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Entre chuteiras e batons
Jogadoras X Preconceito
Do Brasil, para o mundo
Bate Bola


A visão de quem trabalha pelo esporte


Uma mulher de 42 anos de idade e uma história de paixão pelo futebol. Assim é a vida de Márcia Oliveira, ex-jogadora e atualmente treinadora do time da Sam Houston State University, nos Estados Unidos.

Márcia Oliveira

A técnica que quebrou as barreiras da visão machista no futebol conta um pouco sobre a sua vida de treinadora e a rotina diária nos gramados norte-americanos.

!ObaOba - Como você deu início à sua carreira de técnica?

Márcia Oliveira - "Quando parei para analisar um jogo, veio esta vontade e a certeza enorme que a minha missão estava em ser técnica. A parti daí percorri um longo caminho, dando aulas voluntárias em escolinhas, time de basquete do exército americano, academias de clínicas de verão futebolistícas e, enfim, meu primeiro emprego como técnica profissional no time universitário da University of Mary Hardin-Baylor (UMHB), onde me formei em Psicologia e Educação Física".


!ObaOba - Como surgiu essa oportunidade?

MO - "Depois de me formar em Bacharelado (Bachelor's of Science in Psychology and Physical Education) e completar o mestrado (Master in Physical Education - Pedagogy), fui convidada pela minha ex-técnica para fazer uma entrevista de emprego na Universidade que joguei e completei meus estudos (UMHB). Após 3 anos com o time da UMHB, em 2002, fui convidada para outra entrevista de emprego no Sam Houston State University (SHSU), na qual estou até hoje".


!ObaOba - Qual foi sua maior conquista com o futebol feminino?

MO - "Levei o primeiro time em que atuei à rodada das finais da conferência de 2001. E levei meu atual time (SHSU) às finais da conferência em 2005".

"A maior conquista simbólica foi o fato de trazer para os EUA, em 2004, a seleção brasileira principal feminina para amistosos de preparação olímpica. Depois das olimpíadas, recebi os cumprimentos do técnico Rene Simões, por ter feito parte da conquista da medalha de prata, graças à minha ajuda inicial na preparação. Me sinto feliz, porque pude ajudar e ser reconhecida".


!ObaOba - Qual a diferença entre os treinamentos masculinos e femininos?

MO - "Em termos de sabedoria e conhecimento, no esporte não existe diferença. O fator importante é que mulheres têm a parte física, psicológica, e estilos diferentes. O verdadeiro e capacitado profissional deve conhecer essas diferenças e saber usá-las de forma correta".


!ObaOba - Qual a diferença entre as equipes brasileiras e norte-americanas?

MO - "A estrutura brasileira é desorganizada, pouco planejada, e muitas vezes não se dá continuidade e manutenção. Nos Estados Unidos é oposto. Hoje, meninas entre 8 e 10 anos já jogam futebol e usam chuteiras. O país tem o maior número de adolescentes meninos e meninas jogando futebol".


!ObaOba - Você acha que o bom resultado da seleção nas Olimpíadas favoreceu o surgimento de novos talentos no futebol feminino brasileiro?

MO - "Com certeza. Hoje muitas atletas adolescentes acreditam que o sonho pode ser alcançado. As barreiras ainda são fortes, mas a esperança e a vontade é maior".


!ObaOba - Você acha que ainda existe preconceito quanto ao futebol feminino no país?

MO - "Existe e sempre vai existir. Hoje é bem menos que na minha época. Países como o Brasil com uma cultura voltada ao machismo e a pré-concepção de que mulheres são criadas com uma vida já determinada (cresce, casa e têm filhos) é predominante". As mulheres que ousam sair da "norma" são vistas como atrevidas e masculinas. O fato é que no século 21, e com recursos muito melhores para conquista de "um lugar ao sol", todos (homens e mulheres) têm direitos de sonhar e ser o que bem entender, querem buscar a felicidade".


!ObaOba - Como você prevê o futuro do esporte em nosso país?

MO - "O esporte é um fator fundamental em qualquer sociedade. Vejo o Brasil com muitos talentos que muitas vezes são inigualáveis, pois em nenhum lugar do mundo se faz esporte e se leva a vida com tanta alegria e ginga. O Brasil é talento, o Brasil é estilo, o Brasil é paixao pela vida. O futuro a Deus pertence, mas com mais profissionalismo e seriedade poderemos ser uma real potência esportiva".