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Jantar às cegas

Nossa repórter foi convidada a um jantar com os olhos vendados

Por: Marina Gurgel

Thursday, 26 August, 2010 - 17h06

Mr. Magoo, o rei dos ceguinhos

Mr. Magoo, o rei dos ceguinhos 

Parecia uma proposta simples: comer no escuro. Porém, desde o momento em que fui convidada para um jantar em que não poderia ver minha comida, sentia um misto de ansiedade e apreensão e o dia do jantar passava várias vezes pela minha cabeça. 

Eu já tinha ouvido relatos de pessoas que experienciaram esse tipo de jantar, mas em mim a ideia dele despertou medos infantis há muito escondidos. Eu sabia que ninguém ia me dar uma comida ruim só de sacanagem, mas eu me via vendada e imaginava alguém me dando uma colher de maionese. Ainda por cima, vale ressaltar que eu não sou uma daquelas pessoas corajosas que come de tudo: eu sou super preconceituosa com aspectos e texturas.

O evento é organizado pelo Ateliê no Escuro Gastronomia e, nesta edição inspirada no cinema francês, ela aconteceu no Consagrado Bar. Quando cheguei, uma ante-sala recebia os convidados e um ar de curiosidade reinava no ar. Comecei a conversar com outro jornalista, o Marcos Petrucelli, e logo as idealizadoras do projeto, as psicólogas Elis e Maria, pediram para lavarmos as mãos e, em seguida, começaram a explicar do projeto. Além de explicarem que o objetivo daquilo era ser uma experiência prazerosa, elas deram duas dicas: tentem aproveitar o silêncio e comam com as mãos. As pessoas se entreolhavam, esquecendo que um garfo e uma faca podem não ser uma boa ideia na mão de novos cegos. Além disso, elas diziam: depois de criança, comer com a mão era proibido. Se ninguém está vendo aproveite a oportunidade.

Fomos vendados e levados em fila indiana. “Que cena mais Ensaio sobre a Cegueira”, disse Marcos. Com glamour, é claro. Sentei-me à mesa e ouvi uma voz feminina perguntando se tinha alguém ali. Foi a partir daí que eu percebi que, além de ser uma experiência gastronômica, seria social também.

Estávamos em quatro na mesa, e com exceção do Marcos, que vi por apenas alguns minutos, não conhecia as outras pessoas. Os olhos enganam a gente e fazem com que a gente crie conceitos pré-estabelecidos de pessoas que nem conhecemos. Comigo acontece o tempo todo: me acham com cara de nova, e deixam com que isso me defina. Eu também faço isso com os outros o tempo todo. Mas, dessa vez, em cinco minutos engatamos em um papo interessante, e não queríamos mais saber da dica do silêncio. Talvez a gente tenha dado sorte de termos interesses parecidos, mas o fato é que não ter a visão facilitou em muito a empatia.

Mas um sino tocou três vezes e fomos obrigados a nos calar. Ouvimos então a cena de um filme. Qual seria? Uma voz doce me diz então, no ouvido, que meu prato está na mesa. Era o começo da brincadeira: Reila, a moça da minha frente fala do vinho, e comecei a procurar a minha taça. Foi assim que quase bebi um vaso de flores pela primeira vez. (Na foto ao lado dá pra ver o tal do vaso. A flor continuou lá. Já o vinho...) Depois de um gole no tão procurado vinho, resolvi tatear o prato: senti uma torrada. Será que era só isso? Coloquei a mão no meio do prato e lá estava algo estranho, que eu peguei com os dedos, apreensiva, e coloquei na boca. Dei sorte? Seria aquilo um ratatouille (prato franco italiano feito com berinjela, pimentão, abobrinha e ervas de provence)? Ele estava bem do jeito que eu gosto: mais berinjela que abobrinha, um leve toque de alecrim, e uma boa porção de pimentões.

Ouvi o Dani, que estava na minha diagonal, comentar o quanto era bom comer com a mão e percebi que mesmo sem ninguém me ver eu estava tentando comer com delicadeza. Foi aí que resolvi deixá-la para trás e inventei um método de deslizar os dedos a começar pela borda de dentro, em espiral, para achar a comida. Quase bebi o vaso de flores de novo, e resolvi comentar com os meus amigos neo-cegos. Reila quase engasgou com a comida, mas como eu ia saber que ela estava de boca cheia? 

