Entrevista: Orquestra Brasileira de Música Jamaicana

Banda que faz releituras em ska de clássicos nacionais estreia show em São Paulo.

Começa a imponente introdução da Hora do Brasil. É "O Guarani", de Carlos Gomes. Esperamos entrar a voz sóbria do locutor da Radiobrás: "Em Brasília..." Dezenove horas? Nada. Hora de dançar ska! E "O Guarani" vira uma paulada à moda jamaicana, com a guitarra berrando "skat, skat" e a metaleira, de fazer Fela Kuti orgulhoso, dominando o campo sonoro. É assim que o ouvinte entra no mundo da Orquestra Brasileira de Música Jamaicana, que estreia o show de seu primeiro EP nesta sexta-feira (18/09), na Aldeia Turiassu, em São Paulo.

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O nome é absolutamente auto-explicativo. Os nove elegantes brasileiros acima - Sergio Sofiatti (guitarras e vocais), Felippe Pipeta (trompete e flugel), Ruben Marley (trombone), Marcelo Cotarelli (trompete e flugel), Fernando Bastos (sax tenor e flauta), Igor Thomaz (sax barítono e alto), Fabio Luchs (bateria), Rafael Toloi (baixo) e Lulu Camargo (teclados) - formam o conjunto que faz música "bramaicana", como conta o band leader Sergio Sofiatti. Sim, aquele mesmo que encabeçou o Skuba, grupo de punk ska do final dos anos 90 que gravou dois discos (Churraskada e À moda antiga) e fez algum sucesso com o single "Triado", que narrava o sofrimento de um pé de cana no pós-balada.

Passada a ressaca, Sofiatti tem se dedicado, ao lado de Pipeta, a destrinchar os sons de uma Jamaica sessentista, povoada pelos ecos do calipso e do rhythm & blues americano. Uma Jamaica riquíssima em produtores lendários - Clement "Coxsonne" Dodd, Leslie Kong, Harry J - e artistas que, embora não soubessem, conquistariam o mundo na década seguinte. Casos (entre muitos outros) de Bob Marley, Jimmy Cliff, Alton Ellis, Laurel Aitken, Derrick Morgan e The Skatalites. Esses últimos aliás são não só a influência maior como - quase - fãs do trabalho da OBMJ. É que o conjunto "bramaicano" teve a honra e a responsa de testar seu repertório de releituras (o EP traz ainda "Tico-tico no fubá", "Carinhoso", "Águas de Março" e "O Barquinho", além da autoral "Ska Around The Nation") na abertura do show que os Skatalites fizeram em São Paulo em junho deste ano. "Quando estava tocando", lembra Sofiatti, "olhei pro lado e os velhinhos estavam dançando lá no nosso show". Motivo de sobra para você, depois de ler a entrevista abaixo, colar na Aldeia Turiassu nesta sexta-feira.

Clique aqui para ver a OBMJ tocando "O Guarani" na abertura do show do Skatalites, no Clash Club, SP

Todo mundo que entra em contato com o som da OBMJ fica intrigado. Afinal, todos os sons são familiares e ao mesmo tempo diferentes. Vocês tinham a ideia de atingir a todo e qualquer público com essa música?
A gente acabou se tocando que era um grande golpe de marketing (risos). Mas isso eu te juro que foi depois, não foi premeditado, não. Porque, na real, só queríamos ter uma banda de música tradicional jamaicana. Depois que veio essa ideia de fazer música brasileira... Quando começamos a pesquisar mais a fundo, descobrimos até banda italiana e japonesa fazendo versões de música brasileira. Falamos: "Pô, meu! Que vergonha... Todas as bandas fazendo e nós mesmos não fazemos uma versão". Aí, calhou: "Vamos fazer um monte de versão!" (risos).

Como foi a escolha do repertório?
Cara, teve muita pesquisa. Corremos atrás de versões que se encaixassem nos ritmos... Muita coisa não ficava legal e era descartada. A música tinha que ficar bacana no tipo de reggae, no tipo de ska que queríamos. O processo seletivo foi esse - a gente pegava e falava "puta, essa aqui deve ficar legal". Aí fazia e "pô, não fica muito...". Ou, fica: "Fechou, vamos fazer". Foi meio nessa onda - tudo que soava bem, a íamos encaixando.

Qual vocês descartaram, por exemplo?
Descartamos uma música que adoraria tocar... Mas estamos sendo persistentes ainda: "Aquarela do Brasil", cara. Normalmente, essas coisas mais sincopadas da música brasileira (meio samba) são um pouquinho complicadas. Mas ainda queremos fazer, principalmente, visando o mercado lá de fora. São coisas de rápida assimilação, né?

Tipo "Águas de março" (clássico de Tom Jobim que integra o repertório do EP do grupo) ?
Tipo "Águas de março", "O barquinho"... Elas são conhecidas. Dentro do nosso repertório, "Águas de março" é, com certeza, a mais rápida (em termos de assimilação pelo público). "Tico-tico no fubá" também, que ficou imortalizada por causa da Carmen Miranda.

