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Jorge Wakabara, Sérgio Amaral e André do Val

Por: Alexandre Ougata

 

As coberturas da semana de moda de São Paulo, muitas vezes, ficam restritas aos comentários sobre os desfiles, ao balanço das tendências e a entrevistas com modelos über tops ou figurinhas excêntricas, que rodam a Bienal durante a SPFW, como é o caso dos clássicos Bin Laden e Ovelha.
 
Porém, convenhamos, o que rola nos bastidores da moda, nas festinhas promovidas pelas marcas, nas intrigas entre os editores e jornalistas que cobrem o evento, é mais interessante do que assistir a um monte de par de pernas indo de lá pra cá, em roupas um tanto quanto ‘estranhas’.
 
E pra quem acha que só de glamour vive o povinho da moda, a decepção pode ser grande. Num papo pra lá de ‘cool’ com Jorge Wakabara, sub-editor do site Chic; Sérgio Amaral, editor do site Erika Palomino; e André do Val, editor da revista KEY, caímos na real de que nem só de champanhe e paetê sobrevive o mundo fashion.

 André do Val - Editor da KEYJorge Wakabara - sub-editor da ChicSérgio Amaral - Editor do EP / Foto: Fabio Motta

!ObaOba:
Pergunta básica. Só pra dar aquele ‘warm up’. O que esperar desta edição da SPFW?
 
André do Val: É uma resposta ampla. Acho que vai ser, como em temporadas recentes, uma edição tranqüila, bem direcionada ao consumidor e sem grandes revoluções criativas. Os lançamentos de verão são normalmente mais movimentados, por conta da participação das marcas de beachwear. Esta estação ferve mais ainda agora, principalmente pela migração do desfile da Colcci com Gisele Bündchen do Rio para a capital paulista. As marcas masculinas também devem ganhar alguma atenção, com novas propostas para este segmento. Mas o que eu espero mesmo é profissionalismo de todos os setores da indústria, não estamos em uma balada e sim em uma feira de negócios.
 
Sérgio Amaral: Em um mês em que se assiste a quase 100 desfiles, se metade deles é ruim, dá um tédio gigante no povo... Normalmente são uns dez ou quinze mais interessantes, a grande maioria é carregação de mais do mesmo. Daí que eu espero ver ótimas apresentações, desfiles que emocionem, surpreendam de alguma forma. As últimas estações no Brasil e no Planeta Fashion não foram lá das mais inspiradoras.
 
Jorge Wakabara: Eu não sei o que esperar dessa SPFW porque geralmente a gente faz um balanço de tendências depois, né. O trabalho do jornalista de moda é reportar o que está acontecendo e não adivinhar o que está para acontecer. Hahahaha...
 
!ObaOba: Como é a correria durante a SPFW?
 
Jorge: É complicada, porque na verdade não é só SPFW, antes tem Casa de Criadores e Fashion Rio. Então tem que se alimentar bem, inclusive antes, tomar vitamina, tudo isso para não ficar doente. Pense que são cerca de sete desfiles por dia, você entra e sai de ar condicionado, corre de um backstage para outro para entrevistar estilista, stylist. É mega cansativo, nada glamuroso.
 
Sérgio: É dramática. A gente costuma brincar que fica internado na Bienal porque chega cedo, às 9h ou 10h, e sai só depois da meia-noite, 1h, 2h. Já virei noite em claro na SPFW, cheguei às 10h de um dia, saí às 7h do dia seguinte (quando já tinha um monte de gente amanhecendo e correndo no parque), fui pra casa tomar um banho, dar uma dormidinha de duas horas e voltar pros desfiles. Claro que isso foi um caso extremo e dramático. Mas, de verdade, não dá tempo de almoçar, jantar, ver namorado, amigo, nada disso. E às vezes você fica tão pilhado de trabalho, que mesmo chegando em casa à 1h, morto de cansado, fica rolando na cama de um lado pro outro até abaixar a poeira e conseguir dormir.
 
Jorge: Desta vez vai ser mais pesado, porque são simplesmente 50 marcas. Nunca houve tantas! Fora que tem coisas como a presença da Gisele Bündchen na Colcci, o que demanda um esforço maior da equipe de reportagem para conseguir notícias. Tem que correr atrás dela, a imprensa inteira fica querendo uma exclusiva com Gisele, é dificílimo. 
 
!ObaOba: Qual diferença entre a SPFW e o Fashion Rio?
 
