sábado, 05.07


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Marcelo Alvares é psicólogo formado pela USP e trabalha na área da dependência química. Iniciou sua carreira cuidando de dependentes de crack, cocaína, anfetaminas e principalmente, usuários de múltiplas drogas. Hoje atende pessoas com todos os tipos de dependência química. Mas seu olhar atento volta-se para as club drugs, que tem como ícone o êxtase.

Já passou pela UNIAD - UNIFESP, GREA - FMUSP e atualmente dedica-se ao atendimento de dependentes químicos no CAPS álcool e drogas de São Mateus e no seu consultório particular. Apaixonado por música, baladas, psicanálise, artes e pelo trabalho, se esforça para compreender o fenômeno das drogas na vida e abraçar todas as suas paixões ao mesmo tempo.

Longe da repressão ou da apologia, só quer trocar idéias, escutar, refletir e esclarecer mais sobre as drogas.
Você conhece algum alcoólatra?


Tenho certeza que sim. O alcoolismo é um problema de saúde pública muito grave tanto no Brasil, quanto no mundo. Para exemplificar o tamanho deste problema em nosso País mostrarei alguns números.

Segundo um estudo feito em 2001 pelo Cebrid (Centro Brasileiro de Informações sobre o uso de Drogas Psicotrópicas), envolvendo 107 cidades do Brasil:

- 68,7% da população brasileira já experimentou alguma bebida alcoólica

- 11,2% dessas pessoas foram diagnosticada como alcoólatra - isso corresponde a 5.283.000 brasileiros

- 48,3% dos jovens entre 12 a 17 anos já experimentaram álcool

- 5,2% dos jovens entre 12 a 17 anos são considerados dependentes de álcool

Trabalho principalmente na área da saúde pública, e posso dizer que a maior demanda de atendimentos é destinada a indivíduos dependentes do álcool. Conseqüentemente, tenho um enorme contato com essas pessoas e gostaria de contar sobre o que observo, reflito e aprendo ao atendê-las.

Muitos destes indivíduos, normalmente, começam a beber ainda jovens com amigos, para se divertir em bailes, festas, etc. Muitos relatam que bebem para se soltar, se entrosar, conversar, rir e paquerar. Muitos são pessoas tímidas, caladas e introvertidas. Então, podemos perceber que o álcool ajuda a relaxar e fazer o indivíduo interagir mais facilmente do que quando está sóbrio.

O álcool é uma substância depressora do sistema nervoso central, ou seja, ela diminui a atividade do cérebro.

Quase todos os pacientes relatam que têm outros casos de alcoolismo na família. Muitas vezes, os pais, tios(as) ou irmãos(ãs) bebiam muito. Portanto, a presença do álcool na família e no ambiente social facilita o acesso à criança ou adolescente.

O convívio com o alcoolismo em casa influencia muito na formação de um indivíduo, e aumenta a chance do surgimento de mais um alcoólatra. Sem contar que o uso de álcool no Brasil é muito incentivado pela sociedade e faz parte de nossa cultura.

Os pacientes falam sobre muitas humilhações, tombos, cicatrizes, atropelamentos, brigas de bar, acidentes de carro, dívidas imensas e muitos litros etílicos. Muitos relatam que bebem quantidades assustadoras em apenas um dia!

Como a sociedade também vê o alcoólatra de forma muito preconceituosa e não como um indivíduo doente, geralmente esses pacientes sofrem. Ouvem que não param de beber pois são fracos, vagabundos, etc; e normalmente são mal tratados pela polícia na rua e nos hospitais. O alcoolismo é uma doença crônica e merece tratamento, mas poucos - até na área da saúde - sabem disso, segundo alguns de meus pacientes.

Muitos pacientes que ingeriram regularmente grandes quantidades de álcool durante a vida, quando param de beber, contam que vêem coisas, pensam estarem sendo perseguidos. Alguns relataram que sentiam bichos, animais ou insetos andando pelo corpo e tremiam muito; brincam que acordavam tocando pandeiro e era só tomar uma que o tremor parava.

Grande parte deles tem suas famílias prejudicadas pelo alcoolismo. São muitas brigas, discussões e separações. Ao atender os familiares, percebo que, de fato, o convívio não é nada fácil, e que em muitos casos, o cansaço e a desesperança vencem. Isso complica meu trabalho, já que a participação da família é fundamental para que o tratamento seja bem sucedido. Isso também duplica meus esforços, pois a família também deve ser atendida.

Infelizmente, o indivíduo demora a perceber que está doente e precisa ser cuidado. Quando se dá conta, muitas vezes, já perdeu muita saúde, pessoas, tempo e dinheiro. O alcoolismo é uma doença que demora a instalar-se no corpo. É algo diferente do usuário de crack, por exemplo, que têm prejuízos físicos visíveis e rápidos, como perda de peso - devido ao seu efeito intenso após pouco tempo de uso. Afinal, ninguém olha para um indivíduo alcoólatra e percebe de cara que seu fígado está gorduroso e amarelado.

O alcoolismo atinge mais os homens do que as mulheres, mas o público feminino também sofre muito com a doença. A mulher que bebe não é bem vista e aceita pela sociedade, e muitas vezes se torna mais vulnerável a abusos, como a violência física e sexual.

Eu sugiro dois filmes interessantes, cujos protagonistas são alcoólatras: "Despedida em Las Vegas", dirigido por Mike Figgis e estrelado por Nicolas Cage e Elizabeth Shue, e "Quando Um Homem Ama Uma Mulher", dirigido por Luis Mandoki, e cujos protagonistas são Meg Ryan e Andy Garcia.

Caso interesse, cheque este teste para saber se o álcool é um problema para você:

Para saber mais sobre o assunto, clique aqui.

Fiquem bem!

Marcelo Alvares
E-mail: marceloalvares@terra.com.br



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Total: 5 Comentários
Veja Todos os Comentários

ENVIADO POR: luciana neri (luciananeri@oi.com.br)
Adorei a matéria! eu também sou psicóloga e trabalho na saúde pública,convivo todos os dias com esse problema ,e é exatamente isso que acontece com o alcoolatra.
ENVIADO POR: Ana Lavor (ana-lavor@ig.com.br)
Adorei sua reportagem. E qdo vc diz que o cansaço e a desesperança vencem, é a mais pura verdade. Até a fé eu já perdi por não conseguir ajudar uma pessoa muito querida. Obrigado.
ENVIADO POR: Aline (amaisagaz@hotmail.com)
Muito boa a matéria, é muito triste acreditar que existem pessoas alcoólatras com menos de 15 anos.



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