quarta-feira, 03.12


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Entrevista com o psicólogo Marcelo Álvares:

Marcelo Alvares é psicólogo formado pela USP e trabalha na área da dependência química. Iniciou sua carreira cuidando de dependentes de crack, cocaína, anfetaminas e, principalmente, usuários de múltiplas drogas. Hoje atende pessoas com todos os tipos de dependência.

Já passou pela UNIAD - UNIFESP, GREA - FMUSP e CAPS álcool e drogas de São Mateus. Atualmente, atende numa clínica particular e no seu consultório. Apaixonado por música, baladas, psicanálise, artes e pelo trabalho, se esforça para compreender o fenômeno das drogas na vida e abraçar todas as suas paixões ao mesmo tempo.

!ObaOba - Em que estágio uma pessoa pode ser considerada dependentes?
Marcelo Alvares: Uma pessoa pode ser considerada dependente a partir do momento em que ela perde o controle sobre o uso e torna-se compulsiva, aumenta a quantidade gradativamente, o uso deixa de ser uma escolha para ser uma obrigação e, caso interrompa o uso da substância, sente-se desconfortável e mal.

!ObaOba - A internação em clínicas de reabilitação funciona em todos os casos ou há tratamentos alternativos?
Marcelo Alvares :Não. Existem diferentes tipos de tratamento e atenção aos casos de dependência química. Cada caso é um caso.

!ObaOba - Existem casos de pessoas que foram internadas sem estarem necessariamente entregues ao vício? Como por exemplo, no filme "Bicho de Sete Cabeças", em que o personagem interpretado por Rodrigo Santoro é enviado a uma clínica pelo pai por fumar maconha esporadicamente.
Marcelo Alvares:Hoje em dia, a dependência química é muito mais conhecida e estudada. Então, há menos preconceito do que antes. Portanto, um uso esporádico é logo detectado numa triagem de clínicas de internação para, a partir disso, criar-se um plano terapêutico pertinente ao caso. Espero que hoje em dia não se interne mais usuários esporádicos, mas vai saber...

!ObaOba - Uma das dificuldades em relação à família do dependente é a falta de informação?
Marcelo Alvares: Sim, eu diria que é a maior dificuldade e a mais comum. Na verdade, a falta de informações sobre álcool e drogas é um problema em todas as esferas da sociedade: na escola, trabalho, hospitais etc.

!ObaOba - Qual a droga que possui o maior índice de pessoas dependentes?
Marcelo Alvares:Primeiramente, eu me preocuparia com substâncias legais já que 11,2% da população é dependente do álcool e 9%, do tabaco. Bastante gente, não?! E vale ressaltar que 6,9% são dependentes de maconha e 2,3% dependentes de cocaína.

!ObaOba - A droga mais comum e mais fácil de encontrar depois do álcool e do cigarro é a maconha, porém muitos afirmam que ela não vicia. Isto é verdade?
Marcelo Alvares: Não. Maconha causa dependência química sim.

!ObaOba - Existe alguma característica própria ou patológica em uma pessoa que determina que ela vá se viciar ou todos têm a mesma chance?
Marcelo Alvares: Posso afirmar que a dependência química depende de questões genéticas, ambientais e comportamentais que aumentam as chances de uma pessoa tornar-se dependente química. Por exemplo, uma pessoa cuja família tenha grande incidência de alcoólatras, tem mais chances. Uma pessoa cujo ambiente não proporciona lazer e segurança está mais exposta a um uso de drogas em busca de prazer. As pessoas as quais possuem comportamento tímido têm mais chances de abusar de álcool, por exemplo, para se tornarem mais expansivas. Mas vale lembrar que esses fatores atuam juntos.

!ObaOba - Muitos acreditam que o tratamento em clínicas consiste em remédios e por isso esperam que tudo se resolva sem esforços próprios. No caso, o tratamento também necessita da colaboração do dependente?
Marcelo Alvares:Hoje em dia, as boas clínicas não envolvem apenas medicação. Muitas constam com equipes multidisciplinares que atendem pacientes e familiares. Porém, com certeza, a iniciativa e empenho do indivíduo é que define o tratamento. Não há tratamento que funcione sem o consentimento e vontade do indivíduo.

!ObaOba - Como a família pode ajudar no processo de cura?
Marcelo Alvares:A família deve participar, aceitar e discutir as orientações e aceitar fazer parte do tratamento. Isso porque em muitas vezes ela sofre tanto quanto o indivíduo.

!ObaOba - Qual o papel do governo neste processo? Como o problema das drogas poderia ser resolvido no Brasil?
Marcelo Alvares: Acredito que o governo brasileiro deveria investir maciçamente nos CAPS ad (Centro de atenção psicossocial em álcool e drogas) e acreditar mais nas iniciativas de redução de danos. Afinal, precisamos cuidar do problema do álcool e das drogas por todos os lados e de forma respeitosa e compreensiva.

Introdução
Casos entre famosos
Entrevista: Psicólogo Marcelo Alvares
Entrevista: Dependente químico em tratamento