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Soninha Francine, vereadora de São Paulo pelo PT, ex VJ da MTV, comentarista da ESPN. Poucas pessoas representam tão bem os jovens como ela. E é por isso que a convidamos para estrear sua coluna no !ObaOba.
Quinzenalmente você vai poder conferir as novidades aqui, na Coluna da Soninha. Espere por muito comportamento, atitude, cidadania e atualidades! |
Deixa a vida me levar?
Minha vida deu voltas incríveis no caminho entre o-que-eu-queria-ser e
o-que-eu-sou (ou faço) hoje. Quando eu era pequena, quis ser: "professora de
pintura de quadro" (era o que eu dizia quando tinha uns 5 ou 6 anos; por
conta disso meu pai se meteu em uma dívida tremenda para comprar a
enciclopédia Gênios da Pintura); atriz (morri de dor-de-cotovelo quando a
Narjara Turetta, que tinha uns 8 anos como eu, passou no teste para fazer a
novela "Papai Coração" na Tupi - nossa, quero ver quem lembra disso);
escritora (no começo, como Monteiro Lobato; mais tarde, como Fernando
Sabino); política (para ajudar a "mudar o mundo"); jogadora de basquete (com
1,67?!) ou técnica ou preparadora física ou qualquer coisa ligada a esporte.
Não vou contar, em detalhes, como cada uma dessas coisas deu errado. Mas
posso lembrar que a gravidez no meio do terceiro colegial atrapalhou os
planos de fazer faculdade de Educação Física - que ficou para "depois", e
"depois" não apareceu até hoje. Já com uma filha, entrei para um grupo de
teatro amador com o qual eu pretendia me profissionalizar - mas uma
depressão depois do nascimento da segunda filha me afastou disso também.
De todo modo, fui mudando de idéia à medida que as condições também se
transformavam e fazendo outras coisas das quais gostei muito: dei aula de
inglês (ainda dou), passei por mil funções diferentes na MTV (fui assistente
de produção, redatora, diretora de programas, coordenadora de produção e
VJ), trabalhei na TV Cultura e nas rádios Globo e CBN e aqui estou -
vereadora eleita em São Paulo (um velho sonho recuperado e realizado!),
comentarista de futebol (não deixa de ser "alguma coisa ligada a esporte"),
colunista da Folha de São Paulo, das revistas Pista e Vida Simples e daqui
do !ObaOba (vale como "escritora?").
Parece até que as coisas andaram um pouco em zigue-zague e voltaram ao ponto
de origem, embora elas não tenham acontecido exatamente como eu planejava.
Mas é muito legal encontrar o equilíbrio entre "deixar a vida me levar"
(adoro essa música do Skank) e "fazer tudo o que eu queria fazer" (salve,
Rita Lee). Não fiquei chorando por não ter sido atleta ou atriz; fui fazendo
o que dava, do jeito que dava - tentando transformar limão em limonada, como
dizia minha avó. Quando entrei na MTV, eu queria fazer cinema e não
trabalhar em televisão - mas já que estava na TV, tinha de me esforçar, me
virar para que o meu emprego fosse o mais legal possível. Eu não ia só
seguir as ordens e viver contrariada, sonhando com o trabalho ideal... E
não era a única: a MTV tinha uma turma bem inconformada, idealista, que
procurava realizar alguns dos seus sonhos dentro da estrutura da empresa
(deve ter gente assim ainda por lá, mas já não estou tão próxima para
saber).
De novo, é importante encontrar o equilíbrio entre "o feijão e o sonho"
(título de livro do Orígenes Lessa, adaptado como novela da Globo em 76).
Não dá pra achar que no seu emprego, seja ele qual for, você vai conseguir
fazer só coisas legais, animadas, desafiadores, altamente satisfatórias. Às
vezes, na MTV, a gente tinha esse problema: todo mundo queria cobrir um
festival; ninguém queria tirar xerox de roteiro... Mas também não dá para
aceitar tudo passivamente, sem brigar um pouco para aumentar os horizontes,
as possibilidades, as perspectivas. Vou dar um exemplo bem concreto: Se
fosse para fazer só o que tinha sido determinado, o Cazé, no programa
Teleguiado, só iria perguntar para as pessoas "que clipe você quer ver?" e
"enrolar" um pouco enquanto o estagiário pegava o clipe na fitoteca,
perguntando coisas corriqueiras (tipo "quantos-anos-você-tem,
onde-você-estuda, o-que-mais-você-faz-da-vida"). Por iniciativa dele, as
conversas começaram a incluir temas como Roberto Jefferson, taxa Selic,
Estatuto do Desarmamento... E essas conversas acabaram sendo a cara do
programa.
Portanto, lembrem-se do seguinte: sonho não é algo que a gente formula
quando está no colegial e realiza quando sai da faculdade - ou, mas
provavelmente, abandona quando não entra na faculdade, não consegue o
emprego que queria ou coisa parecida. Sonho a gente vai perseguindo e
reconstruindo a cada dia, adaptando, modificando e mantendo - até descobrir
outros sonhos e realizações em que nem tinha pensado. Eu não faço exatamente
o que eu queria fazer, mas faço exatamente o que gosto de fazer agora.
Soninha Francine escreve para essa coluna quinzenalmente
Site Oficial: http://www.soninha.com.br
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