Ao lado de Chico Science - morto em um acidente de carro, em 1997 -, Fred Zero Quatro foi um dos mentores do movimento mangue. Aos 44 anos, o vocalista do
Mundo Livre S/A continua com os pés cravados no mangue e a cabeça no espaço - à imagem da hoje clássica analogia da parabólica espetada na lama, ícone do manguebeat. Prova disso é que, em meio à gravação de um novo disco - 16 canções estão prontas para ir ao forno -, Fred discute o passado e presente do movimento, fala da restrição das rádios ao som regional, do conservadorismo das gravadoras e da faca de dois gumes que é a indústria da música no pós-
MySpace. De acordo com ele, um site "de músico para músico", sem a abrangência das rádios tradicionais.
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"Livre Iniciativa" do Mundo Livre S/A
No último dia 05 de novembro, véspera de um show comemorativo aos 15 anos de "Da Lama ao Caos" - álbum que colocou o manguebeat em evidência no Brasil e no mundo -, o ObaOba teve o privilégio de registrar uma hora e meia de conversa telefônica com Fred Zero Quatro. O resultado desse papo é o que você lê abaixo. Boa viagem!
!ObaOba: O que representou o manguebeat para o pernambucano?
Fred Zero Quatro: A notícia de que uma grande gravadora estava fechando acordo com Chico Science não mexeu apenas com música. Isso mexeu com a auto-estima de toda a comunidade cultural da cidade. (Caso de) cineastas e gente da moda, por exemplo. Foi um estímulo para todos.
Como foi a receptividade do público em relação ao movimento?
A princípio, quando houve o primeiro
Abril Pro Rock, era uma coisa meio underground. Antes mesmo do festival, fizemos um evento intinerante chamava
Viagem ao Centro do Mangue, que reunia Chico Science & Nação Zumbi, Lamento Negro, Mundo Livre... Era o núcleo original de toda a cena. E aí, não tinha nem palco definitivo, fixo. Fazíamos festa na casa de um amigo em Olinda e improvisávamos um palco no quintal. Aí, conseguimos parceria com um gringo, dono de uma boate. Até que chegamos em Boa Viagem, no quintal de uma galeria. Conseguimos fazer um circuito intinerante e o público foi crescendo. Mas, o máximo que conseguimos reunir nesse período underground foi umas 500, 600 pessoas. Uma cidade como Recife, que só pagava pau para o que vinha de fora e tal, a gente só tocava música nossa mesmo e a galera já começava a assimilar o discurso do carangueijo com cérebro. Não tinhamos patrocínio - o que continua até hoje. Mas acredito que essa nova rádio (Frei Caneca) vai ser um marco.
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Qual o legado do manguebeat?
Dificil encontrar uma loja de música que não tenha uma alfaia - coisa que antes não tinha. Valorizou a cultura daqui. Nessa época de pré-carnaval, outubro, novembro, em todo bairro tem gente ensaiando maracatu. Isso mexeu mesmo. O maracatu nunca foi tão valorizado e tão incorporado no imaginário do jovem quanto depois do mangue. O manguebeat celebra a diferença, ele não é um movimento musical. Jamais poderia conceber um movimento musical que não tem um padrão musical - o padrão é a diversidade. É um troço que transcende a música, o manguebeat celebra uma postura diante da cultura como um todo.
Como os meios de comunicação viam o manguebeat no início?
O que favoreceu tudo foi o que hoje chamam de cauda longa, que existiu na época. A Nação Zumbi foi contratada por um selo intermediário (Chaos, da Sony) - o que permitiu que logo no primeiro disco (
Da Lama ao Caos), eles tivessem acesso a equipamentos de primeiro mundo. E não só isso; mal saiu o disco e os caras já estavam na novela, um clipe "foderoso" na MTV, bombando e tal. O Mundo Livre S/A não assinou com o mesmo selo e tal, mas pelo menos o Banguela (selo que lançou o primeiro disco da banda) conseguiu levar a gente pra São Paulo, com instrumentos todos emprestados dos Titãs ou alugados. E é o que eu chamaria hoje de cauda longa: tinham uns "tampas" que vendiam milhões de cópias e proporcionavam que outros selos intermediários, regionais, locais, menores, com orçamentos bem menores, pudessem também gravar na rebarba deles.
A música regional sofre um certo preconceito e isso não é de hoje. Qual a maior dificuldade enfrentada?
A raiodifusão de massa. A gente vê muito artista que toca em rádios, até de nível internacional, e que nunca tocaram no rádio de Recife. É incrível. Nunca houve uma rádio comercial aqui - sequer universitária - que privilegiasse artistas dessa cena (manguebeat e vertentes).
Por quê?
Ah cara, o motivo é que o sistema de concessões de rádio aqui em Pernambuco está nas mãos dos politicos mais conservadores. São cheios de laranjas (coordenadores das emissoras). Às vezes, (as rádios) são arrendadas para grupos comerciais. E eu convivo com gente jovem, da elite local daqui. É incrível o tipo de desinformação, é uma elite muito careta. Se for comparar com gente que eu conheço da elite de Natal, Fortaleza e Salvador, é grande a diferença. Em Salvador por exemplo, no aeroporto você não vê uma loja que não priorize a cultura baiana. Aqui já chegou ao absurdo, mas há um processo de resgate. Lento, mas existe.
