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Natiruts se reinventa a cada novo disco

Banda de Brasília abandonou os métodos tradicionais de distribuição, mas garante que não perdeu a capacidade de se divertir

São Paulo, 28 de abril de 2009
Por: Jade Petronilho

Crédito: Site oficial
Na estrada há quase 15 anos, pode-se dizer que o som "paz e amor" do Natiruts embalou uma geração. Com as músicas "Presente de Um Beija-Flor" e "Liberdade pra Dentro da Cabeça", a banda liderada por Alexandre Carlo fez sucesso e conquistou um público bastante diversificado. Desde a época do Nativus (primeiro nome do grupo), seus shows sempre reuniram jovens completamente diferentes - era comum ver tradicionais regueiros fãs de Bob Marley dividirem o mesmo espaço com "playboys" trajando grifes da cabeça aos pés.

O Natiruts tem uma história curiosa: ao contrário da maioria, os brasilienses preferem ser independentes e não dependem de uma grande gravadora. Eles até tentaram, em 1999, quando assinaram contrato com a gravadora EMI. Porém, ao terem a oportunidade de renovar (ou não) a parceria, Alexandre e sua trupe decidiram "pular fora" e investir em outros recursos como a Internet. "Querer impor o antigo modelo de sair de casa pra comprar um disco nos tempos atuais, na minha humilde opinião, é uma forma não muito eficaz de divulgar um trabalho", afirma o vocalista.

Prestes a lançarem um álbum bem diferente do costumeiro, Raçaman promete surpreender. Se você está acostumado com batidas um pouco simples, prepare-se, pois o Natiruts atual é mais calcado em gêneros eletrônicos como o dancehall e o dub. Para entender essa nova fase da banda, o !ObaOba conversou com o vocalista e guitarrista Alexandre Carlo.

Clique aqui e escute o áudio da nova música do disco Raçaman no Natiruts.

!ObaOba: Vocês sempre fizeram um reggae bastante tradicional - com pouca influência do dancehall ou mesmo do dub moderno. Atualmente, sentimos uma presença mais forte desses ecos. É uma migração natural da banda?
Alexandre: Na realidade, começamos com essas experiências no álbum Nossa Missão (2005) e de lá para cá, fomos aprimorando as intervenções do dub no universo do Natiruts até que surgiu a ideia de fazermos um trabalho com um dos mais inspirados nomes do estilo, o Mad Professor.

!ObaOba: Então as presenças de Mad Professor e Yellow P. na festa de lançamento têm tudo a ver com essa nova sonoridade do Natiruts?
Alexandre: Em 2003, começamos a levar a linguagem dos soundsystems para os shows da banda em São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Fortaleza, por exemplo. Convidávamos o Yellow e o (Daniel) Ganja Man para tocar antes dos shows com a intenção de mostrar outras vertentes do reggae para um público que, até então, estava acostumado a achar que reggae era aquela coisa caricata do negão que mesmo sendo um miserável, excluído pelo sistema, era gente boa e feliz, dançando na campanha de turismo pro Caribe... Ou que achava que reggae era o que se parece com o som do Bob Marley, como nosso primeiro disco. Mas isso acontece por motivos óbvios, devido à genialidade do Bob, mas que de certa forma limitava a amplitude de conhecimento das pessoas em relação ao estilo. Por isso, na verdade, os trouxemos para nossa festa com o mesmo intuito de cinco anos atrás. A diferença é que tanto nós, quanto o Yellow, teremos uma sorte danada de vermos ao vivo um dos precursores (Mad Professor) dessa cultura.

!ObaOba: No novo single, Raçaman, vocês fazem uma crítica aos preconceitos que giram em torno do regueiro. Por que vocês resolveram fazer essa crítica?
Alexandre: Temos músicas como "Palmares", que foi lançada no álbum Povo Brasileiro, de 1999, que já abordava essa questão. Sempre tivemos a intenção de exaltar a auto-estima das pessoas que ainda se acham menores ou que pensam que estão enclausuradas em favelas porque são menos inteligentes do que as outras. Na minha opinião, o Natiruts já surgiu como uma banda que ultrapassava o universo do regueiro. Nosso primeiro disco se parecia com Bob Marley não só na sonoridade e na batida "One Drop", mas também nessa característica de atingir as mentes de pessoas com estilos diversos e não só o dos "regueiros". No Raçaman continua assim.

!ObaOba: Quais as atuais influências musicais do Natiruts?
Alexandre: É difícil enumerar porque ouvimos de tudo, mas tem uma banda que foi uma das poucas que realmente mereceram todo esse estardalhaço que nós brasileiros fazemos para bandas gringas: Radiohead. Não conhecia nada, vi o show pela TV e passei a respeitar. Hoje em dia é muito simples gravar um disco, cantar afinado. Por isso, banda pra mim, é no show.

