Especial São Paulo Fashion Week
SPFW Negra

O desfile da ONG Educafro protestou pela maior presença de negros nos desfiles. As cotas representam a luz no fim do túnel?
Primeiro foram as universidades, depois os cargos públicos. Depois as novelas; agora, até na São Paulo Fashion Week acontece a inserção do negro ao mercado de trabalho, forçada pela política de cotas. Tão logo chegou ao Ministério Público a proposta de um Termo de Ajuste de Conduta (TAC) que previa a reserva de 10% do espaço da passarela a modelos negros, choveram críticas: “É racismo às avessas!”, “Uma afronta à liberdade artística do estilista!”, “Onde vamos arrumar tantos negros bons assim?”, “As cotas suprimem o mérito”.
Tudo isso foi dito por gente da moda, mas quem pagou o pato foi a estilista Glória Coelho que, em entrevista à Folha de S. Paulo, lançou a seguinte pérola: “Na Fashion Week já tem muito negro costurando, fazendo modelagem, muitos com mãos de ouro, fazendo coisas lindas, tem negros assistentes, vendedoras...”. Pela contramão, Glória foi ao cerne da questão: por que é importante que os negros ocupem as passarelas?
“Toda profissão é digna”, diz Helder Dias Araújo, dono da HDA Models, agência exclusiva para modelos negros. “Mas faltam negros na passarela, não atrás do palco. No backstage já temos muitos”. Ele próprio é a favor das cotas e entende bem que este tipo de iniciativa não nasce para durar para sempre. “Precisamos das cotas para que um dia não precisemos de cotas”. Soa estranho? Pois não é: afrodescendentes não estão nas passarelas porque são vítimas de duplo preconceito - um racial (negro é deselegante, tem cabelo ruim, nariz e boca muito grandes etc.) e um social (negro é associado à pobreza).
E como dissolver preconceitos arraigados desde o navio negreiro? Fazendo com que os filhos dos racistas se acostumem a ter a imagem negra - hoje tida por exótica ou desarmônica - por bela. Até porque, padrões estéticos surgem e desaparecem da noite pro dia. O único que se mantém há cinco séculos é o que tacha de feia a estética negra - até os gordinhos já tiveram sua vez.
Se há cinco séculos que a demanda pela estética negra é baixa, como a HDA de Helder sobrevive há nove anos? “Eu sempre recebo pedidos de modelos negros para campanhas populares, como crédito, varejo, supermercados de bairro, campanhas públicas do Ministério da Saúde, da Educação, do Esporte...”. Além disso, há a demanda internacional, ele conta, citando uma de suas meninas, Juliana Nepomuceno. “Uma modelo lindíssima, com um material super legal, que acabou de voltar da Europa e da Ásia, mas que não consegue lugar no Fashion Rio”. Juliana foi recusada juntamente com outros 29 modelos negros da HDA.

A "cota" de negros, antes reservada às pessoas que trabalhavam apenas no backstage, como o segurança e outros membros da staff do Fashion Week
No SPFW, essa aversão retumbante não há de acontecer. Não porque as cotas imprimam uma mudança ideológica e rasguem as raízes do racismo, mas porque a discriminação passa a custar caro. O TAC proposto pela promotora Deborah Kelly Affonso prevê fiscalização pesada e multa de R$ 250 mil por descumprimento. Ou seja: este VAI ser o Fashion Week com o maior número de negros já registrado. É uma solução? Paliativa, no máximo. Mesmo assim, é um primeiro passo para que algum dia, como diz Helder Araújo, os mercados publicitário e de moda passem a ver talentos independentemente de cores.

