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Histórias de Cemitério
 Por Danielle L. Sanches


Vingança Póstuma


O laudo médico apontava que o marido de Raimunda morrera de "colapso cárdio-respiratório causado por insuficência vascular". Ataque do coração. Homem de meia-idade, sedentário, alcoólatra e descuidado com a alimentação: o diagnóstico já era mais ou menos esperado.

O velório e o enterro foram marcados para o domingo à tarde, no cemitério do Araçá, no bairro do Pacaembu. O luxo do lugar não condizia com a parca situação financeira da família. O jazigo, herança de tempos melhores, pertencera ao avô do marido de Raimunda.

Na capela do velório estavam apenas o corpo no caixão, Raimunda e o coveiro Osmair Camargo Candido, conhecido pelos amigos como "Fininho". Sem flores, sem velas e sem amigos. O defunto não era muito popular entre os vizinhos. Algumas tias, avisadas por Raimunda do falecimento do sobrinho, preferiram não comparecer.

Para o coveiro Osmair, aquela era apenas mais uma cena da rotina de quase vinte anos pelos cemitérios de São Paulo. Perguntou a Raimunda:

- A senhora quer sepultar agora?

Raimunda não sabia bem o que fazer, e respondeu:

- Ainda não, espera um pouco, por favor.

Osmair resignou-se enquanto aguardava a autorização daquela senhora de meia idade para empurrar o carrinho com o caixão até a sepultura. Meia hora, uma hora, duas horas, e nada de decisão. Por fim, ouviu a mulher dizer:

- Moço, o senhor se importa se eu subir no caixão pra mijar na cara dele? Aquilo era novo. Como coveiro, Osmair já vira quase todas as situações possíveis num cemitério. Mas uma mulher pedindo para urinar no rosto do marido morto era algo totalmente inusitado. Resolveu apenas cumprir o seu dever:

- Minha senhora, não posso sair do lado do corpo durante o velório.

Raimunda, que ainda não entendia direito o motivo daquela vontade súbita, insistiu:

- Não precisa sair, ué! Nunca viu ninguém mijando?

- Já vi, sim. Mas evito sempre que posso - respondeu o coveiro.

- Então é só virar de costas. Não precisa olhar - ponderou Raimunda.

Osmair tinha sua própria ética profissional. Desde que o dever estivesse sendo cumprido, não interferia nas vontades dos parentes dos mortos. A princípio, ele não se lembrava de nenhuma restrição quanto a "urinar no rosto de defuntos". Consentiu:

- Tudo bem, vá enfrente. Mas cuidado pra não sujar o chão.

Raimunda estava de vestido. Tirou a calcinha e a deixou de lado. Começou a subir por um dos apoios de ferro que sustentavam o peso do caixão. Quando terminou a escalada, passou a perna por cima do corpo do marido, ficando de cócoras sobre o rosto dele.

Levantou a parte inferior do vestido e urinou. Enquanto o líquido batia no rosto do morto e escorria pela gola da camisa, Raimunda ria até as lágrimas. Sentia-se vingada, como se aquele ato representasse o expurgo de todos os anos de sofrimento que passou nas mãos daquele homem. Balbuciava, ainda sobre o rosto do marido:

- Te peguei agora, desgraçado. Te peguei.

Quando Raimunda terminou, o coveiro Osmair, que não deixou de assistir à cena, apenas perguntou:

- Posso levar o corpo agora?

- Sim, leva esse traste daqui. Sabia que ele estrupou a própria filha? - perguntou Raimunda.

Osmair não respondeu nada. Tampou o caixão e o empurrou pela alameda que levava até a parte baixa do cemitério, onde foi feito o sepultamento, que nem mesmo Raimunda acompanhou.

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