No MySpace de vocês, tem um medley que mistura bases clássicas dos Skatalites e marchinhas de carnaval. Têm tudo a ver. Como ninguém pensou nisso antes?
Engraçado, cara... Desde a época do Skuba, que tinha um repertório bem mais voltado para o punk ska, a gente sempre discutia isso: o ska tem muito a ver com a música brasileira. Na verdade, não tem nem como não achar isso porque tudo vem da música africana: o baião é praticamente um ragga; no Maranhão, eles dançam forró com ritmo de reggae.

Mas como vocês fizeram para resumir essa confluência em um arranjo?
Tínhamos vontade de fazer as marchinhas... Aí, foi meio por acaso. "Pô, vamos misturar com os clássicos". Quem conhece um pouco de ska conhece aqueles clássicos: "Guns of Navarone" (The Skatalites), "Simmer Down" (Bob Marley & The Skatalites)... A nossa vontade foi deixar o negócio o mais divertido possível. É uma homenagem em prol da diversão.

Como foi a escolha dos músicos?
Eu e o Pipeta (trombone e flugel) começamos esse projeto antes, estudando e levantando as músicas, fazendo um rascunho do que seria. Quando gravamos esse EP, só montamos a metaleira e chamamos o baterista, Mauriba, que tocava no Sapo Banjo com o Pipeta. Na metaleira, eu chamei uns conhecidos, ele também, e montamos o quinteto de sopros. Eu gravei baixo, guitarra e os teclados. Quando montamos a banda, gravamos mais um pedaço das músicas - o medley (das skamarchinhas) é dessa segunda leva. E mudamos de baterista. O Maurício (Mauriba) ficou impossibilitado de continuar porque estava com outros compromissos e precisávamos da devoção dos músicos. Aí, entrou o Fabio Luchs, o Lulu Camargo (teclado) e o Rafa (Toloi, baixo) e finalizou a banda. Começamos a montar o repertório do show. Agora, estamos com o time fechado e pronto pra tacada.

Vocês já testaram a OBMJ no palco?
Abrimos esse último show do Skatalites que teve em São Paulo. Mas, por causa dessa estreia iminente, não quisemos divulgar. Quando o pessoal chamou pra tocar, pedimos pra não botar o nome. "Põe show surpresa", pra não gastar a ação antes e centralizar tudo no show de agora.

E vocês conseguiram fazer isso?
Sim, cara... Estamos divulgando bastante. Inclusive no corpo a corpo: panfletando em baladas... Estamos meio que voltando à época em que o pessoal saía mesmo na raça. Hoje em dia, todo mundo quer ser celebridade, né? Ninguém quer ser banda ou quer ser músico. O cara quer ser famoso primeiro: "Vamos tirar uma foto legal e quando o fotolog estiver bombando, a gente faz um ensaio pra ver como é que é a banda" (risos). Mas todo mundo aqui já é meio macaco velho e quer primar por ter um show legal, condizente com o que o cara escuta nas gravações. Porque hoje em dia, o grande problema é esse - você ouve a gravação e fala: "Pô, que legal, cara!"; vai no show e não tem nada a ver com o que você ouviu porque o cara mexeu em tudo. Editou, afinou... Não temos isso; é a vida como ela é. Gravamos, é claro, parte por parte, mas estamos trabalhando bastante para ter esse show afinado também. Nossa intenção maior é divertir a galera e acabar se divertindo com isso.

Você produziu o disco. Quer dizer, você foi o maior responsável pela afinação da gravação. Como é a exigência com os músicos na hora de levar o som pro palco?
É grande, cara. Acabo tendo fama de chato por causa disso, mas vale a pena. Mas, pô, a galera que chamamos pra tocar é super competente, não teve trabalho nenhum. Algumas pessoas ali não conheciam a fundo essa praia, mas todo mundo chegou na humildade total, "Pô, quero conhecer, quero saber do que se trata". Pra gente, é muito importante esse resgate, mas fazer da forma certa, tentar chegar o máximo no que os caras faziam, mesmo usando gravação digital, pro tools. Não é a mesma coisa que gravar num gravador analógico bem antigo, né? Na real, o projeto para um próximo disco é gravar, se bobear, ao vivo e analogicamente.

Tipo Studio One (lendário laboratório de Coxsonne Dodd, de onde brotaram algumas das mais importantes pérolas da música jamaicana nos anos 60 e 70).
Tipo Studio One.

Como você disse, todo mundo é macaco velho. Macaco velho é cheio de bandas, projetos, discos, participações. Como você faz toda essa gente se dedicar com tanto afinco a um projeto paralelo?
É difícil, cara. Os momentos mais tensos que tivemos na banda foram na marcação de ensaios - aliar a agenda de todo mundo. Mas a boa vontade de todo mundo ajudou. Principalmente agora, que está chegando mais perto do show. Nessa semana, por exemplo, temos três ensaios: segunda, terça e quarta. Aí, folgamos na quinta-feira pra conseguir fazer um show legal na sexta.