!ObaOba: No que você se baseia na hora de fazer suas composições?
Alexandre: Não sei (risos). Pego o violão, saio fazendo canções e depois vou tendo ideias em cima junto com o pessoal.

!ObaOba: Em quais países vocês já se apresentaram e como é a receptividade de outros povos para o trabalho de vocês?
Alexandre: Temos uma característica singular que nos acompanha até hoje e que nos fez, em 1998, tocar em Porto Alegre pela primeira vez: o "boca a boca". Foi assim que tocamos nos EUA e Hawaii (em shows para brasileiros). Estivemos na Espanha, Portugal, Argentina, Chile, Porto Rico, Cabo Verde - esses já contaram com presença maciça do pessoal local. Também tivemos oportunidade de ir para Austrália, Japão, mas estamos esperando uma oportunidade de "linkar" com Europa, pois não curto voos muito longos, de 30 horas, para ficar poucos dias.

!ObaOba: E como foi a recepção à banda na África?
Alexandre: Muito bacana! É incrível o poder da "Presente de um Beija-flor" e "Liberdade pra Dentro da Cabeça". Em qualquer lugar do mundo que a gente vá, as pessoas conhecem essas duas. Não sei se faremos outras assim - até porque já fizemos... Não estamos nem pensando nisso.

!ObaOba: Muitas bandas que saem do mainstream para o independente enfrentam problemas de distribuição. Como vocês enfrentaram esse problema em Nossa Missão?
Alexandre: O Natiruts complica um pouco o conceito de mainstream. A palavra "independente", no Brasil, ainda soa como algo desconhecido, deixado de lado, inferior. Na realidade, hoje estamos no melhor momento da nossa carreira, incluídos no "mainstream brasileiro" justamente porque em 2002 ficamos independentes. O Nossa Missão e o Reggae Power pertencem ao Natiruts e essa paranoia de tentar impor que as pessoas saiam de casa para comprar discos já não é parte da nossa estratégia faz tempo e é por isso que não nos preocupamos com a distribuição tanto assim. Temos problemas hoje, tivemos problemas na EMI, e isso não é culpa de ninguém! Hoje em dia, é impossível impedir a troca de arquivos pela Internet e é justamente essa troca que faz as bandas chegarem a muitos lugares. Agora, o cara fabricar cópias do seu disco e sair na rua vendendo, isso somos contra.

!ObaOba: Vocês costumam disponibilizar músicas para download. Em tempos de pirataria, vocês acreditam que essa é a melhor maneira para divulgar um trabalho em termos legais?
Alexandre: Não vivemos em um mundo legal. Quando uma banda é colocada na geladeira por uma gravadora mesmo tendo seus direitos assegurados em contrato, nada acontece. Acho extremamente errado o fato de se vender disco pirata, mas também acho que esse problema está na cabeça de algumas pessoas que não veem que estamos vivendo uma mudança de comportamento gerada pelas novas tecnologias que apareceram, principalmente a Internet. Tenho um filho de nove anos e nunca vi ele me pedir para ir numa loja comprar um disco, pois ele já nasceu dentro do universo do Youtube, do download e do MP3. Então, querer impor o antigo modelo de sair de casa pra comprar um disco nos tempos atuais, isso sim, na minha humilde opinião, é uma forma não muito eficaz de divulgar um trabalho. Para que todos entendam como a relação do Natiruts com seu público é especialmente diferente, explico que quando disponibilizamos as músicas para download, não fizemos isso com base em estratégias de mercado. Nossa relação é passional e essas músicas disponibilizadas são uma forma de agradecimento por eles nos proporcionarem uma vida tão boa, são como flores para a namorada.

!ObaOba: Aproveitando que estamos falando de Internet, a cada disco vocês lançam um site diferente. Por que essa estratégia?
Alexandre: Por que a gente não conseguiria continuar com a banda fazendo sempre as mesmas coisas. A gente tem sempre que inventar algo, é isso que estimula a gente.

!ObaOba: Ao longo desses 14 anos de carreira, vocês notaram algum tipo de diferença no público da banda?
Alexandre: Sim, mas não no perfil, pois esse é o mesmo de sempre, gente de todo tipo. Agora, nos shows, a gente percebe que está rolando uma renovação. É legal ver aquela expressão de "primeiro show da minha vida" nos rostos das pessoas, renova a gente também. É a geração do Quero Ser Feliz Também, do Reggae Power, do Raçaman... O pessoal do "Beija-flor" gosta de ficar lá atrás tomando uma cervejinha (risos).

!ObaOba: Vocês já chegaram onde queriam chegar?
Alexandre: Na real, a gente não sabe direito aonde a gente quer chegar. Então vamos tentando nos divertir.

!ObaOba: Quais os próximos passos da banda?
Alexandre: Um de cada vez. Iremos lançar esse disco e nos divertir.

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