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Marcelo Alvares é psicólogo formado pela USP e trabalha na área da dependência química. Iniciou sua carreira cuidando de dependentes de crack, cocaína, anfetaminas e principalmente, usuários de múltiplas drogas. Hoje atende pessoas com todos os tipos de dependência química já que o tema tornou-se cada vez mais apaixonante e desafiador.
Já passou pela UNIAD - UNIFESP, GREA - FMUSP e CAPS álcool e drogas de São Mateus. Atualmente, atende numa clínica particular e no seu consultório. Apaixonado por música, baladas, psicanálise, artes e pelo trabalho, se esforça para compreender o fenômeno das drogas na vida e abraçar todas as suas paixões ao mesmo tempo.
Longe da repressão ou da apologia, só quer trocar idéias, escutar, refletir e esclarecer mais sobre as drogas.
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Dai-me informação
O álcool e as drogas são substâncias psicoativas, que acompanham a história da humanidade. Portanto, participam direta ou indiretamente na cultura, religião, espiritualidade, artes e ciências que constituem o ser humano. Isso porque o uso destas substâncias possui diferentes significados e representações, dependendo do contexto, tempo e motivo. Por exemplo, fumar um baseado num show de reggae é diferente do que tomar um LSD em Woodstock no movimento hippie dos anos 70.
Porém, quando pensamos nesse assunto, já lembramos de maconha, cocaína, crack, violência, criminalidade, baladas, prazer, risadas, dependência química, etc. Muitos indivíduos usam essas substâncias para se sentirem puros, entrarem em contato com seus representantes espirituais e/ou expandirem a consciência. A finalidade, então, é ligada à espiritualidade e não à obtenção de prazer.
Atualmente, tenho pensado muito sobre isso. Afinal, esse tipo de consumo é um dos pilares mais antigos e fortes da constituição psíquica e forma de compreensão da vida e existência de um ser humano. Como bom e orgulhoso brasileiro, já me interessei pelo movimento religioso do Santo Daime. Como profissional da saúde, tive mais contato com o lado médico e psicológico. Então, tive que visitar as ciências humanas e trago aqui um bem-bolado de informações e reflexões.
A árvore geneálogica do Santo Daime
O movimento religioso do Santo Daime começou na floresta amazônica no início do século XX, com o neto de escravos Raimundo Irineu Serra. Ele recebeu a revelação de uma doutrina de cunho cristão, a partir da bebida Ayahuasca (vinho das almas).
Segundo o próprio Mestre Irineu, a Doutrina lhe foi passada depois de uma aparição de Nossa Senhora da Conceição. O nome vem da invocação espiritual ao comungar com a bebida durante os rituais: dai-me amor, dai-me luz, dai-me fraternidade, dai-me caridade etc.
Dai-me um gole
A bebida é proveniente do cozimento de duas plantas, o cipó Jagube (banesteriopsis caapi) e a folha Rainha (psicotrya viridis), ambas nativas da floresta amazônica. Segundo os daimistas, esta bebida tem propriedades enteógenas, isto é, produz uma expansão de consciência responsável pela experiência de contato com a divindade interior, presente no próprio homem.
Dai-me legalidade
Na ata da 5ª reunião ordinária, realizada em 2 de Junho de 1992 pelo Conselho Federal de Entorpecentes, a bebida saiu da ilegalidade imposta em 1985 e seu uso "ritualístico" é permitido até que se prove prejuízos sociais decorrentes deste.
Dai-me Santo Daime
O Santo Daime, desde então, tem proporcionado uma rica manifestação cultural, folclórica e espiritual, e difundindo um ensinamento espiritual baseado na tradição cristã, mas também com elementos esotéricos, afros e indígenas. Segundo os discípulos do Mestre Irineu, "(...) a cristianização da ahyausca é o término de um longo processo de resgate cultural e espiritual. A visão do mestre Irineu, o que o diferenciou de outros ahauasqueiros, foi sua fé de que ali dentro daquele cipó estava algo mais do que um alcalóide para fazer nossa cabeça ou mesmo uma simples força ou entidade divina, por melhor que ela fosse. Ele a entendeu como sendo uma versão moderna de um cristo engarrafado. Aquele vinho da alma era o sangue do próprio Cristo. Esse espírito da verdade, libertado da bebida , consagrado pela divina invocação Dai-me! Tinha o poder de ampliar a nossa consciência e também o amor em nosso coração."
Ao citar o uso de enteógenos e as experiências místicas oriundas do chá, o próximo relato traz uma opinião compartilhada entre o místico e o científico: "Desde o Neolítico Superior, nossos ancestrais já ultilizam certas plantas para fins medicinais e como meio de acesso ao reino dos espíritos. O impacto do seu uso na estruturação da psique e da cultura humana é muito maior do que se pode imaginar. Hoje em dia, essas plantas são chamadas enteógenas, que significa 'capaz de suscitar a experiência de Deus em si mesmo. Seus compostos psico-ativos, produzem um estado de expansão de consciência'. Num contexto espiritual apropriado, gera experiências de êxtase místico. Nesses estados de consciência é que os santos, os avatares e os profetas lançaram o alicerce para muitas das grandes religiões de massa dos nossos dias.
A intensidade da experiência mística desperta na consciência a sensação inefável de fazer parte da Totalidade. Esta não é uma abstração, e sim uma verdade que se encontra nas camadas mais profundas do nosso ser. Vista através desse tipo de experiência, a Natureza não é apenas um conjunto de solo, paisagens, flora e fauna e sim uma parte de Gaia, o ser biológico espiritual planetário."
Dai-me um pouco de ciência
O chá do Santo Daime é considerado como alucinógeno. Então, proporciona visões de coisas que podem não existir. Muitos o chamam de psicodélico (Psico=mente e Delos=expansão), pois expande a consciência. De qualquer forma, tanto o chá de ayahuasca como o vinho de jurema possuem uma forte substância alucinógena natural, conhecida como dimetiltriptamina, ou DMT. Os efeitos do vinho de jurema, por exemplo, são citados na obra "Iracema", de José de Alencar.
Não foi constatado até hoje dependência química ou tolerância a essas substâncias psicoativas aqui citadas, mas, infelizmente, sabe-se de casos de doenças psiquiátricas sérias após o uso, além de histórias tristes. O jornalista carioca Jorge Mourão, que perdeu um enteado durante um ritual, deu a seguinte declaração à revista Veja: "Eles não prestam apoio psicológico a quem consome o chá, abandonam seus adeptos nas horas mais difíceis. Por isso, meu enteado suicidou-se pulando numa fogueira. Seu corpo está até hoje no Acre (onde a seita se concentra), não foi enterrado em cemitério e não tem certidão de óbito".
Dai-me reflexões
Respeito e admiro o uso religioso e espiritual destas substâncias a partir do momento em que não são prejudiciais e acrescentam sentidos à sua fé. O momento em que alguém evolui, cresce, aprende e sente o que está ao seu redor, segundo as próprias crenças, é rico e importantíssimo. As experiências místicas de compreensão e êxtase são impressionantes.
O uso experimental e descontextualizado já é diferente e pode gerar péssimas experiências, caso não siga os preceitos da religião daimista. Se as percepções geradas fugirem muito da compreensão do usuário, isso pode ser muito angustiante, já que vive-se algo desconhecido e, portanto, caótico. Por isso, ressalto que o contexto (cultural, histórico e religioso) e constituição psíquica são muito relevantes. Assim como existem histórias extasiantes, também há fatos desagradáveis.
De minha parte, só dou informações. Pronto! Chega de trocadilhos bobos com o "Dai-me"!
Marcelo Alvares
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