Especial VIVAVOZ
Drogas no cinema
O cinema brasileiro adotou rapidamente uma linguagem ácida, pragmática e realista para confrontar o problema das drogas. Desde Bicho de sete cabeças, nossa filmografia se aventura pelo elo mais fraco desse mercado e destila traficantes, usuários, policiais e agentes do estado que, bem ou mal intencionados, acabam por contribuir com a espiral da droga. Mas, se dentro de suas tramas, esses personagens mais atrapalham do que ajudam a elucidar o problema, fora da tela, eles acabam tirando a sociedade da letargia. Paradoxalmente, precisamos romancear a realidade para poder encará-la de frente. Vamos relembrar alguns dos personagens que impactaram o Brasil ao escancarar mundos ocultos da droga.
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Bicho de sete cabeças (Laís Bodanzky, 2001)
Rodrigo Santoro vive Neto, personagem inspirado em Austregésilo Carrano Bueno que, aos 17 anos, foi internado em um hospital psiquiátrico público, depois que seu pai encontrou um cigarro de maconha em suas coisas. Bueno contou essa história no livro Canto dos malditos, base para o roteiro do filme que, muito mais do que a dependência química em si, aborda as consequências do despreparo e preconceito da sociedade com o tema. Neto não é um viciado, mas um rapaz de classe média baixa que faz experiências preliminares com drogas. O pai, por ignorância acerca do tema, encara o filho como um bandido drogado e recorre ao manicômio, uma instituição que mais se assemelha a uma cadeia do que a uma clínica de recuperação de usuários de drogas. O resultado da internação são torturas, choques elétricos e dopagem por remédios. No final, o protagonista do filme não é Neto, mas a própria estrutura de internações, incapaz de recuperar o dependente.

Cidade de Deus (Fernando Meirelles, 2002)
O filme que redefiniu o rumo do cinema brasileiro tem o mercado da droga como protagonista. Claro que todo mundo lembra de Zé Pequeno, Buscapé, Bené, Mané Galinha, Cenoura. Mas o que une todos esses personagens, além do fato de eles morarem na Cidade de Deus, é o fato de eles dividirem seu cotidiano - em maior ou menor grau - com o tráfico de drogas. Zé Pequeno é o traficante facínora cuja ambição por poder só não é maior do que o gosto sádico pela violência; Mané Galinha, um cobrador de ônibus que se vê arrancado da vida normal pela violência; Buscapé, um fotógrafo que tem sua carreira alavancada pela proximidade com a violência extrema. Todos eles trabalham no mercado da droga, mesmo que nem todos o sustentem. No final das contas, o filme encara o tráfico como uma atividade capitalista como qualquer outra em que o predatorismo inerente à atividade da acumulação ganha contornos físicos graças ao potencial bélico de seus agentes.

Tropa de elite (José Padilha, 2007)
Capitão Nascimento, o comandante do BOPE (Batalhão de Operações Especiais) vivido por Wagner Moura, faz uma análise pragmática da sociedade e vive de acordo com ela: os maiores responsáveis pela economia da droga são os usuários de classe média. Estes mesmos usuários vivem alheios à guerra do tráfico e, em sua ignorância, encaram a polícia como o mal e idealizam o traficante de drogas. Chamam isso de consciência social. Embora critique a tal consciência do maconheiro que faz trabalho social na favela, o capitão tem uma visão maniqueísta do mundo e vive pela máxima de que os fins justificam os meios. Se é para vencer a guerra contra o poder paralelo do tráfico nos morros do Rio de Janeiro, vale invadir barraco com pé na porta, torturar morador e até matar inocentes. Pelo menos, ele é coerente com a ideia de que há uma guerra em curso na cidade - e que só a classe média não precebeu.

Meu nome não é Johnny (Mauro Lima, 2008)
"Minha meta é torrar um milhão de dólares". A frase acabou virando bordão do João Estrella vivido por Selton Mello e sintetiza bem o personagem, inspirado num produtor musical que acabou preso por encolvimento no tráfico de cocaína, em 1995. Durante quase uma década, João - cujo nome não é Johnny, apesar dos autos policiais - fez a ponte entre o morro e classe média e tornou-se um dos maiores abastecedores de cocaína da Cidade Maravilhosa. O problema é que, ao contrário do mega empresariado do tráfico, Estrella não tinha uma consciência capitalista. Ele não acumulava. Ele não sabia jogar. Ele queria mesmo era gastar tudo e aproveitar a vida do seu jeito torpe. O problema é que com isso, ele não soube se cercar. Não arrumou advogado, não fez faculdade, não gerou riqueza. Embora tenha sido um dos mais prósperos empresários da droga - com clientes à altura do título -, acabou em uma cela comum de cadeia, sem dinheiro, sem namorada, sem esperança.