Existe algum projeto de rádio mais aberta e inclusiva?
Agora, (graças a) uma briga antiga nossa, finalmente existe uma rádio municipal. A Rádio Frei Caneca foi aprovada pela Câmara no fim da década de 60 e sempre houve um
lobby fortíssimo de emissoras comerciais para nunca deixar a rádio sair do papel. Agora, de quatro ou cinco anos pra cá, o antigo prefeito e o atual estão numa briga de concessão federal. O senado aprovou, e com uma comissão montada no Ministério da Cultura, podemos definir um desenho institucional da rádio para ela ter uma certa autonomia em relação ao poder público. Nos moldes da Fundação Padre Anchieta (mantenedora da TV Cultura), que é pública mas não totalmente atrelada ao poder executivo. As partes jurídica, burocrática e técnica já foram solucionadas e faltam alguns trâmites para começar a parte operacional. Daqui a um mês, mais ou menos, tentaremos já ter um sinal experimental.
As bandas novas estão colhendo bem os frutos do manguebeat?
Hoje tem uma conjunção de coisas que transcendem também essa questão da herança do mangue e tal, que são coisas estruturais, do próprio circuito da música como um todo. É a questão do desmonte da hegemonia das gravadoras que controlavam de uma forma muito rígida as formações das rádios. Hoje, acontece um processo de grande descontrução dessa hegemonia, e isso gera a criação de novos circuitos e festivais independentes. Uma série de mecanismos novos está ajudando a criar um circuito de música mais autônoma.
Qual o peso das novas tecnologias digitais para essa geração?
Eu acho que essas novas tecnologias digitais, a internet, o MP3 e tal, são uma faca de dois gumes em um certo sentido. Isso porque de um lado, ela possibilita muita informação, circulação mais livre de redes, de divulgação mais autônoma e tudo mais. Mas, por outro lado, é um potencial altamente desestruturador em termos de indústria. Isso pode gerar certos equívocos. Alguns artistas novos acham que podem gravar músicas de forma caseira, satisfatória, a ponto de utilizar o MySpace como forma de divulgação em massa, substituindo o rádio, a televisão, festivais. E eu acho isso um grande equívoco. O MySpace se tornou isso: uma ferramenta de músico para músico.
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Não seria uma forma de apenas agregar, ao invés de caminhar pelo lado contrário?
É isso que eu acho. Mas já ouvi pesquisadores ligados ao CEBRAE, em seminários, falarem literalmente isso: "Ah, porque hoje se grava qualquer coisa em casa e não precisa nem ir atrás de rádio. Hoje você tem MySpace, que serve como rádio". E não é, cara. Isso é uma ferramenta que não leva muito longe. Antigamente, se você conseguisse emplacar alguma coisa na rádio, mesmo em nível nacional, você garantia uma carreira. Hoje, você pode ter até 100 mil acessos, mas não é a mesma coisa, cara.
O Mundo Livre já passou por uma pressão da gravadora para mudar o som ou qualquer aspecto da banda?
A gente já passou por vários tipos de experiências. No começo, antes mesmo de gravar o primeiro disco, quando a gente recebeu os primeiros contratos de gravadora, teve uma grande lá que disse que conseguiria um contrato massa com a gente e que estaria vinculado com uma turnê "foderosa". A gente assinaria o contrato e já teria uma turnê de 50 shows. Só que eles queriam mudar tudo na banda, colocar uma vocalista por exemplo. Provavelmente, deveria ser uma puta de uma gostosa e tal. Isso desde antes do primeiro disco. Acho que todo grande artista que topou com uma oportunidade de ser um potencial de vendas passou por isso.
Como você define o público do Mundo Livre?
Cara, o público é fiel. Apesar de que com essa febre de "baixar músicas na internet" é cada vez mais difícil para um cara novo, fidelizar com um artista. Não dá tempo de ele ser fiel a uma banda tendo 15 mil músicas pra baixar e colocar no MP3. Mas eu tive a sorte, talvez, de ter surgido numa época em que não tinha essa enxurrada toda. Cada vez mais eu encontro pessoas que tem idade para ser meu filho, filhos dos meus fãs, que vêm me agredecer pela música "Samba Esquema Noise", entre outras.
Quando sai o próximo disco do Mundo Livre?
Estamos com três músicas gravadas, e 15, 16 músicas compostas. A demo já tem tudo isso. Um parceiro já surgiu lá de São Paulo, que é dono de um pequeno selo mas que tem grana pra bancar e um bom estúdio. Gravamos três faixas e uma já está mixada, é o som mais "foderoso" que a gente já fez, pelo fato de ser o melhor estúdio (em) que a gente já gravou. Então é assim, nem o cara do estúdio nem nosso produtor sabe quando o disco será finalizado.