O que vocês prepararam para esse show, além do repertório do disco
Temos quase 17 músicas no repertório. Na demo, tem "Ska Around The Nation", que é minha e, no repertório completo, vai ter "Revolution Ska", que é do Pipeta. O resto são versões. Além das que já tem ali, tem "Trenzinho caipira" (Tema ilustre do maestro Heitor Villa Lobos) em versão rocksteady, "Na baixa do sapateiro" (de Ary Barroso), "Que maravilha" (Jorge Ben Jor), "Minha menina" (também de Ben Jor, imortalizada pelos Mutantes). Temos três músicas cantadas no show, além do Medley... Se a gente fizesse um show inteiro instrumental, ia acabar cansando um pouco o público.

Em um formato bem Skatalites, mesmo, né (que alterna faixas instrumentais e vocais)?
Exatamente, cara. Na verdade, siga o mestre (risos)!

Como o Skatalites recebeu o som de vocês?
Pô, cara, ficamos até emocionados. Quando estava tocando, olhei pro lado e os velhinhos estavam dançando lá no nosso show. Arrepia... Foram os caras que criaram, que começaram tudo 50 anos atrás.

E o contato com eles?
Foi super bacana. Eu, na verdade, conversei com o saxofonista (Lester "Ska" Sterling, cujo apelido dá dimensão da importância), que é um dos fundadores... Engraçado que ele chegou pra mim e falou: "Nossa, vocês tocam com partitura, né?". Eu falei: "Pois é. Mas por quê? Vocês não usam?"; "Não, nós nunca usamos partitura". Eu pensei: "Puta que o pariu, meu...". A música deles sempre foi muito espontânea. Autoral e espontânea. Você escuta qualquer coisa do Skatalites, tem um tema ali muito simples e improvisos de quase todos os instrumentistas em todas as músicas. Temos esse formato também mas, por exemplo, "Carinhoso" é uma música que não tem nenhum improviso, é só o tema. Então, o pessoal precisa ler porque haja memória (risos)! Ainda mais com algumas corridas pela fumaça de Jah (risos)...

(Risos) Já em "O Guarani", dá para improvisar bastante?
Exatamente, "O Guarani" tem um formato de standard de jazz. O "Trenzinho caipira" também é mais ou menos nessa onda. Acho que a grande maioria das músicas no repertório tem essa característica jazzística.

E os vocais? Vocês mesmo assumem ou pensam em convidar alguém para cantar?
Então, cara... Está meio em cima da hora mas queríamos chamar um convidado que ainda não sabemos quem é. Mas essa semana resolvemos isso, cara. Pra esse show teremos um convidado de última hora mesmo. A intenção é mesmo chamar pessoas. Temos um show no Circo Voador (RJ), em 31 de outubro, e vamos ver se conseguimos agilizar umas pessoas, galera do rap... Ainda não pensamos a respeito - estamos super concentrados no show de São Paulo -, mas de última hora entrou uma música no repertório e quisemos chamar alguém pra cantar.

Como está a expectativa do grupo para a estreia?
Tá bem grande. Pra mim e pro Pipeta é um trabalho de quatro anos. Às vezes, nem tanto o trabalho duro de montar arranjos, mas pesquisando, pensando a respeito, apurando a ideia e tudo mais. Então, colocamos muitas fichas na Orquestra. Botar o time em campo é a realização de um sonho. E esperamos não parar, fazer shows legais, com estrutura.

Vocês pensam em incorporar outros estilos da música brasileira ao repertório da OBMJ? Fazer um Luiz Gonzaga, por exemplo?
Sim, com certeza, cara. Acabou não dando tempo de colocar no repertório, mas temos uma música do Luiz Gonzaga que com certeza vai ficar pros próximos shows. Na verdade, temos inclusive a ideia de fazer outros projetos. Não vamos ficar só fazendo versão de música brasileira. Podemos muito bem vir num próximo disco com clássicos do jazz, da jovem guarda. Não estamos amarrados a nada. Pra gente, tudo acaba em música jamaicana.

Por que vale a pena ir ver a OBMJ nessa sexta-feira, na Aldeia Turiassu?
Uma experiência divertida. Essa é a nossa promessa. Vai ter o DJ Thiago que é também da nossa praia... A ideia é fazer uma noite jamaicana. Quem for, vai se inserir no contexto. E ninguém torce o nariz pra música jamaicana.

Serviço:
O que: Show Orquestra Brasileira de Música Jamaicana
Quando: Sexta-feira, 18 de setembro, a partir das 22h
Onde: Aldeia Turiassu - Rua Turiassu, 928; Perdizes
Quanto: Nome na Lista R$ 20; na porta R$ 30

Atualizado em 20 Mai 2014.

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