Especial Os Centenários
Um homem de muitas palavras
Aurélio Buarque de Holanda
Aurélio Buarque de Holanda, criador do dicionário de mesmo nome, completaria 100 anos em 2010.
Se existe um livro que quase todo brasileiro já deu pelo menos uma lidinha, esse é o Dicionário Aurélio. Hoje é difícil imaginar uma vida sem as explicações desse oráculo moderno. Porém, ele só foi criado em 1975 por Aurélio Buarque de Holanda, que completaria 100 anos este ano, no dia 3 de maio.
Um dos maiores estudiosos da Língua Portuguesa, Aurélio não tinha um dicionário para consultar quando era criança. Ele passou anos sonhando com um, até encontrar um exemplar no escritório do tabelião da cidade, que ele passava horas lendo. Mas apesar de sempre ser apaixonado pela língua e literatura brasileira, ele não foi sempre o homem dos verbetes.
Nascido em Passo de Camaragibe, Alagoas, Aurélio era professor, ensaísta, filólogo, tradutor, crítico literário e lexicógrafo e, a partir de 1961, foi membro da Academia Brasileira de Letras. Além disso, ele era formado em direito pela Faculdade do Recife. “Sua relação com o trabalho era permanente, ele trabalhava o tempo todo. Mas era algo prazeroso, não é essa imagem que a gente tem do trabalho como uma coisa desagradável.”, conta Aurélio, seu filho.
Em 1923, Aurélio se mudou para Maceió e anos mais tarde ele começou a fazer parte do grupo de intelectuais mais influentes do Nordeste, com escritores como Graciliano Ramos, José Lins do Rego e Rachel de Queiroz. Em 1938, ele se mudou para o Rio de Janeiro, onde continuou a dar aulas de Português e começou a ter seus contos e artigos publicados na imprensa carioca. O seu primeiro livro, Dois Mundos, premiado pela Academia Brasileira de Letras, foi lançado também nessa época, em 1942. Em 1945, casou-se com Marina Baird Ferreira, com quem teve dois filhos.
Seu filho Aurélio conta que apesar do pai estar sempre trabalhando, ele era um pai presente. “Ele trabalhava em casa, é claro que a gente não ficava atrapalhando, mas quando a gente chamava, ele vinha. E se ele não achava importante, ele voltava ao trabalho”, conta.
Foi a partir de 1941 que Aurélio começou a se aproximar do seu antigo sonho, ao ser convidado para executar o Pequeno Dicionário da Língua Portuguesa. Mas isso não era o bastante, e o estudioso resolveu criar o seu próprio dicionário. Depois de mais de cinco anos de muito trabalho, o Novo Dicionário da Língua Portuguesa, o Aurelião, foi publicado em 1975.
O dicionário era acessível e inovador, por conter palavras que faziam parte do vocabulário do brasileiro. Essa característica de acompanhar o que está na boca do povo se mantém até hoje. Segundo seu filho, ele não usava palavras difíceis nas conversas: “Ele tinha uma capacidade rara de falar de maneira clara e correta sem usar palavras rebuscadas. Ele também não falava palavrões”, conta. “E quando nós falávamos, já crescidos, ele dizia: meu filho, não virgule tanto, não virgule tanto”, completa, com risadas.
A primeira edição do dicionário tinha 115 mil verbetes. A atual já conta com 137.838 verbetes. Em comemoração ao centenário do autor, o dicionário ganhará uma edição de luxo, com apenas 100 exemplares.
Aurélio só não quis que seus dicionários tivessem um verbete relativo ao seu nome. Segundo seu filho, “ele teria que ser muito convencido, ter muito cabotinismo para isso.” O dicionarista morreu em dia 28 de fevereiro de 1989, no Rio de Janeiro, vítima de Mal de Parkinson.
Em homenagem ao centenário, o governo de Alagoas declarou 2010 como o ano Aurélio Buarque de Holanda e inaugurou o Espaço Aurélio Buarque de Holanda, que promoverá uma exposição com objetos pessoais do autor, como fotos e fichas de elaboração dos verbetes. Também haverá um concurso cultural voltado para estudantes e um curta-metragem que será distribuído nas escolas. As comemorações serão encerradas do dia 3 de maio de 2011 com o lançamento de um documentário biográfico, dirigido pelo cineasta alagoano Werner Salles.
Serviço
Onde: Espaço Aurélio Buarque de Holanda: Museu Palácio Floriano Peixoto –
MUPA (Praça dos Martírios, Centro – Maceió/AL)
Quando: Terça a quinta, das 8h às 17h; às quartas-feiras, das 8h às 21h; e sábados, domingos e feriados, das 13h às 17h.
Quanto: A entrada é franca
Mais informações no site ou (82) 3315-7874.
