Confira abaixo a entrevista feita com Victor M. S. Z. de 22 anos, que foi internado três vezes em clínicas de reabilitação e psiquiatria no período de três anos.
!ObaOba - Você ainda freqüenta o N.A.?
Victor M. S. Z.: Eu freqüentei por muito tempo o N.A. e hoje em dia não freqüento mais. Só que isso não significa que eu parei meu tratamento. Um dependente químico vai ser dependente químico pro resto da vida dele. Não que "uma vez drogado sempre drogado", existem várias pessoas no mundo que estão ai pra provar que tem cura e que esse lance de que não tem cura é só mais um preconceito. Hoje eu estou exercendo mais o meu lado espiritual.
!ObaOba - Então você freqüenta alguma Igreja?
Victor M. S. Z.:N ão. Freqüento o Alan Kardec. Sou Kardecista. E isso tem me ajudado muito. É outra filosofia de vida.
!ObaOba - Como você vê esta instituição? No que ela ajudou no seu tratamento?
Victor M. S. Z.: O N.A. não é nada mais do que uma filosofia de vida. É uma mudança de hábitos e de pensamentos que, no meu caso, foram esquecidos e reapareceram. Lá eles têm um lema: "só não recai quem não pratica". Então você tem que seguir todos os passos, os doze. O primeiro é admitir que você não consegue se controlar sozinho e que tem que passar por cima do seu orgulho. Você tem que admitir que precisa de ajuda.
!ObaOba - Conte um pouco como você começou a usar drogas.
Victor M. S. Z.: Atualmente eu estou com 22 anos. Comecei a usar drogas com 15, no álcool e na maconha. Andava com um pessoal que bebia - e até então eu não sabia que eles usavam - e achei aquilo tudo novo pra mim. Quando eu descobri que eles fumavam maconha, me bateu a curiosidade de saber como era, qual era o barato. Logo que experimentei, gostei, e no outro dia quis de novo.
!ObaOba - Quando você começou a se sentir dependente?
Victor M. S. Z.: Eu fiquei uns dois anos fumando maconha direto, o dia inteiro. Tanto que eu perdi aula na escola, repeti o ano, e minha mãe chegou a me buscar na delegacia. A questão é que a maconha abre a porta para outras drogas, ela é nada mais nada menos que um portal pras drogas mais fortes. Com 17 anos eu experimentei a cocaína, também gostei e, como ela tem um poder bem maior, foi rapidinho para eu ficar viciado.
!ObaOba - Seu círculo de amizades sempre foi o mesmo antes de usar drogas?
Victor M. S. Z.: Sempre foi o mesmo. Posso dizer que a gente entrou junto. A galera foi entrando junto. Um ou outro experimentou e foi falando pro outro. Eu já estava naquele mundo, no meio daquelas pessoas, porque quando você começa a usar, o seu círculo de amizades se resume a isso. Então você acha que as pessoas "caretas" (hoje eles falam isso - que eu sou careta - mas eu acho que é graças a Deus) não servem pra você.
!ObaOba - Até que idade você usou cocaína?
Victor M. S. Z.: Até os 21 mais ou menos. Depois da cocaína, eu conheci o crack, que foi o terror da minha vida. Quando comecei a usar o crack, parei com todas as outras drogas. Parei de fumar maconha e parei de usar cocaína. Só usava crack e só queria saber disso. Usei até meus 21 anos e foi quando eu tive a minha primeira internação.
!ObaOba - Qual foi a droga que mais te prejudicou?
Victor M. S. Z.: O crack com certeza.
!ObaOba - O que você fazia que deixou de fazer?
Victor M. S. Z.:Eu estudava, sempre fui um garoto muito inteligente, sempre tirei notas ótimas, eu sempre gostei de estudar. Em função disso (do vício), comecei a não ir mais pra escola, parei de estudar, repeti o ano, abandonei os estudos - esse ano eu vou fazer supletivo pra terminar o segundo grau - e cheguei a faltar várias vezes no serviço. Tinha um relacionamento de quatro anos com uma garota, que eu conheci aos 16, e terminamos por causa do meu vício.
!ObaOba - Sua namorada sabia que você era dependente químico?