André: A diferença é basicamente a localização, um é em SP e outro no Rio. E também a forma que seus diretores encontraram para adequar seu evento ao mercado local. Na SPFW, Paulo Borges transformou o próprio evento em um produto, que às vezes aparece mais do que os nomes de sua programação. Já o Fashion Rio, de Eloysa Simão, é mais voltado à informação de moda, seja na passarela, palestras e workshops ou coquetéis de apresentação.
 
Jorge: É principalmente o perfil dos desfiles. No Rio eles costumam ser mais comerciais, calcados em tendências. Por isso mesmo que a feira de negócios que acontece no Fashion Rio, a Fashion Business, é poderosa e movimenta uma grana boa. Na SPFW estão marcas super conceituadas, tipo Herchcovitch, Gloria Coelho, Ronaldo fraga, ou seja, acumula mais desfiles impactantes. Sinceramente, gosto das duas, por motivos diferentes.
 
!ObaOba: Como se tornar um jornalista de moda?
 
Sérgio: Acho que uma boa formação cultural faz toda a diferença. Saber de artes plásticas, cinema, literatura, música e arquitetura é superimportante. Além de conhecer história da moda e acompanhar o que acontece nas passarelas e na "vida real" diariamente. Atenção, sensibilidade e olhar apurado também são importantes.
 
André: De preferência não estudando jornalismo, nem moda. Digo isso porque é preciso um conhecimento amplo de ciências humanas para basear críticas e entrevistas. Não é apenas sobre sentar ali e tentar identificar um bolso faca, uma calça clochard ou uma renda guipure. É encaixar essa imagem que muitas pessoas acham estranha (o maldito: “alguém vai vestir isso?”) em uma proposta diferente e atual que elas talvez nem saibam que têm vontade de ser igual. É um exercício de abstração constante, e de renúncia.
 
!ObaOba: Como é trabalhar com moda no Brasil?
 
Sérgio: Acho que normal, mais ou menos como os trabalhos "convencionais". Exige bastante estudo, dedicação master e atualização em tempo real. Sabe aquela coisa de "tudo que é sólido se desmancha no ar"? Na moda isso acontece na velocidade da luz!
Trabalhar com moda no Brasil exige muita paixão, já que com exceção de alguns poucos empresários, jornalista, maquiadores, stylists etc (uns 100, sei lá), trabalhar com moda não dá muito dinheiro. Mais do que glamour, a ralação é que acaba mandando. Claro que tem um lado divertido, algumas festas, a champanhe que está (quase) sempre ali.
 
Jorge: Esse meio não é fácil. Na moda tem um monte de gente do bem, mas também tem gente do mal, colocando uruca em você. Sinceramente, muita gente nega isso, mas existe. Aí é complicado, você sente aquela energia meio ruim em cima de você.
 
!ObaOba: Como avaliar e criticar um desfile?
 
André: É preciso sentar por 20 minutos e abrir a cabeça para ver o que ninguém mais ali dentro vai enxergar. Tem que se levar em conta a trajetória do estilista, o que foi mostrado no desfile e de que forma isso foi apresentado, fazendo paralelo com o que se vê nas ruas e nas vitrines e ainda com movimentos sociais recentes. Não adianta ser revolucionário se não for vendável, não adianta ser apenas correto se não emocionar. É uma equação difícil de se equilibrar.
 
!ObaOba: Moda é arte, negócio ou futilidade?
 
André: Ainda se questiona isso? Pra mim é negócio.
 
Sérgio: Tudo isso, mas varia de marca pra marca, de estilista para estilista. Moda mais artística é rara. A de negócio é a mais comum, mas nem por isso menos valorizada. Requer talento pra caramba para administrar e fazer funcionar a roda. Futilidade é boa e a gente, todo mundo, gosta.
 
!ObaOba: Agora, momento fofoca. Como são as festas pós-SPFW? Muita modelo dando uma de Kate Moss? Estilista promovendo festa do pijama?
 
Jorge: Hahaha... Eu não costumo freqüentar essas festas. A última que fui foi a da Zapping, que todo mundo disse que foi uma das melhores de todas. Foi boa mesmo. A galera não chega a se jogar tanto assim, mas rolam umas gafes, umas baixa... nada de muito tenso. Como a maioria das pessoas fica de saco cheio de ver tanta fuça do povo da moda o dia inteiro, o povo que rala mesmo quer fugir dos fashionistas. Eu, por exemplo, costumo ir pra Vila Madalena em algum boteco encher a cara.
 
