A estrada de Criolo

Rapper fala sobre o passado, o presente e o futuro de sua música.

Apontado como um dos melhores ábuns lançados no Brasil em 2011, Nó Na Orelha abriu portas para o rapper Criolo. Há 23 anos difundindo a cultura do rap nacional pelos quatro cantos do país, Kleber Cavalnte Gomes, o Criolo Doido, ou "só" Criolo agora, viu sua música, antes restrita aos admiradores do hip hop, romper barreiras e chegar a ouvidos nunca antes imaginados.

Nó Na Orelha marca uma nova fase na carreira de Criolo. Além do rap, o disco traz bolero, samba, brega, reggae. Desde que Criolo disponibilizou o download gratuito do álbum através de seu site oficial, mais de 50 mil pessoas se renderam a essa mistura inrotulável de diversos gêneros da música brasileira e mundial. Nó Na Orelha é um muito de tudo.

Em longa conversa com o ObaOba, Criolo fala de seu passado desconhecido para a grande maioria das pessoas que baixou ou comprou Nó Na Orelha, tenta explicar o processo de composição e criação do disco e exalta sua comunidade, o Grajaú, na Zona Sul de São Paulo, o Nordeste e o povo brasileiro. Veja a entrevista completa:

Como é pra você, que está no corre há 23 anos, de repente ver teu nome na boca de todo mundo e seu disco sendo amplamente elogiado pela crítica especializada?
Eu não vejo como de repente. "De repente" seria se eu tivesse começado o corre esse ano e as coisas tivessem acontecendo esse ano. Eu acho que tudo isso é fruto de 23 anos de correria. São 23 anos de batalha, se tivesse que acontecer alguma coisa, ia acontecer, foi gradativo. Eu não vejo como um lance do tipo "Nossa, cara. Nunca aconteceu nada". Dentro da história do rap nacional, eu procurei construir muitas coisas, já visitei vários lugares do país graças ao rap. O rap nacional tem uma rede forte, uma comunicação forte. Eu acredito que tudo isso que eu aprendi com o hip hop foi me dando base e força para fazer tudo isso que eu faço. E agora aconteceu de um número maior de pessoas de outros universos musicais terem contato com minha música. Mas não enxergo como "de repente". De repente seria se eu tivesse começado minha história com música há um ano. 

E o que te motivou a dar esse novo olhar para a tua carreira e colocar um brega, um samba, um reggae e outros diversos elementos musicais além do rap no teu trabalho?
Para muitas pessoas é novidade, porque elas são de outro universo e estão tendo contato com a minha pessoa e com a minha arte agora, mas eu já faço isso há 10 anos. Porque meus pais são nordestinos, então eu tenho toda uma cultura bonita da música do Nordeste do nosso país. Porque o Grajaú, bairro onde eu moro, tem um milhão de habitantes e tem pessoas de todos os lugares do Brasil. Toda hora você tem informação cultural de vários pontos desse país/continente. É uma coisa natural. Eu não pensei "Agora eu vou misturar isso com aquilo pra ver no que dá". Foi tudo muito natural. É o dia a dia, as pessoas que estão ao meu redor, as pessoas do meu bairro, as pessoas que fazem rap de altíssima qualidade que eu convivo e que eu conheci em vários lugares do Brasil. Essa história toda já tem mais de 10 anos.
 
Você acha que se o Nó Na Orelha não tivesse sido disponibilizado para download gratuito no teu site (mais de 50 mil pessoas baixaram o disco em menos de um mês) a repercussão seria a mesma?
Quando eu coloquei para download gratuito no site, eu quis facilitar o diálogo, não criei barreiras, deixei disponível. E é uma coisa muito louca. Quando você deixa disponível, você não está impondo. O álbum está lá para quem quiser baixar. Quem quis baixar, baixou. Quem quis comentar, comentou. Então esse processo que vai além das minhas mãos foi muito natural. E foi muito natural para as outras pessoas também. E eu não sei explicar porque tudo isso aconteceu. Acho que o pessoal sentiu que a gente procurou dividir. O dom que a gente recebe não é nosso, existe algum motivo. Se é que eu tenho algum dom. Talvez eu nem tenha...
 
Claro que você tem um dom, Criolo...
Se eu tenho um dom, todo brasileiro tem, no mínimo, 10, 20, 30 dons. O povo brasileiro é um povo que... meu Deus do céu... é minha fonte de inspiração todos os dias, para a luta, para a arte. A sagacidade de você ter uma família, e você ser um cara honesto, um cara digno, que passa bons exemplos para o seu filho, um cara que sabe valorizar sua comunidade e ganha um ou dois salários mínimos por mês. Se for olhar por esse lado... meu Deus do céu... todos os dias a gente aprende com qualquer pessoa. `As vezes o cara que está passando alí do outro lado da rua tem uma história de vida que te surpreende. Em relação a minha música, acho que as coisas que desaguaram nesse Nó Na Orelha aconteceram porque pela primeira vez eu tive a oportunidade de fazer algo dessa magnitude, mas eu já faço isso há mais de uma década.

