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Por: Gabriel Rocha Gaspar

Em 1969, na cidade de Palo Alto, Califórnia - que abriga a prestigiada Universidade de Stanford - o professor de colegial Ron Jones explicava a sua turma a ascensão do nazismo na Alemanha dos anos 30. Horrorizada com imagens do Holocausto, uma aluna perguntou se algo do tipo poderia ocorrer dentro dos Estados Unidos. A resposta foi empírica: ele próprio se converteu em líder de um movimento que batizou de "A Onda". Estabeleceu lemas, palavras de ordem, um cumprimento. Em poucas semanas, criou um exército fascista de mais de 60 alunos. Jones percebeu que a brincadeira fugia do controle quando os jovens passaram a se policiar e reprimir os que não aderiam à Onda.

A história virou livro (The Wave, de Todd Strasser), foi filmada em 1981 (dir. Norman Lear) e novamente em 2008 (dir. Dennis Gansel). Embora seja extrema, ela ilustra o poder que o sentimento de pertencimento exerce sobre grupos heterogêneos. Ilustra como uma turma jovem e esclarecida pode se converter em uma massa de manobra cega. O que faz com que um ambiente onde teoricamente deveria-se gerar conhecimento descambe na barbárie?

Difícil responder. Mas, se o caso da Onda parece distante, tivemos um exemplo alarmante do poder de formação de hordas repressoras, aqui mesmo no Brasil. No dia 22 de outubro de 2009, Geisy Arruda, aluna do primeiro ano de turismo do campus de São Bernardo do Campo da Universidade Bandeirante (Uniban), foi hostilizada por quase 700 alunos por usar um vestido curto. Aos gritos de "puta" e "solta pra gente estuprar", a moça teve de ser retirada da faculdade pela Polícia Militar. Diante da reação da imprensa, o Conselho Universitário decidiu pela expulsão da aluna, o que aumentou a revolta. No dia seguinte, ela foi readmitida unilateralmente pelo reitor.

A imprensa debruçou sobre o caso. O colunista da Folha de S. Paulo Contardo Calligaris chegou a pedir desculpas às "mulheres que militam ou militaram no feminismo". Disse que pensava que o feminismo "tinha chegado ao fim de sua tarefa histórica" e admitiu que estava errado. Gilberto Dimenstein discutiu as faculdades privadas e o acesso das classes C e D ao ensino superior. Mônica Bergamo falou dos 15 minutos de fama de Geisy que, passado um mês do incidente, vai a cabelereiros da moda, programas de TV, cogita cirurgias plásticas e faz aulas de samba para desfilar pela agremiação carioca Porto da Pedra. Ela própria não virou uma versão tupiniquim de Rosa Parks - negra americana que desencadeou o movimento pelos Direitos Civis ao se recusar a ceder seu lugar em um ônibus segregado - na luta pelos direitos da mulher. Mas a Uniban acabou no epicentro de uma discussão importante sobre os rumos da academia e o projeto pedagógico das faculdades-empresa.

>> Acesso à faculdade e papel social
>> Violência e machismo na Uniban

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