Sérgio: Muita champagne, gente bonita e bem vestida.
Festa do pijama acho que seria bem improvável pro povo da moda, só os muito bem-humorados iriam entrar na brincadeira. Acho que as festas de moda são mais divertidas pra quem não é da moda, quem é, acaba não aproveitando muito, pois sabe que no dia seguinte tem muito trabalho pela frente, que o lugar tá cheio de jornalistas e de outras pessoas da moda. Aí que ninguém quer se expor à língua do povo, né? Já pra quem descola convite e vai, é sempre divertido. Bebida liberada, tem gente bonita e com sorte você até pega alguém beeem interessante!
 
!ObaOba: O que rola de bizarro, curioso ou engraçado no backstage?
 
Jorge: Bom, tem de tudo. Modelo que paquera fotógrafo e vice-versa. Modelo dormindo. Jornalista do site de Pirapora do Bom Jesus querendo falar com o estilista durante meia hora. Tem até alguns personagens clássicos da SPFW, o Bin Laden e o Ovelha. Sério. São dois sósias, eles ficam pelo prédio da Bienal circulando e sendo fotografados. É bizarro!
Dependendo do backsatge o clima é diferente. No da Neon, por exemplo, o clima é sempre bom. As modelos estão sempre felizes, o Dudu (um dos estilistas) sempre está megasolícito. Mas, nem sempre é assim, né?
 
Sérgio: Hum... Sinceramente, nada demais. De vez em quando tem algum bas-fond, tipo quando a Gisele fez xixi num copinho porque não tinha como sair do camarim tamanho o tumulto dos fotógrafos e jornalistas. Mas normalmente é um lugar meio tenso, onde as pessoas tentam se concentrar ao máximo pra que nada dê errado na hora do desfile. Tem comidinhas bem gostosas, as marcas e estilistas contratam buffets que montam toda uma refeição pra todo mundo que está ali trabalhando. As modelos comem bastante, inclusive. Mas na temporada a gente lá na House (House of Palomino) sempre acaba perdendo peso.
 
!ObaOba: Os jornalistas disputam uns com os outros? Tipo, o pessoal do Erika tem rivalidade com a galera do Chic? As editoras de moda conversam entre si?
 
Sérgio: Rola uma disputinha, sim, mas é cordial. A equipe do Chic na verdade é superamiga do site EP. Nossos lounges geralmente são vizinhos, eles sempre levam uma garrafa de champanhe  pra tomar com a gente no fim do dia, e quando dá tempo de se jogar pra alguma festa, a gente fica junto dançando e fervendo. Também temos amigos no Glamurama, mas a cobertura deles não tem o mesmo foco que a nossa, é diferente mesmo. Na verdade o que tem é aquela coisa de jornalista: todo mundo quer furar todo mundo, saber das coisas antes e soltar no seu veículo. Mas, não tem essa de inimigos mortais, todo mundo se cumprimenta.
 
Jorge: Acho que já foi bem pior. As maiores editoras conversam entre si, quando existe alguma relação pessoal maior, ou simplesmente se cumprimentam, normal.
Já a nova geração é bem tranqüila em relação a isso. Eu trabalho no Chic, mas converso com o povo do Erika, do Glamurama, do SPFW.com.br, tudo numa boa. É meio besta essa coisa de ficar querendo roubar furo ou puxar tapete porque é meio irreal. No fundo, cada site tem um perfil muito específico, vai ter uma forma de dizer as coisas bem diversas. Não tem porque competir ou brigar. E eu tenho, inclusive, pessoas que prezo muito e até sento para tomar uma cerveja e falar sobre vida pessoal na “concorrência”.
No último Fashion Rio tomei horrores de champanhe com o povo da Erika. Então não tem nada disso de um alfinetar o outro.
 
!ObaOba: Qual é aposta para o verão 2009?
 
André: Acho que este verão vai ser de contrates, muito escuro ou muito claro. Os neutros em looks monocromáticos devem aparecer bastante também, em formas ajustadas sem apertar o corpo. Mas o mais importante é a tecnologia têxtil, algo que você não vê à primeira olhada, mas são nestes detalhes que se encontram o futuro da moda. Pode-se reproduzir quase todos os tipos de tecidos em versões mais leves e frescas.
 
Jorge: Acredito que vai rolar uma confirmação de releituras dos anos 70.
 
!ObaOba: O que há de melhor e de pior na moda?
 
Sérgio: De melhor as roupas e de pior os preços.
 
Jorge: O melhor é poder fazer as pessoas se sentirem melhor. Prazer estético nunca é demais.
O pior é um certo ar blasé de quem é superior. Muita gente que trabalha com moda pensa que é mais por causa disso. Grande bobagem.
 
André: Melhor é poder viver num mundo de sonhos. Pior é acreditar nisso como se fosse verdade.
 
xxx
 
Falou e disse...
 
 
 
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