Quem curte fotografia sabe que está rolando uma exposição do francês
Henri Cartier-Bresson no
Sesc Pinheiros. O responsável por trazer a obra de um dos fotógrafos mais reconhecidos e famosos de todos os tempos é o também fotógrafo
Eder Chiodetto.
Chiodetto começou sua carreira como assistente do fotógrafo Araquém Alcântara e em 1990 fez sua primeira exposição individual, no
Centro Cultural São Paulo. Já foi editor de fotografia da Folha de S. Paulo e hoje é o curador de fotografia do
Museu de Arte Moderna de São Paulo(MAM). Ele também lançou, pela editora
Cosac Naify, o livro
O lugar do escritor, que retrata escritores brasileiros em seus locais de trabalho. Entre eles,
Jorge Amado (fotografado cochilando em seu escritório depois de passar por uma cirurgia),
Lygia Fagundes Telles e
Luís Fernando Veríssimo.
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O fotógrafo e jornalista, fã do trabalho de Bresson - artista que o inspirou em diversos aspectos - teve agora a oportunidade de trazer cerca de 130 obras originais do ídolo, que ficam expostas no segundo andar do Sesc até 20 de dezembro. Todas selecionadas sob o olhar apurado do brasileiro, profundo conhecedor da arte e história do francês.
Eder conseguiu dar um tempo na sua vida tumultuada e cheia de compromissos para responder cinco perguntinhas para os leitores do
!ObaOba que, como ele, são amantes da fotografia. Delicie-se!
!ObaOba: Como você começou sua carreira na fotografia?
Eder Chiodetto: Eu tinha 20 anos. Vivia a minha primeira grande paixão. Aquela que seu ego se esvazia, que você se torna dependente do outro, do sentimento... no auge do sentimento levei um fora histórico! Pensei que iria morrer. Aí vi no jornal o anúncio de uma exposição do Araquém Alcântara e seus alunos. Fingindo golpear a depressão com um pouco de lazer fui conferir a vernissage. E záz! Foi como um raio. Perceber a possibilidade de ver o mundo daquela forma poética, metafórica, se reportando à história da arte, fiquei totalmente seduzido. É como se eu nunca mais tivesse saído daquela sala de exposições. Na sequência fui fazer curso com o próprio Araquém e já são mais de vinte anos que vivo e respiro fotografia todos os dias, seja fotografando, editando, curando, criticando, realizando eventos, debates, dando aula.
!ObaOba: Você já foi editor do jornal Folha de S. Paulo e agora está fazendo a curadoria de um dos maiores nomes da fotografia mundial. Qual é a emoção de poder estar à frente de uma exposição como essa?
Gosto de desnudar os mitos. Esse papo de "o maior fotógrafo da história", "o pai do fotojornalismo", "o olho do século", acho por demais piegas, clichê. Sei que nós jornalistas precisamos muitas vezes encaixar definições complexas numa única palavra ou frase, mas não dá para levar isso a sério. Então, me propus chacoalhar o Cartier-Bresson, promover um debate para saber se existe mesmo e o que é esse tal "momento decisivo". Juntei seus retratos de pessoas famosas ou não para ver se possuem consistência, sua produção mais ligada ao fotojornalismo, etc. Ao final de tudo acho que o mito Bresson saiu mais reforçado do que entrou. Mas sem a gente recorrer aos clichês. E claro, foi emocionante conviver com cópias originais, pois a obra dele tem momentos de extrema poesia e contemplação.
!ObaOba: Em que níveis a arte de Henri Cartier-Bresson afetou o seu trabalho como fotógrafo?
Nos retratos do meu livro de escritores ("O Lugar do Escritor" - Cosac Naify), por exemplo, pensava muito em dois retratos dele que sempre me chamaram muito a atenção: o do Matisse e o do Giacometti, nos quais criador e criatura se fundem num só. Fazer-se invisível na cena foi algo que busquei muito neste meu trabalho e sempre inpsirado no mestre francês.
!ObaOba: Quais os fotógrafos brasileiros da nova safra que mais estão chamando sua atenção e o que mais te instiga ao visualizar esses trabalhos?
Vou citar apenas dois de muitos possíveis, porque acabei de encontrá-los no Paraty em Foco e eles mais uma vez me contagiaram com suas obras que conseguem aliar uma profundidade conceitual e um viés humanista extremamente complexos com uma estética onírica e libertadora: Rodrigo Braga, de Recife, e Alexandre Sequeira, de Belém.
!ObaOba: Para finalizar, quais as dicas que você pode dar para quem quer seguir na carreira e ser visto como um bom fotógrafo?
Vá ao cinema e entre na tela. Leia Manoel de Barros, Cortázar e Clarice Lispector como se fosse uma bíblia. Escaneie com os olhos Miró, Pollock, Goya, Arthur Bispo do Rosário e nunca mais perca a noção do ritmo. Quando estiver difícil de resolver a foto, dance. E, claro, na hora de fotografar feche os olhos e abra a mente.
Serviço
Exposição Henri Cartier-Bresson
17 de setembro à 20 de dezembro
Sesc Pinheiros
Rua Paes Leme, 195
Pinheiros - São Paulo
fone: (11) 3095-9400
Horário de funcionamento: de terça à sexta: das 13h às 21h30; sábados: das 10h às 21h30; domingos e feriados: das 10h às 18h30
Entrada grátis