Victor M. S. Z.:Quando ela me conheceu, ela sabia que eu fumava maconha. Só que eu falava pra ela que era só de vez em quando e que eu ia parar. Eu tentava esconder dela, só que quando eu conheci o crack, foi difícil de esconder.
!ObaOba - Então todo esse tempo que você usou cocaína ela não sabia?
Victor M. S. Z.:Não. Eu escondia dela. Ela desconfiava e nós brigávamos muito por causa disso, mas eu negava até o último segundo. Eu não queria que ela soubesse porque ela já tinha um irmão que usava e o pai dela era alcoólatra. Eu deixava de fazer coisas com ela pra ir usar drogas.
!ObaOba - Como o quê?
Victor M. S. Z.: Uma vez tava chegando o Dia dos Namorados e eu falei pra ela "Nossa, nesse Dia dos Namorados eu quero te dar um presente maravilhoso". Chegando perto da data, eu recebi meu salário e gastei todo o dinheiro com drogas. No dia, ela veio com um presente para mim e eu de mãos vazias e falei que não tinha nenhum presente para dar pra ela. Foi quando ela e minha família começaram a desconfiar que eu usava drogas.
!ObaOba - O que você fazia pra conseguir dinheiro pra poder comprar drogas?
Victor M. S. Z.: Eu comecei a roubar dentro de casa, comecei a pegar cartão de crédito, roubar dinheiro da carteira, vender coisas do meu pai e da minha mãe, minhas coisas também. Vendia muita coisa de casa. Cheguei a roubar a TV e o DVD da minha irmã pra levar na boca.
!ObaOba - Em qual momento você percebeu que estava dependente e que precisava de ajuda?
Victor M. S. Z.: É difícil. Foi difícil eu admitir. Saber eu sabia que precisava de ajuda. Quando eu comecei a roubar dinheiro e a vender coisas de casa eu sabia que precisava de ajuda. Eu só admiti quando minha namorada me largou depois de quatro anos de relacionamento. Eu falava que ia parar, só que sempre quebrava a confiança dela, nunca cumpria. Mesmo quando ela me deu um ultimato. Ela chegou a olhar nos meus olhos, dizer que me amava, mas que não podia mais ficar comigo porque não confiava mais em mim. Foi nesse momento que eu vi que precisava de ajuda.
!ObaOba - Você foi buscar ajuda em quem?
Victor M. S. Z.: Família, a primeira coisa. Falei que precisava me internar. Nessa época eu estava prestes a fazer 21 anos.
!ObaOba - Como foi a conversa com os seus pais?
Victor M. S. Z.:Não foi nem conversa, foi ataque (risos). Pô, eu já tinha perdido ela, tinha faltado no serviço. Então, eu só chorava, chorava desesperadamente. Pedia pro meu pai e pra minha mãe me internarem naquele dia mesmo, o mais rápido possível, porque eu não agüentava mais perder as coisas nem viver nesse mundo de trevas, ilusões e perdas. Procuramos um monte de clínicas, achei uma e me internei. Fiquei seis meses internado em uma clínica em Jundiaí. Lá eu tive a primeira relação com o NA.
!ObaOba - Depois dos seis meses internado você já estava "limpo"?
Victor M. S. Z.: Eu fiquei um mês limpo e recaí porque eu não pratiquei a filosofia do Narcóticos Anônimos. Aliás, não foi recaída, eu voltei a usar mesmo. Porque recaída é quando você já está de pé. Eu nem estava recuperado ainda. Na verdade não existe recuperado. Por mais que ele esteja há anos "limpo", ele nunca vai estar curado. Isso é uma doença mental, física e psicológica. Não existe cura, existe o estacionamento dela, só que ela vai continuar dentro de você.
No NA, eles falam pra a gente evitar hábitos, lugares e pessoas do período anterior à internação. E eu fiz tudo ao contrário do que eles falavam. Eu retornei a ir a lugares que eu ia, a ver pessoas que faziam parte do meu grupo, retomei hábitos antigos meus. Então, é óbvio que eu ia voltar a usar.
!ObaOba - Por que você voltou a conviver com estas pessoas?
Victor M. S. Z.: Ou insanidade ou burrice. Insanidade é você repetir uma coisa esperando um resultado diferente. Eu queria repetir aquilo achando que ia obter um resultado diferente. Eu queria me testar tipo assim: "agora eu já to bem e posso voltar a ver o pessoal e conseguir ficar sem usar". Só que isso é impossível pra um dependente químico.
