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Papo de Mestre

Por: Luisa Migueres

 

Não é preciso muito para descrever o cargo que eles ocupam. O nome por si só explica muita coisa. Mestre. No caso, Mestre de Bateria de Escola de Samba. A figura que determina o que cada um de seus 250 ritmistas – ou mais – faz no momento do desfile. A dedicação dura o ano inteiro e é só terminar um carnaval, que outro começa a ser planejado.

O respeito ao Mestre é unânime. E além de uma enorme noção de ritmo e melodia, ele deve ter um pulso firme e disposição de sobra. À frente da bateria durante todos os 80 minutos (aproximadamente) de avenida, ele deve estar atento a todo e qualquer deslize por parte de algum instrumento – cobrar disciplina e atenção faz parte do negócio – sinalizando o andamento do samba.

Cada bateria tem seu período de ensaios, método de trabalho e peculiaridades. O Mestre Átila, da bateria campeã do grupo de acesso do carnaval carioca de 2008, a Império Serrano, diz que a característica de seu coletivo de ritmistas são os agogôs, toques de terceira (surdo de terceira marcação) e a cadência do andamento. Ele, junto aos seus diretores, comanda um curso para quem deseja integrar a bateria. “As inscrições são abertas na segunda semana de maio. Eles passam, contudo, por mais duas avaliações antes de serem convocados para o desfile”, ele ressalta. O mestre não trabalha sozinho e os diretores mencionados por Átila fazem de tudo um pouco: “Eles são responsáveis pela afinação dos instrumentos, por transmitir, de acordo com meu comando, as sinalizações das bossas, entre outros afazeres”, diz.

Carlos Alves, o Carlão, é mestre da bateria da escola paulistana Tom Maior e também conta com diretores, doze ao todo. “São nove meses de ensaio, acompanhando o desempenho de cada ritmista”, garante. O critério para selecionar os homens, mulheres que marcam o samba da escola parte da técnica, disciplina, perseverança e companheirismo, segundo Carlão. "A capacidade de amor ao pavilhão também é essencial", garante Mi, mestre da bateria da Unidos de Vila Maria.

Aguentar os 65 minutos de desfila no Sambódromo não é tarefa fácil e o segredo está no preparo físico e mental dos ritmistas. Mestre Átila aconselha os membros de sua bateria a descansarem bastante e incluir macarrão, banana e muita água na alimentação. Carlão reforça que o desejo de vencer aflora bem antes do desfile: “a mentalização ‘do vencer’ está atrelada ao poder de ensaiar exaustivamente”, revela.

O processo de composição – evidentemente – também está nas mãos do mestre. Na maioria das vezes, logo que o enredo é escolhido, a definição da harmonia e da linha melódica é o próximo passo. “Depois de escolhido o samba vencedor, eu faço o trabalho de arranjos de percussão em cima”, diz Carlão. Já o mestre Átila ressalta que as bossas - as chamadas "paradinhas" - são elaboradas antes ainda da criação do samba-enredo, pois o andamento da bateria é sempre o mesmo.

Ao contrário do se pode pensar, os mestres nem sempre precisam ter estudado música para ocupar o posto com competência e criatividade. Mestre Augusto, da bateria da X-9 Paulistana, revela: "Só estudei um mês de percussão, o resto foi de ouvido". Quanto a capacidade de elaborar batidas de caixas, desenhos de tamborins, breques e outras variações do samba, Augusto ressalta que, em seu caso, é pura inspiração. "Posso estar conversando com uma pessoa e ouço algo diferente, surge uma idéia e tento colocar em prática", diz.

O trabalho exaustivo tem suas recompensas – mesmo quando essas não representam propriamente um “salário” -, o orgulho de ter o samba ecoando pela avenida é inexplicável. Um salve a todos os mestres do Brasil!

Foto Mestre Átila: Diego Mendes/ Divulgação Império Serrano
Foto Mestre Augusto: Leandro Nascimento/ Divulgação X-9 Paulistana

 
 
 
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