FUNK EM NÚMEROS
O poder do funk pode ser comprovado também em números. No começo de março, por exemplo, a música-chiclete "Ela só pensa em beijar", de MC Leozinho, foi a mais pedida nas rádios paulistas. A letra de Leozinho tem cerca de 90 execuções diárias nas rádios de São Paulo. Só o programa "Big Mix", comandado pelo DJ Marlboro na rádio O Dia FM, tem mais de 410 mil ouvintes por minuto. O álbum "Funk Brasil - Bem Funk" (Som Livre), que reúne os principais sucessos do gênero, alcançou a marca de 100 mil cópias. "Ela só pensa em beijar" é ainda a mais requisitada para download de toques para celular. Segundo uma empresa de telefonia, os funks correspondem a 15% dos mais de três milhões de músicas procuradas em seu banco de dados.
MC Leozinho não deslumbra o seu sucesso, e acha estranho tocar para a galera de poder aquisitivo maior: "É engraçado, porque quando você começa a fazer funk, sabe que o seu destino é tocar nos bailes e em rádios segmentadas. De repente, o negócio sai do controle e você está fazendo show no Pará. Imagina que eu fui contratado para fazer show numa festa da filha de um bacana lá...", comenta o artista, que também foi chamado para se apresentar na luxuosa loja Daslu.
Alguns adeptos do estilo têm a mesma visão crítica com relação à febre. "Eu amo funk há muito tempo, mas acredito que este estouro que o funk deu, tocando em boates e em lugares caros, é só modismo. Daqui a pouco passa", afirma a estudante de artes cênicas Pâmela Côto, 22. Mesmo assim, ela dá outra pista que pode explicar tamanha popularização: "Quem consegue ficar parado ao som do funk?", indaga.
Contrariando tudo isso, a maioria dos freqüentadores das festas funks de elite acha que o ritmo veio para ficar. Estudante de uma das faculdades mais nobres do Rio de Janeiro, a PUC, Mariana Costantini, 18, diz que se aventurou por bailes na cidade e ficou bastante empolgada com sua ida ao Castelo das Pedras. "O funk é empolgante, ninguém consegue ficar parado. Tem tudo para invadir cada vez mais a elite".
Rafael Brahma, 22, é um dos produtores mais bem sucedidos do mercado, ele acredita que o funk vai se estabilizar assim como foi o hip hop paulista. "Este modismo vai passar, mas o funk vai ficar. Com o hip hop também foi assim. Antes só tocava em lugares específicos e hoje não há festa sem ele", comenta.
Há dois anos, Brahma produziu uma balada no Hard Rock Café. Sua idéia era reviver ritmos de sucesso. Juntando esta idéia com os preços baixos dos DJs, surgiu a festa "Duelo de Ritmos", que confrontava o Marlboro com algum DJ de axé. "Naquela época contratar o Marlboro era bem mais barato. Hoje em dia, para algum baile do subúrbio contratá-lo, é necessário muita grana", revela. Atualmente, Brahma é responsável pelos "Ensaios do DJ Marlboro", que lotam o Hard Rock, além da "Funk Hop", na Baronneti, e da "Noite dos MCs", na Bombar. "A playboyzada vai em peso para estas festas. Ninguém resiste às batidas do funk".
A febre do funk é tamanha, que está invadindo várias casas de renome e que tinham outra proposta musical. Um exemplo é o Circo Voador, que antes era visto como o celeiro do rock nacional e atualmente está consolidado como um espaço democrático. Grande parte do público que vai prestigiar a banda Orquestra Imperial, é fã dos pancadões de Marlboro nos intervalos.
Músicos de diferentes estilos musicais também estão aderindo ao funk. O cantor Caetano Veloso, em entrevista à revista "Bravo!", deixou claro sua opinião sobre o ritmo: "o funk carioca é uma coisa de grande importância. No Brasil, que é um país de elite pequena, a pessoa tem medo, tem vergonha de se misturar com o negócio que vem 'de baixo'".
Fernanda Abreu, grande defensora e uma das artistas que mais difunde o ritmo, diz que o funk carioca está além da moda. "Existe nas favelas, nos subúrbios, nos guetos. É uma espécie de ponte entre as 'cidades partidas': zonas ricas/ zonas pobres."
Sem querer achar as razões do modismo ou ainda fazer previsões quanto à longevidade, DJ Marlboro finaliza com uma frase que acredita ser o resumo da alma funkeira: "Só espero que, com a evolução, o gênero não perca a essência. A integração entre morro e asfalto é essencial".
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