"Greetings in the name of His Imperial Majesty, Jah Rastafari-I", a saudação veio, clamorosa e sentimental como sempre. Mas Bob Marley não estava lá; era uma gravação que prenunciava o triste pastiche de si próprios que são hoje The Wailers. Como marido traído, último a saber, este repórter - fã declarado da banda, como não nega cabeleira rasta - relutava em acreditar que a antiga banda de Bob Marley é, há pra lá de duas décadas, um cover triste e nostálgico.
Dessa vez, até cego viu. O Espaço das Américas se encheu de jovens, ávidos por ter um gostinho do que um dia foi o maior grupo de reggae de todos os tempos. É fato que ninguém é ingênuo a ponto de acreditar que veríamos o furacão que saiu de uma ilha miserável no Caribe para conquistar o mundo. Mesmo assim, queriam todos ouvir clássicos como "Get Up, Stand Up", "Exodus", "No Woman No Cry" e "Rebel Music", nas cordas do Fender Bass de seu arranjador original, Aston "Familyman" Barret, acompanhado do melhor time de reggae hoje existente. Bom, que o arranjador era o original, disso não restam dúvidas: o show repetiu, com incrível precisão, o álbum
Exodus. Na íntegra, igualzinho, sem tirar nem por.
Nada mais chato. Quem vai a um show quer ser absorvido por uma atmosfera musical, quer se deleitar com o virtuosismo de grandes músicos, freado em estúdio por planos comerciais das gravadoras. Quem vai a um show quer ver a música brotar. Ninguém precisa sair de casa para ouvir um CD. Os Wailers deram ao público paulista a péssima experiência de ouvir um disco inteiro em uma pista de show.
Mas se assim foi - tirando o bis que deu uma breve variada, sem nunca sair da mesmice - o set do que um dia foi a banda de Bob Marley suscita uma pergunta: por que
Exodus? Alguém poderia dizer que é uma comemoração retardatária dos 30 anos do disco, completados em 2007. Mas por que fazê-lo agora, se há dois anos, a banda esteve aqui e apresentou um repertório sólido e variado? Em 2004, em entrevista a este mesmo repórter, o band leader Aston Barret disse: "
Exodus foi eleito o álbum do século pela revista Time; é eterno, assim como a música e sua mensagem". Tudo bem, Familyman. Mas, depois deste domingo, arriscaria tese menos romântica:
Exodus foi o carro chefe comercial de Bob Marley & The Wailers, com mais de um milhão de cópias vendidas; entrou para o Top 200 da
Rolling Stone; foi considerado um dos mais importantes da história; teve quatro singles entre os Top 40 da Billboard.
Exodus foi a fórmula de sucesso comercial da banda. Detalhe: há trinta anos!
De Exodus para cá, caiu o muro de Berlim, boa parte da África conquistou sua independência, aconteceram atentados terroristas de larga escala, minguaram as guerras ideológicas, floresceram guerras de mercado, fortaleceram-se conflitos religiosos; foi eleito um presidente negro nos Estados Unidos. Nos últimos 30 anos, onde estiveram os Wailers, notórios cronistas políticos e religiosos dos anos 70? A triste resposta saltou aos olhos neste domingo: remoendo os restos mortais de Bob Marley.
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