!ObaOba - Dizem que as drogas são capazes de nos levar a um processo interno e de auto-conhecimento. Como você vê esta afirmação? Você concorda?
Victor M. S. Z.: É uma forma de fuga. Pra mim foi uma fuga. Antes de ser um dependente químico eu sou um dependente emocional. Todos são assim, já nascem com o lado emocional instável ou abalado.
!ObaOba - Mas você acha que o uso esporádico disso também pode causar algum problema? Você não acha que estas pessoas que têm o lado emocional abalado utilizam as drogas para tentar suprir esse lado que está mais fraco? Já as que são fortes têm menos probabilidades pra ser dependentes?
Victor M. S. Z.: Conheço muitas pessoas que usam maconha, que tem sua vida social, que são pais de família, que não deixam faltar comida em casa, que trabalham, mas isso acontece porque eles não nasceram com essa doença. A dependência química ou alcoólica é uma doença que a gente costuma chamar de Adicção. Essa palavra vem do latim adict (escravo). Em português quer dizer "escravo de", que dizer que você é escravo de alguma coisa. Pra não falar viciado, pra não falar drogado.
!ObaOba - Mesmo tendo sido uma experiência muito ruim pra sua vida e pra sua saúde, você analisa que tirou alguma coisa de bom destas experiências com as drogas?
Victor M. S. Z.:Muita, muita coisa boa. É até hilário falar isso, né? Se não fossem as drogas, eu não teria conhecido Deus, não teria desenvolvido meu lado espiritual, meu caráter. Também não teria conhecido exemplos de pessoas que são vitoriosas, daquelas que você pode olhar na rua e não vai dar nada pra ela, mas que é um ser vitorioso. Ela pode não ter uma faculdade, mas ela é vencedora pelo que já passou.
!ObaOba - Você se sente assim?
Victor M. S. Z.:Eu vi muita coisa nessas minhas três internações e aprendi muito. Sei que eu não tenho ainda um diploma universitário, mas eu posso dizer que tenho um pedaço do diploma da vida. É um pedacinho, até porque eu tenho só 22 anos, mas aprendi que eu era um cara muito orgulhoso. Não que eu não seja mais, mas mudei muito.
Aprendi também que nós somos eternos aprendizes, não importa a idade que a pessoa tem, nem quantas faculdades, nem o que ela faz ou fez. Por isso, eu aprendi que a humildade é muito importante para darmos valor pra muitas coisas.
!ObaOba - Como o quê?
Victor M. S. Z.: Um abraço da minha mãe, do meu pai, da minha irmã. A ter uma cama, um teto, um chuveiro pra tomar banho, um prato de comida. Antes eu também não dava valor às pessoas que estavam a minha volta. E você só dá valor pra essas coisas quando vê que vai perder.
!ObaOba - Seus pais te apoiaram na internação?
Victor M. S. Z.: Não foram eles que me internaram, fui eu. A decisão foi minha, mas com a ajuda deles, claro.
!ObaOba - Mas eles ficaram do seu lado?
Victor M. S. Z.: Sim. Todas as vezes. Foram me visitar as três vezes em que estive internado. Mas, além da família, não espere isso de mais ninguém.
!ObaOba - Você diz isso porque se decepcionou com as pessoas?
Victor M. S. Z.: Não diria decepcionado, porque aí eu estaria julgando. Não sei se eu tivesse do lado oposto teria feito a mesma coisa, se eu teria ido visitar. É muito difícil falar sobre isso, mas dá pra ver quem é quem. Mas não é por isso que hoje eu as menosprezo. Não. Cada um tem os seus motivos, cada um tem sua vida, ninguém tem a obrigação de ir lá me visitar. Mas também os poucos amigos que eu tinha usavam drogas, então o que pessoas que usam drogas vão fazer em uma clínica de reabilitação? Nada, né?
!ObaOba - Depois da primeira internação como você reagiu quando saiu da clínica?
Victor M. S. Z.: Eu recaí e no mesmo dia já pedi pra ser internado novamente. Pedi ajuda pro meu pai e fomos a uma clínica em Bragança Paulista. Lá eu fiquei durante sete meses internado. Sete meses maçantes.