No teu disco, você fala de Sabotage, Facção Central, Chico Buarque, Fela Kuti. Você não se prende a rótulos musicais para ouvir as coisas que você gosta?
 
Tudo é música. O que nos conecta são os seres humanos que estão escutando, são os corações, a vontade de fazer música. A vontade de um cara que quer ser DJ é a mesma vontade de um cara que quer tocar violão. Ele quer ter contato com essa arte, ele quer fazer parte, ele quer que isso exista na história da vida dele. É uma relação diferente. Muitas pessoas querem fazer música para fazer parte da história da música brasileira e muita gente quer fazer música para que a música faça parte da história de suas vidas. E é isso que nos liga.
 
Então pode-se dizer que você só escuta música boa, independente de rótulos?
Eu não sei o que é bom. Eu não tenho rádio em casa. Eu escuto aquilo que dá para escutar, escuto aquilo que vem aos meus ouvidos. A maioria das coisas que você escuta não foi você quem escolheu. Você sai na rua, você está numa feira livre, você vai numa festa, você vai na casa de um colega onde está rolando música alta. A maioria dos sons que você escuta não foi você quem sintonizou: uma buzina, um problema no trânsito, um carro de bombeiro que passou, ou você passa num determinado lugar e tem um grupo de crianças cantando as músicas que curtem. As coisas vão esbarrando em você. E você vai esbarrando nas coisas também.

Nos anos 1980 e 1990, o rap nacional ainda era muito restrito a periferia. A estrutura que os rappers tinham para gravar e fazer shows era muito precária. A partir do fim dos anos 1990 e início dos anos 2000, o rap começa a sair da periferia e invadir a classe média e ganhar mais notoriedade. Como você enxerga essa glamourização que o rap nacional vem passando nos últimos anos?
Glamour tem em tudo. O glamour só parte do coração da pessoa que quer viver o glamour. Pode ser a ótica dela para o rap ou para qualquer outro segmento musical, como o rock, a música sertaneja, o samba. É da ótica da pessoa que gosta de ter essa relação de glamour com suas coisas, com seu ciclo de amigos. Tudo isso vai além da música. A relação que você tem com o artista depende da sua história de vida. Cada um tem sua história e se relaciona com cada música ou artista, independente de ser do rap ou não, de um jeito específico.

Muitos artistas do rap, os Racionais MCs são o exemplo mais forte, são avessos a holofotes e a grande mídia. E essa dimensão que o rap alcançou nos últimos anos fez a música de vocês ultrapassar as fronteiras da periferia e chegar ao ouvido de pessoas que vivem outra realidade, que não é a mesma que vocês cantam. O que você acha disso?
Eles começaram a ouvir rap e a fazer rap. A arte é livre para todos. É a mesma coisa que eu pesquisar onde inventaram o violão e só pessoas daquele lugar do mundo puderem tocar violão. O que você faz com aquilo que toca seu coração, o que você divide com o mundo, é outra história.

No Nó Na Orelha, além do rap, a gente encontra samba, reggae, bolero, brega. Você ainda se considera um rapper ou já se autoclassifica com um cantor?
Aos 11 anos de idade eu fiz meu primeiro verso, meu primeiro poema. E eu fui acolhido pelo rap. Em 23 anos, eu procurei me desenvolver, melhorar. Há seis anos eu decidi fazer algo mais e criei um evento para abrigar novos talentos e mostrá-los para o mundo (Rinha dos MCs). Se eu sou um cantor ou um rapper, é o olhar do outro que vai dizer isso. Mas eu tenho muito orgulho de falar que eu sou um MC. Para mim, no meu coração, pela minha história de vida e pela minha relação com a música. Tem um verso meu que diz "O meu berço é o rap, mas não existe fronteira para a minha poesia". A poesia pode estar num sorriso, a pessoa pode não cantar ou tocar um instrumento, mas ela te dá um bom dia e muda todo o clima. Isso também é poesia.

