 |
Marcelo Alvares é psicólogo formado pela USP e trabalha na área da dependência química. Iniciou sua carreira cuidando de dependentes de crack, cocaína, anfetaminas e principalmente, usuários de múltiplas drogas. Hoje atende pessoas com todos os tipos de dependência química. Mas seu olhar atento volta-se para as club drugs, que tem como ícone o êxtase.
Já passou pela UNIAD - UNIFESP, GREA - FMUSP e atualmente dedica-se ao atendimento de dependentes químicos no CAPS álcool e drogas de São Mateus e no seu consultório particular. Apaixonado por música, baladas, psicanálise, artes e pelo trabalho, se esforça para compreender o fenômeno das drogas na vida e abraçar todas as suas paixões ao mesmo tempo.
Longe da repressão ou da apologia, só quer trocar idéias, escutar, refletir e esclarecer mais sobre as drogas.
|
Coffeeshop sem café?
Eu estive na Europa recentemente em uma viagem a trabalho pelo CAPS da São Mateus. Visitei centros de tratamento, projetos de redução de danos e outros lugares relacionados ao tema álcool e drogas na Holanda, Suíça, Itália e França. Posteriormente, contarei mais sobre essa rica e única oportunidade profissional. Nestas andanças européias, eu fui a um coffeeshop em Amsterdã.
Os coffeeshops são estabelecimentos comerciais na Holanda onde a venda e o consumo de maconha e haxixe são permitidos. O intuito era conhecer o local, funcionamento, regras e influência na sociedade. Para isto, eu e meu grupo conversamos com o gerente do coffeeshop Dampkring (www.dampkring.net). Fomos recebidos no escritório e ele foi muito receptivo e simpático ao explicar os detalhes do local. Também se orgulhava bastante pelo fato do coffeeshop ter aparecido no filme "12 Homens e Um Outro Segredo".
O Dampkring é um bar muito bem decorado, com músicas tranqüilas, bebidas e um cardápio com vários tipos de maconha e haxixe. É dividido em três partes: maconha, haxixe e uma pequena parte para baseados prontos e sedas. Na parte dos produtos principais, os tipos de maconha e haxixe aparecem de forma detalhada: nome, preço por grama, cheiro, gosto, efeito, entre outras características.
O Coffeeshop funciona como um estabelecimento comercial comum, ou seja, tem horário de funcionamento (fecha no máximo às 2hs da manhã), paga impostos e é inspecionado anualmente pelo governo. Uma pessoa só pode comprar no máximo cinco gramas (quantidade permita para porte), e a venda para menores de idade é proibida (caso estes apareçam, são informados sobre o uso e suas conseqüências).
O local só pode ter 500 gramas das drogas, e quando ela se esgota, existe a "backdoor", a porta dos fundos, onde o responsável pode sair para buscar mais produtos no estoque. Vale ressaltar que quem vende para o estabelecimento é um traficante, já que as drogas na Holanda não são legalizadas, e sim, toleradas.
Portanto, trata-se de uma atividade legal que depende de uma ilegal. Estranhei. A partir do momento em que existem os coffeeshops, os indivíduos não entram em contato com a rede do tráfico, obtêm acesso a informações e usam drogas num ambiente controlado e seguro.
E como um estabelecimento comercial, as pessoas que passam da conta são impedidas de comprar mais e usar. Um cliente que abusa da maconha ou do haxixe e causa algum transtorno não é um "bom" cliente para o coffeeshop, pois estraga a reputação do lugar. O cliente que abusa também não é bem visto socialmente, já que a cultura do coffeeshop baseia-se no uso social e moderado.
Nos bares brasileiros e pubs europeus, notei pessoas alcoolizadas que incomodavam ou mostravam-se agressivas, porém, nos coffeeshops, as pessoas se mostravam calmas e interagindo harmoniosamente. E o álcool é legal e a maconha é ilegal na Holanda e, de novo, estranhei. E no coffeeshop, não vende café, o que também estranhei.
Mas o que adianta falar dos coffeeshops holandeses sem falar da maconha e do haxixe? Estas são drogas leves? Causam dependência química? Legalizar ou não? Quais as conseqüências do seu uso? Coffeeshops são viáveis no Brasil?
Abordaremos essas questões nas próximas colunas.
Até lá.
Marcelo Alvares
marceloalvares@terra.com.br
|