!ObaOba - Como foi sua internação na segunda clínica?
Victor M. S. Z.: Cheguei a arrumar a minha mala pra ir embora várias vezes porque eu não agüentava mais ficar lá dentro. Mas foram sete meses que fizeram muito bem pra mim. Foi muito melhor do que aqueles seis primeiros meses que eu fiquei na outra, só que foi muito mais difícil, ao mesmo tempo.
!ObaOba - E por que você voltou a usar quando saiu de novo?
Victor M. S. Z.: Insanidade e orgulho. O segundo passo do NA é "pedimos a Deus que nos devolva a sanidade". Isto é, pedir da forma que cada um compreende o seu Deus. Isso porque no NA não existe um dogma, você acredita no Deus que você quiser, cada um tem o seu Deus, a sua crença. E eu não pratiquei esse segundo ato. O que eles ensinam é que na hora que você tiver vontade de usar, você deve pedir ajuda pra alguém e sair de onde está. Se você não falar pra alguém é pior e é bem capaz que você tenha uma recaída porque guardou aquilo pra si mesmo.
!ObaOba - E quando você voltou a ser internado?
Victor M. S. Z.: Depois da segunda internação, fiquei um mês e oito dias em casa e tive outra recaída. Fui para uma clínica psiquiátrica em Araras, onde passei um mês. Desde então, estou há sete meses "limpo".
!ObaOba - Hoje como funciona seu tratamento
Victor M. S. Z.: A base de remédios e consultas mensais no psiquiatra.
!ObaOba - O que você acha que perdeu com tudo isso?
Victor M. S. Z.: Perdi a confiança dos meus pais. Além disso, com a grana que eu gastei todo esse tempo dava pra ter comprado um carro zero, certeza.
!ObaOba - Na balada, a probabilidade de se usar drogas é bem maior. Você abdicou da vida noturna por causa disso?
Victor M. S. Z.: Não. Eu saio, normalmente. Bebo meu refrigerante, meu suco, fico numa boa. Mas não chego nem perto de bebida alcoólica. Saio sempre de balada, só num curto rave porque lá se concentra muita droga, não acho legal. Só de olhar eu já sei quem usa drogas, então nem me aproximo destas pessoas.
!ObaOba - Você acha que há possibilidade de você um dia voltar a beber álcool?
Victor M. S. Z.: Não. A mínima. Não tenho nem vontade.
!ObaOba - Quais são seus planos pro futuro?
Victor M. S. Z.: Eu não costumo falar em "possibilidades" de se fazer alguma coisa, e sim de fatos. No meu caso, vou terminar o supletivo, passar no vestibular e fazer faculdade de medicina. Não é uma coisa que "talvez aconteça". Vou entrar na faculdade com 25, 26 anos? Vou. Mas pra mim não importa. Eu vou fazer e pronto.
Com o tempo, você aprende a guiar a sua própria vida. Eu tenho consciência de que sou o culpado disso tudo que aconteceu, portanto cabe a mim mudar. Passado é passado, o que importa é o que vou fazer a partir daqui.
!ObaOba - O que você acha das propagandas anti-drogas?
Victor M. S. Z.: O usuário até vê e sabe o que pode acontecer com ele a longo prazo se continuar usando drogas, mas ele não se importa. Ele só liga pro prazer que ela oferece e pronto. Portanto, as propagandas anti-drogas não os atingem. Elas podem até servir como forma de prevenção para quem ainda não é dependente, mas para quem já consome é só motivo de risada. Você acha graça do que está vendo, por mais feio ou grave pareça.
!ObaOba - Se você pudesse sugerir algo para os órgãos públicos, o que você falaria?
Victor M. S. Z.: O que deveria ser feito é um investimento nos SUS, como separação das alas de doentes. Lá eles colocam pacientes com necessidades especiais mentais junto com dependentes químicos. Isso é um absurdo porque uma coisa não tem nada a ver com a outra, os tratamentos são diferentes.
!ObaOba - Que recado você deixaria para os adolescentes leitores do !ObaOba?
Victor M. S. Z.: Que ficar careta é muito louco.
Quem procura ajuda pode consultar onde fica o N.A. na sua cidade. Veja o link: http://www.na.org.br/portal/
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