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UM COMPLETO MALANDRO
Por Iraê Carlovich
"Dizem que sou malandro, cantor de bandido e até revoltado,
porque canto a realidade de um povo faminto e marginalizado".
A frase faz parte da canção Partideiro Sem Nó
Na Garganta, do pernambucano José Bezerra da Silva, um dos
maiores nomes do samba, que faleceu aos 77 aos, no último dia
17, no Rio de Janeiro. O cantor e compositor morreu devido a problemas
pulmonares. Bezerra já enfrentava problemas de saúde
desde outubro de 2004, data em que se iniciou a internação
e que terminou com sua morte.
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Nascido
em Recife, em 9 de março de 1938, Bezerra da Silva se tornou
um ícone no país por seus sambas que retratam o dia-a-dia
miserável e cruel de grande parte da população
brasileira. Podemos dizer que Bezerra da Silva já cantava o
hip hop antes mesmo do movimento se tornar conhecido, por aqui.
Aos 15 anos, o compositor abandonou sua cidade e foi para o Rio de
Janeiro em busca de oportunidades que lhe propiciassem uma vida melhor.
Em Recife, chegou a passar fome e levava uma vida miserável.
Ele chegou a cidade maravilhosa escondido num navio que levava carregamentos
de açúcar.
Antes de iniciar na música, Bezerra trabalhou como pintor de
parede em uma construção civil no centro do Rio de Janeiro.
Somente, depois, mudou-se para o morro de Cantagalo.
Sua primeira inspiração na música foram os cocos,
estilo muito difundido por Jackson do Pandeiro. Assim, Bezerra tentou,
sem sucesso, lançar alguns cocos de sua autoria.
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Ele
tocava percussão desde criança e graças a sua
participação em um bloco carnavalesco, foi chamado para
trabalhar na Rádio Clube do Brasil, e a partir daí passou
a trabalhar como compositor. Em 1969 lançou seu primeiro compacto,
e seis anos depois chegava às lojas o seu primeiro LP.
Bezerra da Silva também ficou conhecido por ser um dos únicos
"partideiros" do samba que realmente estudou música.
Ele passou 08 anos nas aulas de violão. Depois disso, também
passou o mesmo tempo como músico da orquestra da Rede Globo.
Suas músicas, na maioria, eram compostas em parcerias com seus
amigos sambistas de longa data. A maioria deles não eram conhecidos
do grande público e, de modo simples, cantavam a vida miserável
no Brasil, e como os malandros tinham de se virar no país do
Carnaval.
Entre grandes sucessos da carreira de Bezerra da Silva, estão
sambas como Candidato Caô Caô, Malandro não Vacila
e Pai Véio 171.
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Além
de porta-voz dos sambistas, da galera do hip hop e da população
de baixa-renda, Bezerra da Silva também é muito respeitado
e idolatrado no meio artístico. Não eram raras suas
apresentações no Vídeo Music Brasil, realizado
pela MTV, onde chegou a cantar com artistas, como Marcelo D2 e Barão
Vermelho, com quem regravou, em formato rock´n´roll, seu
sucesso Malandragem Dá Um Tempo. Outro fã assumido do
sambista é o vocalista da banda O Rappa, Falcão.
Entre discos de estúdio, coletâneas e projetos ao vivo,
Bezerra da Silva conta com 27 álbuns em sua carreira. Além
disso, em 1998, virou também o conteúdo do livro Bezerra
da Silva - Produto do Morro, de Letícia Vianna. Nele, a autora
analisa os sambas do compositor e também os aspectos sociais
de sua obra, tendo como contraponto a vida e obra de Luiz Gonzaga.
Certamente, falar de Bezerra da Silva e sua carreira musical é
bastante gratificante, e se estender nas obras desse malandro é
embarcar no universo mais marcante do típico brasileiro. Veja
a seleção de discos que fizemos de Bezerra. Fica aqui
esta pequena homenagem prestada pelo !ObaOba a um dos maiores sambistas
da música popular brasileira. Vá em paz, malandro Bezerra!
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