelo assunto: “tive a sorte de ir a Porto Alegre e me deparei com essa pista vermelha de skate e eu fiquei impressionado. Essa exposição tem tudo a ver com arte brasileira, que é bem diversificada. E ela complementa a exposição Puras Misturas (em cartaz no piso 1 do Pavilhão)”.
A mostra começou a ser esboçada a partir de uma exposição de Miró pelo Santander Cultural em 2004. Ela era muito frequentada por artistas urbanos, que se identificavam com o trabalho do pintor espanhol. Foi aí que surgiu o diálogo que possibilitou a mostra quatro anos depois.
Serviço:
TRANSFER
Quando: de 18 de julho a 12 de setembro de 2010. De terça a domingo, das 9h às 18h
Onde: Pavilhão Das Culturas Brasileiras: Parque Ibirapuera, Rua Pedro Alvares Cabral, s/nº

Não há comentários. Seja o primeiro!
Post new comment