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Marcelo Alvares é psicólogo formado pela USP e trabalha na área da dependência química. Iniciou sua carreira cuidando de dependentes de crack, cocaína, anfetaminas e principalmente, usuários de múltiplas drogas. Hoje atende pessoas com todos os tipos de dependência química já que o tema tornou-se cada vez mais apaixonante e desafiador.
Já passou pela UNIAD - UNIFESP, GREA - FMUSP e CAPS álcool e drogas de São Mateus. Atualmente, atende numa clínica particular e no seu consultório. Apaixonado por música, baladas, psicanálise, artes e pelo trabalho, se esforça para compreender o fenômeno das drogas na vida e abraçar todas as suas paixões ao mesmo tempo.
Longe da repressão ou da apologia, só quer trocar idéias, escutar, refletir e esclarecer mais sobre as drogas.
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Rastafari
Algumas semanas atrás, eu andava junto a uma amiga pela av. Paulista, em São Paulo, e vimos um garoto com dreadlocks enormes. Ela pergunta:
- Você viu os "rastas" daquele cara?
- Você quer dizer os dreadlocks? Vi sim.
- Ah... É tudo a mesma coisa.
- Não é não!
- É sim!
- Mulheres... Sempre teimosas (risos)...
Nessa hora, levei um carinhoso tapa. Depois, conversamos sobre o rastafari, ganja (denominação para maconha), dreadlocks e reggae. Eu sabia um pouco sobre o rastafarianismo e a importância do uso da ganja dentro dos valores, crenças e conceitos. Ela curte maconha e reggae para se divertir, o que é um uso bem diferente do que o proposto pelo movimento.
Assim como escrevi anteriormente sobre o Santo Daime, achei interessante pegar esse gancho e falar sobre o movimento Rastafari e a ganja. Afinal, ambos envolvem a utilização de substâncias psicoativas num contexto cultural e espiritual.
Movimento Rastafari
O Rastafarianismo nasceu nos anos 30 na Jamaica, com o episódio da Revolta dos Maroons, um quilombo bem-sucedido formado por escravos fugitivos que resistiram por mais de 80 anos ao exército inglês e tornaram-se independentes do governo colonial.
Um dos protagonistas do movimento Rastafari é Marcus Garvey, um jamaicano descendente dos maroons, que se tornou famoso como líder do movimento negro nos EUA e na Jamaica no início do século. Uma das iniciativas mais importantes promovidas por ele foi a libertação da África do domínio colonial europeu.
As raízes do Rastafarianismo partem do pensamento de Marcus Garvey e das palavras de Haile Selassie I. Segundo consta, Garvey teria dito: "Olhem para Leste, para Àfrica, onde um negro será coroado Rei." E assim aconteceu, com Ras Tafari Makonnen se tornando rei e adotando o nome de Haile Selassie I.
Enquanto isso, na Jamaica, os escravos negros assistiam à realização da profecia bíblica e o regresso de Deus (Jah) à Terra como homem vivo. A função de Jah era a de conduzir os negros do mundo inteiro à redenção e à vitória na luta contra a Babilônia, um local imaginário do sistema social, construído com a escravização dos negros.
Resumindo, o Rastafari é um estilo de vida, e não uma religião, apesar de possuir muitas ligações com a fé judaica e cristã. Os Rastafarianos levantam a voz contra a opressão, pobreza e desigualdade e outros problemas globais.
Ganja
Ganja, marijuana ou cannabis é uma erva medicinal milenar usada pelos Rastas para limpeza e purificação em rituais controlados, e não para diversão ou prazer. Alguns Rastas escolhem não consumi-la. O seu uso é justificado pela passagem bíblica Gênesis 1:29: "E disse Deus: Eis que vos tenho dado toda a erva que dê semente, que está sobre a face de toda a terra; e toda a árvore, em que há fruto que dê semente, ser-vos-á para mantimento."
Dreadlocks
A característica mais marcante de um(a) Rasta são os dreadlocks, que não são escovados ou penteados, mas cuidadosamente mantidos e lavados por quem os usa. São o símbolo da união com Jah e do empenho numa vida justa e natural. Jah dizia: "não cortareis o cabelo, arredondando os cantos da vossa cabeça e nem danificareis as extremidades da tua barba".
Reggae
O Reggae não é um estilo musical comum. Ele traz um conjunto de filosofias e pensamentos que fazem mente e alma entrarem em harmonia. É capaz de envolver o espírito com arranjos e melodias que energizam, pulsam e vibram.
Ele seguiu um caminho tortuoso, porém contínuo, sendo fruto de várias vertentes. A história começa quando uma das formas musicais nativas da Jamaica, o Mento, deixa-se contaminar pelo rhythm'n' blues norte-americano nos anos 40. Mais tarde, ele adquire ritmos mais complexos e incorpora metais, dando origem ao Ska. Nos anos 50 e 60, surge a primeira banda popular da Jamaica, os Skatalites.
Em 1962, a Jamaica teve sua independência e uma nova realidade social e política se instalou no país, com o êxodo rural e o crescimento das favelas urbanas. Isso, mais a influência do soul music dos anos 60 e a ascensão do instrumental eletrônico (baixo e guitarra), serviram de elementos para a transformação do Ska em Rock Steady.
No final dos anos 60, uma nova geração de músicos reestruturou o Rock Steady, com a cabeça atenta aos cânticos rastafaris. A pressão social em alta voltagem foi a temática e a repetição rítmica deu o tom. Nasceu, assim, o reggae.
As ligações entre o gênero musical e o movimento (religioso, filosófico e político) Rastafari são grandes. Ambos representam um dos mais notáveis esforços humanos de reconstrução da dignidade, do destino e da cultura de um povo. O Rastafari tem uma história linda e uma importância inigualável na humanidade. Afinal, os oprimidos venceram e vencem os opressores na luta pela liberdade, igualdade e respeito. E atire a primeira pedra quem não é oprimido por algo digno de uma luta.
So, get up, stand up,
Stand up for your rights!
Marcelo Alvares: marceloalvares@terra.com.br
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