E como surgiu a ideia de fazer aquela versão contemporânea de "Cálice", do Chico Buarque e do Milton Nascimento? Foi espontâneo, uma espécie de brincadeira ou foi tudo premeditado?
Não foi brincadeira, não, mano. Eu já tinha aquela poesia na minha cabeça há algum tempo. Um colega me convidou para ajudá-lo a gravar algumas coisas que ele precisava para um trabalho que ele tinha que fazer, ele estava desligando os equipamentos, que eram uma câmera e um microfone de lapela, aí eu disse: "Poxa, cara. Não quero abusar de você, mas dá pra me filmar declamando uma poesia para eu ter esse registro para mim?". Ele disse que tudo bem. Eu procurei fazer o mais rápido possível, foi um take só. Até porque ele tinha que arrumar os equipamentos e seguir a vida dele. E premeditado também não é a palavra certa. Dá a impressão que eu quis criar uma situação. Só tinham algumas coisas que estavam fomentando na minha cabeça, tanto que não existe nenhum pedaço de papel. Eu não tenho essa poesia escrita num caderno. Eu tinha alguns tópicos, algumas coisas que eu queria falar, aí rolou a construção. Foi um momento sublime. Não é premeditado, mas você tem a intenção de uma construção. Então é algo que existe, mas ainda não foi erguido. Aí naquele momento aconteceu.

E você gosta de Chico Buarque e Milton Nascimento? Qual a sua relação com a música feita por eles?
É difícil falar dos mestres. Eles são mestres. Pessoas que contribuem muito para a nossa música com suas letras.

Os ingressos dos teus shows se esgotam com uma rapidez assustadora, você vem passando por uma batalhão de entrevistas. Como você encara essa repercussão toda depois do lançamento do Nó Na Orelha?
Eu acho que é natural. Para mim, é uma grande felicidade vocês (jornalistas) quererem conversar comigo, quererem saber um pouco mais. Eu procuro encarar com naturalidade e procuro dar o melhor de mim em qualquer entrevista, seja ela pequena, para um blog, para os grandes jornais, para a TV. Todos são profissionais que estão querendo ver o que está acontecendo. Acho que é natural tudo isso. Somos adultos, eu já vou fazer 36 anos. Eu não enxergo o sucesso. Sucesso seria se eu tivesse começado há seis meses e tudo isso tivesse acontecido. Já são 23 anos, né? Eu penso em música 25 horas por dia. E vai além da estética do belo, daquilo que pode ser apreciado pelos ouvidos e pelos olhos. A ideia é descobrir em que eu posso contribuir para a minha comunidade e para as pessoas que estão próximas de mim. Procurar um mundo melhor em meio a todo esse caos. Se você puder ajudar uma pessoa, ajude. Alguém me ajudou para eu conseguir fazer esse disco. Eu não tenho grana. Então é isso, cara. Uma corrente do bem que vai acontecendo, que vai rolando.

Um bandeira que você vem defendendo nos últimos dias é o questionamento da aprovação do Código Florestal. No Twitter, no Facebook, nos seu shows, sempre você toca no assunto... 
Tudo que eu puder fazer para contribuir para que chegue a informação, ou pelo menos uma pitada dela, para a juventude, ou para as pessoas que estão em determinado momento comigo, eu vou fazer. E aí cada pessoa, dependendo do seu nível de interesse, vai querer saber o que está acontecendo. Sempre foi assim. O rap sempre foi assim. Os MCs sempre fizeram isso.

O teu primeiro disco, Ainda Há Tempo, teve uma tiragem muito pequena, de apenas mil cópias. Você não pensa em aproveitar o sucesso que o Nó Na Orelha está fazendo e relançá-lo agora?
Não. Não penso, não. Ele já está disponível na internet para todo mundo baixar faz um bom tempo.

Qual a importância do Daniel Ganjaman e do Marcelo Cabral, os produtores do Nó Na Orelha, para a composição e finalização do disco, para ele ter esse formato? Você chegava com as canções prontas e eles acrescentavam algumas coisas? Como foi o processo de gravação?
Foi tudo muito natural. Eles respeitaram muito as coisas que estavam na minha cabeça e fizeram de tudo para transformar em realidade aquilo que estava na minha mente. São grandes profissionais, são pessoas que tiveram um processo diferente comigo. Tudo é diferente, né? Cada pessoa tem um jeito. E a gente passou por momentos especiais. Levantar o Nó Na Orelha foi um momento muito especial. O Marcelo Cabral é um cara que realmente é um músico especial. Ele toca com o coração, ele pensa com o coração, a musica dele vem do coração. O Daniel Ganjaman também. E eles são diferentes. E rolou um equilíbrio. Pela história de vida de cada um com música e pelo tanto de tempo que cada um tem na música, rolou um equilíbrio. Aí juntou o Criolo também. Aí ferrou.

E por que você abandonou o "Doido" no seu nome artístico a partir do lançamento do Nó Na Orelha?
Eu abandonei o "Doido" porque eu já tenho 23 anos na música rap, e há 10 anos eu já faço diversas outras coisas que pouquíssimas pessoas sabiam até agora, mas mesmo assim eu ainda precisaria viver mais 200 anos e contribuir muito, não só cantando, mas em outras ações também, para poder receber esse elogio de "Doido".

Atualizado em 20 Mai 2014.

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