O sininho tocou de novo, veio um trecho de filme, e o prato chegou. Antes veio uma tigelinha de lavanda, essencial para lavar as mãos sujas. O guardanapo eu perdi nos primeiros 15 minutos. Aquelas pequenas coisas redondas eram assustadoras de se pegar. Coloquei na boca e eram boas. Foi quando alguém disse: hummm... ovas de beluga! Meu coração parou por um instante: eu comi ovas? Não pode ser... Fiquei desconfiada, e expliquei que não podia ser, eu não gostava daquilo e tinha avisado. Achei que era melhor deixar para lá, e comi tudo, apesar de mini-bolinhas explodirem quando eu colocava o negócio redondo na boca.

O próximo filme eu reconheci: era Julie&Julia. Veio então uma panelinha quente e eu logo senti a textura da carne. Aquele molho também era familiar: era um Bouef Bourguignon: a carne estava bem macia e o molho, literalmente, de lamber os dedos. Mas ao lado, algo redondo e duro – não poderia ser uma uva. Minha mente infantil já pensou em um olho de boi. Mas resolvi provar e... Ufa! Era uma mini cebola. Como fui esquecer das mini cebolas? O Marcos conta, então que descobriu um purê fora da panelinha, que tinha uma crosta crocante. Ele também descobriu uma salsinha, mas ninguém mais descobriu isso.

Logo os sininhos tocam outra vez e ouço a voz inconfundível de Amélie Poulain e era a hora da sobremesa. Dessa vez coloquei a mão sem medo e senti uma mousse quente com cheio de baunilha. Alguém já tentou comer um creme brulée com a mão? Olha, por mais que qualquer criança diga o contrário, não é uma tarefa fácil, mas eu garanto que foi bem melhor que com uma colher.

Era o fim do jantar e pediram para tirarmos as vendas. Meu lado infantil mais uma vez  surgiu, e eu queria dizer: “Já acabou? Eu quero mais!”. Ao invés disso eu tirei a venda dos olhos e lá estavam meus novos amigos que como eu, estavam meio desnorteados. Tivemos que adivinhar o que comemos e eis que a nossa mesa não foi nada mal. Descobri que o segundo prato eram canapés, mas os meus, como eu tinha pedido, não era de ovas e sim de gominhas de laranja. Em seguida as chefs mostraram os pratos, que ainda por cima eram bem apresentados. Mas isso não importava mais tanto para mim, pelo menos não naquela hora, que eu continuava como um filme mal dublado, com delay entre a imagem e o som. Tomar café olhando para ele foi dificílimo, e com exceção dos meus novos amigos, eu não tinha mais a mesma empatia com aqueles ao meu redor. As pessoas começaram a ir embora, mas ainda ficamos mais, dando continuidade à conversa.

A próximas edições do Jantar no Escuro acontecem nos seguintes dias e locais:

13/9 - Brooklyn Restaurante
16/9 – Ají
21/9 - Café Journal

 

 

Comentários

Pri Passos - Tue, 31/08/2010 - 23h17 -

Adorei Má!!! Ainda bem que não tinha queijo de cabra!! bj

Dudu Cruz - Fri, 27/08/2010 - 16h21 -

Fantástico. Os medos pela perda temporária da visão... A alegria em reconhecer somente com o tato, olfato e paladar as comidas, os preconceitos sendo desarmados por não ter pré visão do que vai comer...
Isso tudo demonstra como construímos nossa vida e nossa sociedade.

Francisca - Fri, 27/08/2010 - 14h47 -

A história é tão saborosa que decidimos incluir esse programa na nossa agenda e conferir

Anônimo - Fri, 27/08/2010 - 09h41 -

adorei!!! ótima

vitoriaw - Thu, 26/08/2010 - 20h10 -

incrivel a experiencia e descrita tao bem que parece que participei tb!

heleninha - Thu, 26/08/2010 - 18h26 -

marina, bárbaro! que experiência pra quem sequer gosta de feijão!! você foi super destemida e atrevida! parabéns!!!

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