Especial Aula de intolerância
Violência e machismo
O que alguns colunistas e repórteres chamaram de explosão de fascismo, o Conselho Universitário (CONSU) da Uniban batizou "reação coletiva de defesa do ambiente escolar", em nota publicada em jornais de grande circulação no dia 08 de novembro. Fascismo é exagero, como explica o professor José Faro: "Fascismo é um conceito político preciso, que só deve ser aplicado a um conjunto de outras circunstâncias". Mas, ainda segundo Faro, houve uma atitude fascista. "Os alunos da Uniban comportaram-se como um grupo paramilitar, uma milícia moralizadora e irracional, violenta e munida de um sentimento totalitário".
Nem é preciso dizer que a nota do CONSU endossa a turba da Uniban pois, apesar de comunicar a suspensão de meia dúzia de envolvidos, desliga Geisy Arruda da faculdade. E chega ao absurdo de acusá-la de fazer um percurso "maior do que o habitual" para ir à sala e ao banheiro. Seria um argumento pobre, não fosse criminoso, já que fere um dos princípios fundamentais da Constituição Brasileira - a construção de uma sociedade livre, justa e solidária, em que está implícito o direito de ir e vir. Desde que não invada uma área restrita, a aluna pode fazer o percurso que bem entender para ir à sala, ao banheiro, aonde bem entender.
Ao longo deste (longo) percurso, alega o CONSU, Geisy aumentou sua exposição, "ensejando, de forma explícita, os apelos dos alunos que se manifestavam em relação a sua postura". Para a professora livre docente da Faculdade de Educação da USP Marília Pinto Carvalho, a expulsão da aluna nos termos do comunicado à imprensa "ensina que a intolerância não é um problema grave. Já a sensualidade de uma mulher é razão suficiente para ela ser expulsa".
De acordo com a professora, se há um saldo positivo nessa história, é o fato de escancarar o machismo latente na sociedade. "As lutas feministas têm mais de duzentos anos: conquistamos o voto para as mulheres (minha avó não podia votar); conquistamos o acesso ao ensino superior (minha tia foi a segunda aluna do sexo feminino a estudar engenharia em Belo Horizonte, hoje as mulheres são mais de 60% dos formandos em cursos superiores neste país); conquistamos leis e instituições, como as Delegacias da Mulher, para combater a violência doméstica. Mas ainda falta tanta coisa! Creio que a geração anterior à minha – hoje tenho 50 anos – iludiu-se que não havia mais nada a conquistar. Episódios como este podem servir para 'acordar' muitos e muitas jovens".
Isso, é claro, desde que haja reflexão sobre o caso - como de fato tem havido desde que as imagens da violência se tornaram públicas. A sexualização do episódio pode aplacar este movimento consciente. Edson Aran, diretor da Playboy, declarou à Folha de S. Paulo que pretende sondar Geisy Arruda para a capa da revista. "Proposta e eventual aceitação", crê Marília, "serão ambas atitudes machistas, que exploram o corpo da mulher como objeto e nós todos/as estamos imersos em uma sociedade machista".
A ignorância e o despreparo só potencializam preconceitos de toda ordem. Daí o professor Faro acreditar que este caso específico tem a cara da Uniban, uma faculdade "sem produção científica relevante, com cursos frequentemente mal avaliados pelo MEC". "A expulsão da estudante e a própria anulação da medida têm uma marca, a marca Uniban de lidar com um fato dessa natureza, além de demonstrar uma grosseira visão administrativa de solução de seus problemas". Para Faro, "a decisão do reitor em anular o ato do Conselho Universitário é tão abitrária quanto foi a decisão anterior de expulsar a aluna: ambos não decorrem da reflexão, são atos intempestivos, decisões tomadas ao sabor de pressões da hora e, portanto, autoritárias e arbitrárias na sua essência, reveladores de um despreparo institucional absoluto".
Como a aluna de Ron Jones, no colegial de Palo Alto, cabe à sociedade agora refletir o que cria o cenário para uma escalada de violência. Para José Faro, os grandes culpados são o "desprezo pela cultura" e a "baixa formação intelectual". E quando estes fatores confluem em um ambiente onde teoricamente forma-se a base intelectual do País, temos um problema sério para resolver. A solução começa pelo reconhecimento de que as faculdades não podem funcionar meramente como pontes para melhores salários. A inclusão social é parte do seu papel, mas não um fim em si; a finalidade da faculdade deve ser a construção da base científica e intelectual da sociedade. É a partir da sua produção que crescemos enquanto nação. Se a sua produção for a parca qualificação de mão de obra para o mercado trabalho, podemos dizer que ela não cumpre seu papel mais básico, tão básico que é até contemplado pelos postulados da Uniban: o desenvolvimento sustentado do País.
