Aborto
O aborto pode causar arrependimento, mas é um direito que as mulheres querem ter
A solução para muitas parece simples: aborto. O aborto provocado foi o desfecho da primeira gravidez de 16,7% das mulheres de 18 a 24 anos, de acordo com levantamento feito com 4.634 jovens moradoras de Salvador, Rio e Porto Alegre. No entanto, uma pesquisa realizada na Universidade Federal do Ceará com 1200 adolescentes aponta que, apesar de aliviadas, 60% delas sentem-se culpadas e nervosas após o aborto. No Brasil, de um milhão de jovens entre 10 e 19 anos que ficam grávidas a cada ano, mais de 200 mil abortam, a maioria na clandestinidade, provocando sérios riscos à saúde física e psicológica da mãe. As jovens de maior renda, numericamente, engravidam menos precocemente, mas, quando engravidam, abortam mais.
Carol (nome fictício) é um bom exemplo. Ela morava no interior, engravidou com 19 nove anos, entrou em depressão e foi morar com sua mãe na Europa. Ela conta para a reportagem como foi essa experiência:
!Obaoba: Qual foi sua reação quando descobriu que estava grávida?
Carol: Péssima, fiquei deprimida porque estava confiante que anticoncepcionais realmente funcionassem e não é que deu zebra?!
Você pensou em abortar?
Sim. Pena não ter tido essa opção.
Mas o que você pensou na hora?
Foi tipo 'estou grávida, vou abortar". Primeiro eu pensei no que fazer, depois decidi abortar. Mas como, se no Brasil não existe essa escolha da mulher? Com remédio tarja preta é complicado, porque muitas vezes o feto resiste e nasce com defeitos. Não quis correr tal risco ou ficar estéril o resto da vida.
Você pensou em procurar clínicas clandestinas?
Não, eu morava no interior e quando descobri já estava com dois meses e meio. Até juntar recursos para tomar alguma providência já estaria com três. Depois de três meses, pelo que ouvi falar, não dá mais para abortar.
O que você fez então?
Fui procurar um médico para acompanhar a gestação. Quando eu vi o ultra-som pela primeira vez, já fiquei apaixonadíssima pelo bebê. É lindo ver ele se mexer.
E o pai assumiu?
Sim, conversamos sempre. Ele também gostou muito da idéia de ter um filho.
E a família apoiou, como foi a reação?
Ajudou muito, principalmente a família do pai.
Como eles ajudaram?
Dando apoio, conforto, amor, porque quando se está grávida você fica extremamente carente e chata.
Você é a favor do aborto?
Sou a favor do direito da mulher escolher o que é bom ou não para o futuro dela. Mas tudo tem suas conseqüências e, no caso do aborto, seria entrar numa depressão. Mas tendo um bom acompanhamento psicológico é uma boa. Resumindo: sou a favor.
Que recado você mandaria para a menina que se encontra na situação em que você se encontrou?
Nossa, é complicado, porque depende muito de religião, família e namoro. Se ela tiver uma família cabeça abertura é só chegar e conversar para saber o que é conveniente com o que ela quer. Mas não rola um aborto no Brasil, as condições são péssimas. Em países da Europa, como Portugal ou Inglaterra, o aborto é legal, com direito a todo apoio dos médicos. Quando eu cheguei aqui, quiseram fazer em mim. Mas eu não quis porque já estava com cinco meses e já tinha me decidido a ficar com o bebê.
Aí em Londres dá para fazer aborto com cinco meses?
Não, mas a médica não sabia. Ela olhou para minha mãe e disse 'pára de fazer a cabeça de sua filha, ela é jovem e não precisa ter o bebê agora. Eu sei que é a senhora que quer o bebê'. Foi uma confusão! Até que ela viu meus documentos e exames que fiz no Brasil. Aqui eles dão todo o apoio e sigilo.
Se você tivesse ido antes você faria?
Faria.
Introdução
A influência da família na gravidez
Aborto