!ObaOba - Para começar, qual a analise da situação do eleitor, depois da crise do governo atual? Você acredita que o eleitor está mais descrente?
Vina: A posição do eleitor depois desta crise é somente uma: ele deve votar. Em nosso país, a lei obriga o voto. E também, aqui nós não temos essa opção de anular o mandato de um político. O que aconteceu com o governo Lula foi desmascarado agora, mas essa prática vem acontecendo há muito tempo e ficou muito mais forte a partir da ditadura, em que houve a criação de políticos com liberdade total para praticar a corrupção e a patrulha ideológica. Muitos deles ainda continuam na política com a mesma prática e com tudo isso, de certa forma o pensamento não mudou.
Lúcia: Depois desta crise do governo, o que surge de novo é uma sensação de descrença na política. O que nós vemos na prática é um eleitor mais crítico e mais informado. A população brasileira está aprendendo a fazer o uso da democracia e do voto. As pesquisas demonstram que toda essa crise que surgiu não conseguiu convencer a população, pelo fato de nunca ter sido provada a vinculação dele (Lula) com o que aconteceu. Eu acho que a população acreditou nisso e conseguiu abstrair essa questão da corrupção.
Júlia: Eu acho que o Lula tem mais votos na grande maioria pelo povo nordestino, pelo fato de terem sido beneficiados com o programa "Bolsa Família". Algumas pessoas devem ter uma noção do que aconteceu no governo dele, mas como é interessante para eles esse programa, a aceitação é maior. O que acaba acontecendo é a questão do "rouba, mas faz".
Eduardo: Eu acho que em 2002, quando o Lula foi eleito, ele era uma grande esperança, até quem não queria que ele ganhasse se cativou e passou a acreditar em um Brasil melhor. Com o decorrer do tempo, nada mudou. O que falta nas pessoas é um amadurecimento para votar e saber exigir do eleito o que de fato ele prometeu.
!ObaOba - Qual é a opinião a respeito dos eleitores que votam apenas para um outro não ser eleito?
Eduardo: Eu acho que isso está muito mais explícito hoje e acontece em função da descrença na política. As pessoas fazem isso em forma de protesto, isso só mostra como a democracia é defasada. Tudo acontece por que as pessoas não têm conhecimento e competência para votar ou será por falta de opção? Esta é a grande pergunta. É muito fácil a gente defender a democracia e o direito ao voto, sendo que a própria democracia que está em questão e não te dá opções.
Lúcia: Eu acho que o Eduardo colocou uma coisa interessante que é o fato de a democracia forçar as pessoas a votarem e terem que fazer uma opção entre o leque apresentado e, este leque, nunca é muito amplo. O processo de democracia no Brasil impõe uma série de limitações, como partidos sem dinheiro que não conseguem fazer campanha, candidatos sem partido forte que não conseguem aparecer para a população e não conseguem surgir enquanto alternativa.
Vina: Esse processo de você votar em um para que o outro não ganhe está mais relacionado ao executivo. Se isso está acontecendo no Brasil, é porque estamos mal e precisamos de uma mudança na legislação eleitoral. De repente, é importante que todos os votos sejam colocados, talvez o parlamentarismo. A participação popular deve estar prevista, mas ela deve ser incentivada. Talvez não precisasse nem mudar, se os que realmente estão aí fizessem uma certa força para empurrar a população para uma participação constante.
!ObaOba - Qual a sugestão para esta mudança?
Lúcia: Eu defendo uma ruptura, defendo a revolução socialista. Mas essa mudança pode acontecer de várias formas, porém não vai acontecer por meio do voto, com este ciclo que essa democracia já construiu. O Brasil deve criar seu próprio modelo. Não podemos e nem precisamos imitar o que aconteceu em Cuba e na ex-URSS, eu penso que o povo brasileiro deve construir um processo que garanta com que o povo governe o país e isso não é conseguido pela democracia burguesa.
!ObaOba - Quem vota aos 16 tem consciência?
Júlia: Eu acho que a grande maioria não tem consciência e não é suficientemente madura para fazer essa escolha.
Lúcia: Eu acho que o voto aos 16 seria um problema se fosse obrigatório, principalmente porque o sistema educacional é falho. Mas eu acho que o voto opcional aos 16 anos foi uma conquista sobre a qual a gente não pode reclamar. O jovem que vai tirar seu título de eleitor encontra uma série de dificuldades como documentos e fila, o que só demonstra a real vontade de participar e dar sua opinião, seja ela qual for.
Vina: Mas a educação não é lá essas coisas há muito tempo. Portanto, tanto faz o cara tirar aos 16 ou aos 30, porque de qualquer jeito ele vai ter que tirar. Se ele não teve uma boa formação quando criança ou adolescente, não difere muito do voto dele aos 28. Mas, eu concordo que deve haver estímulos e uma educação melhor.
!ObaOba - Júlia, como exemplo, quando você fez 16 anos resolveu votar não é?
Julia: Eu tirei o título, mas a primeira vez que eu votei foi no plebiscito das armas.
!ObaOba - Mas ai você sentiu um incentivo de ir lá votar?
Julia: Não é questão de incentivo ou não, é que eu sempre gostei de ser participativa. Não foi pelo horário político em si, porque se fosse qualquer outra coisa eu estaria lá.
Continua >>
Introdução
Página 3
Página 4
Página 5
Página 6
Página 7